Ministérios: Bolsonaro forma quadrilha em Brasília

Onyx Lorenzoni e Paulo Guedes. Agência Brasil

Futuros ministros do novo governo estão até o pescoço envolvidos em corrupção

Bolsonaro se elegeu capitalizando o enorme desgaste dos políticos tradicionais e das instituições, colocando-se como o novo, um “outsider” não manchado pela corrupção ou o fisiologismo da “velha política”. A fim de legitimar essa marca, concentrou seu discurso contra a corrupção, aproveitando-se dos escândalos que atingem o PT, PSDB, MDB e praticamente todas as siglas que povoam o Congresso Nacional.

A própria história política de Bolsonaro, deputado por 30 longos anos, já desmentiria esse discurso, aliado a denúncias de enriquecimento ilícito, o uso de funcionários fantasmas ou o esquema de caixa 2 nessas eleições. A montagem do novo governo, porém, reafirma que corrupção nunca foi problema para o capitão reformado. Entre os principais quadros convocados para compor seu governo, desfilam gente com uma extensa ficha corrida por corrupção.

O principal deles, pelo cargo que ocupará, é sem dúvida Onyx Lorenzoni (DEM), futuro chefe da Casa Civil de Bolsonaro. O deputado, um dos principais articuladores da campanha do então candidato do PSL na ala “civil”, já admitiu ter recebido R$ 100 mil em caixa 2 na campanha de 2014. Recentemente, delatores do grupo J&F, dona da JBS, afirmaram que deram a Onyx outros R$ 100 mil na campanha de 2012.

Lorenzoni foi o relator das 10 medidas contra a corrupção apresentadas pelo Ministério Público Federal como resposta aos escândalos revelados pela Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, que já disse que “corrupção em financiamento de campanha é pior que desvio de recursos para o enriquecimento ilícito“, fez pouco caso das denúncias contra Lorenzoni: “Ele já admitiu e pediu desculpas“. Se os outros corruptos que o juiz condenou soubessem que seria tão fácil…

Mais um da lista de corruptos nomeados por Bolsonaro é o futuro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O homem que vai comandar a pasta com um caixa de R$ 128 bilhões é investigado por fraude em licitações, tráfico de influência e caixa 2. Os crimes teriam sido cometidos quando Mandetta esteve à frente da Secretaria da Saúde de Campo Grande (MS) entre 2005 e 2010.

Já a futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM) foi citada em delação da JBS durante investigações sobre incentivos fiscais concedidos pelo governo do Mato Grosso do Sul, onde era secretária estadual de Desenvolvimento Agrário e Produção, entre 2007 e 2014. Ao mesmo tempo em que dava incentivo fiscal à empresa de Joesley Batista, Cristina mantinha negócios com a JBS.

Outros nomes que já acompanham Bolsonaro há mais tempo, como Paulo Guedes, seu guru da economia, também colecionam denúncias. Guedes é investigado pelo Ministério Público Federal por fraude na gestão de fundos de investimento.

Nem mesmo o astronauta Marcos Pontes escapa. O futuro ministro da Ciência e Tecnologia foi investigado por integrar uma empresa privada, a Portally Eventos e Produções, quando ainda estava na ativa (Pontes era tenente-coronel da Força Aérea e militar é proibido de se envolver em atividades comerciais).

O novo governo de Bolsonaro, assim, não será marcado apenas por figuras folclóricas da ultradireta, como o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que denuncia um complô marxista internacional e nega o aquecimento global, ou o futuro ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, que denuncia essa mesma conspiração marxista na Educação e defende o Escola Sem Partido, projeto que tacha os professores da rede pública como perigosos doutrinadores de esquerda.

Bolsonaro terá um ministério repleto de notórios corruptos exatamente como foram os governos Lula, Dilma e Temer. Sem falar nos representantes diretos dos bancos, como Joaquim Levy (Bradesco), futuro presidente do BNDES, que também compôs o governo Dilma, ou Roberto Campos Neto, do Santander.

Talvez por isso tenha recentemente mudado seu discurso, ao afirmar que “muito mais grave que a corrupção é a questão ideológica“.