Mineração: quando a vida do operário vale pouco

O acidente com os 33 mineiros no Chile mostrouCongonhas, 20 de outubro. A mina “Fábrica” da Vale não pode parar. A noite escura anuncia a madrugada. O vento frio carregado de poeira corta a pele, o barro encardido suja as botas. Os trabalhadores vencem o sono, alguns comentam sobre futebol, outros contam piada para descontrair. A turma da “zero hora” inicia a jornada de trabalho à meia-noite. Como chegará ao final é incerto…

Alguns operários dirigem-se aos gigantescos caminhões “fora-de-estrada”, arriscando suas vidas por caminhos tortuosos e mal conservados – vão carregar toneladas de minério de ferro noite adentro. É preciso estar atento e driblar o cansaço, já que as metas de produção exigem “eficiência máxima”. Mecânicos, eletricistas e operadores seguem para seus postos, vão desafiar o perigo constante de acidentes: não podem falhar. Como peças de uma complexa engrenagem, arrancam do solo a riqueza tão cobiçada.

As montanhas recheadas de minério são fonte de uma fortuna imensa. Nelas também são inscritas as marcas de mortes, acidentes, mutilações e desastres de incontáveis vidas operárias. Qualquer semelhança com a tragédia dos 33 mineiros no Chile não é uma mera coincidência. As mineradoras estão com as mãos sujas de sangue no Brasil e em todo o mundo.

O Chile é aqui
O mineiro Franklin Lobos, um dos 33 trabalhadores presos na mina no Chile, desabafou: “Dizem que somos heróis, mas não, não somos heróis, somos vítimas. Nós lutamos por nossa vida, nada mais, porque temos famílias. Somos vítimas dos empresários que não investem em segurança”. O operário, que ficou meses confinado a 700 metros de profundidade, acrescentou: “A maioria pensou que ficaríamos lá. Sairia mais barato nos deixar morrer do que nos resgatar”.

O mineiro chileno sintetizou em poucas palavras a essência das empresas mineradoras: a ganância que não conhece limite. O único objetivo é o lucro cada vez maior. A vida dos trabalhadores é um simples instrumento para alcançar esse fim.

Aqui no Brasil, Freitas*, operador da Vale em Mariana (MG), num tom contido e sério, afirma o mesmo: “o que importa para eles (a empresa) é atingir as metas, nada mais”. Seu colega de trabalho, um mecânico de manutenção na mina “Alegria”, sofreu um grave acidente há cerca de um mês. “Disseram que ele cometeu um erro, mas todos sabem que a máquina não tinha condições de uso, ele saiu queimado pela água fervente”.

As tragédias sucedem-se
Em Carajás, no Pará, a maior província mineral do mundo, um operador da Vale dirigia um caminhão de 13 metros de altura (equivalente a um prédio de quatro andares), com capacidade para 240 toneladas. Ao dar ré no caminhão, o operador não percebeu a presença do eletricista Thiago: o monstruoso veículo esmagou o corpo do trabalhador. Às 3 horas da manhã, Thiago segurava um cabo elétrico, que transferia energia para uma escavadeira. O operário não tinha lanterna nem rádio de comunicação, a visibilidade era deficiente por falta de iluminação adequada. Não houve tempo para socorro.

Situações como essas não são exceções. Somente em 2008, a Vale registrou mais de 2 mil acidentes em seu quadro de funcionários, sendo 16 mortes. Já em 2009, de acordo com seu relatório de sustentabilidade, ocorreram 11 mortes em suas áreas em todo o país, sendo nove mortes ligadas à produção/manutenção e três trabalhadores de serviços contratados em transporte. É preciso dizer que esses números escondem o real tamanho do massacre. Parte significativa das mortes e acidentes ocorre em empresas terceirizadas que prestam serviços à Vale, números que não são computados nos relatórios da empresa.

CSN com as mãos sujas de sangue
Vinte e um de outubro, mina “Casa de Pedra” da CSN. A poeira do minério que encobre o céu da cidade é o sintoma da imensidão da mina que se espalha por mais de 60 km de extensão. No seu interior, cerca de 6 mil operários retiram incessantemente da terra milhares de toneladas de minério de ferro. Nesse mundo de riqueza, trabalho e suor, a vida dos mineiros vale pouco, muito pouco.

Paramos para uma conversa com Santos, operador de caminhão da CSN. Com a expressão cansada após mais um dia de trabalho duro, ele nos faz um relato triste e emocionante: perdeu três colegas em um acidente fatal em 2009. “É muito triste o que aconteceu, todos nós ficamos comovidos”. Questionado sobre o que aconteceu, ele não tem dúvidas: “A estrutura onde trabalhavam caiu sobre eles, simplesmente caiu. Aqui na CSN é tudo provisório, equipamentos e estruturas precárias, tudo o que vale é garantir a produção, garantir a expansão… É claro que a empresa é a culpada”.
Porém, o que mais indigna Santos é a postura da CSN. “Até hoje a empresa não admitiu a responsabilidade, foram três pais de família, todos sabem, até as investigações oficiais já disseram isso”, desabafa. A tragédia ocorrida em 2009 não mudou as condições de trabalho e segurança na mina. “Muitos acidentes acontecem todos os dias. Quem é lesionado quase sempre é demitido, não tem jeito”, lembra o operário.

Lucros recordes e exploração brutal Em Congonhas, as casas são simples e pobres, as ruas sujas pelo barro deixado pelos caminhões nos lembram do drama da cidade operária. Na casa de Silva, trabalhador da Vale, somos recebidos com um café quente e fresco. Conversando sobre a situação das mineradoras no país, um número chama a atenção do operador: “Nove bilhões de reais só no primeiro semestre de 2010, lucro líquido, é muito dinheiro, não é? Acho que nunca ganharam tanto”, diz. Ele tem razão, a lucratividade da Vale cresceu mais de 300% somente este ano, sua produção registrou aumento de 70%, sendo 82 milhões de toneladas somente no terceiro trimestre deste ano.

Mas esse dado é só um aspecto da questão. Quando comparados os lucros com os salários, o contraste é gritante. “A maioria não ganha nem três salários mínimos”, nos informa o trabalhador. Mais uma vez, Santos está correto. Os “custos” trabalhistas representam míseros 5% do orçamento total da Vale (segundo o que consta em seus relatórios financeiros). Porém, o absurdo não para por aí. “Os acionistas vão receber mais de R$ 2 bilhões, já nossa PLR, acho que não vai aumentar”, conclui o operário.

A insatisfação existente entre os trabalhadores da Vale é ainda mais amarga entre os operários da CSN. Uma declaração, em especial, indignou a todos na última semana. Quem teve o “mérito” foi o presidente da empresa e atual presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch. O bilionário empresário, em discurso recente, deu o seguinte recado: “Cinco por cento de aumento real nos salários é um exagero”. Steinbruch se referia ao reajuste dos metalúrgicos conquistado com greves e paralisações em todo o país. Seu temor é que esse exemplo seja seguido pelas demais categorias de trabalhadores.

Evidentemente, sua declaração não “pegou bem” entre os operários. Jesus, caldereiro da CSN, não deixou dúvidas sobre isso: “É brincadeira esse Steinbruch… Aqui na mina muitos ganham dois salários mínimos, só este ano a CSN já lucrou mais de R$ 3 bilhões, cresceu mais de 100% o seu faturamento”.

Privatização e degradação
Mariana, 22 de outubro. Caminhando pelo bairro Maquiné, pode-se observar ruas largas, casas bem construídas e amplas, hospitais e escolas, em resumo, um bairro planejado e bonito. “Isso é herança da Vale quando era estatal. Tinha casa, hospitais e bairros planejados para os operários. Agora tudo é diferente”, conta Marciano, eletricista da empresa.

Continuamos a caminhada e chegamos ao bairro Novo Rosário. O cenário é distinto: ruas estreitas e desconexas, casas pequenas. Durante a caminhada, não avistamos nenhum hospital ou escola. Toda a ocupação do bairro é “ilegal” e feita sem planejamento. A maioria dos moradores é de famílias de trabalhadores da Vale. “Agora é assim, não há nenhum investimento em infraestrutura, saúde e educação. As mineradoras pagam só 2% em impostos, um dos menores do mundo. Não fica nada para os trabalhadores e para a população, a riqueza vai toda embora, assim como os navios carregados de minério”, afirma o trabalhador.

Outro exemplo que ilustra bem o retrocesso na vida dos operários foi o rebaixamento do nível salarial com a privatização. Zezé é eletricista da mina Fábrica há quase trinta anos. Quando perguntado sobre o que representou a privatização, responde rapidamente: “Em 1988, meu salário era equivalente a oito mínimos. Atualmente ganho pouco mais de quatro salários, meu rendimento caiu pela metade com a privatização”. Para os novos, a perspectiva é ainda mais sombria: “Dificilmente vão passar de quatro salários, a maioria vai ficar com no máximo três, não vão melhorar de vida”, afirma taxativamente.

A realidade na CSN não é distinta, mas até pior. Dinei, mecânico da CSN há mais de vinte anos, nos lembra: “A CSN, quando era estatal, em sua primeira expansão, construiu um bairro inteiro, tudo planejado, casa para os operários, escola e hospital. Na atual expansão, é tudo ao contrário. Por exemplo, o bairro do Pires em Congonhas vive um drama: a água é poluída, o barro invade as casas, a poeira adoece as pessoas, é uma tristeza”, afirma.

* Os nomes verdadeiros dos operários citados ao longo da reportagem não foram revelados por uma questão de segurança dos mesmos.
Post author João Pedro Freitas, de Congonhas (MG)
Publication Date