Metalúrgicos da Volks do ABC derrotam banco de horas

Como em 2001, os operários da Volkswagen rejeitam o banco de horas numa assembléia realizado no dia 11 de julho. Naquela época, em decorrência da retração da economia, a fábrica fez uma chantagem com os operários três meses depois da rejeição. Três mil foram demitidos.

Com Luiz Marinho dirigindo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a Volks e a entidade fizeram uma manobra. Em novembro do mesmo ano, impuseram, novamente, o banco de horas e as demissões a conta-gotas.

Em 2008, pode ser diferente. O crescimento econômico definiu a polêmica que se instalou na fábrica, tanto no ABC quanto em Taubaté. Tanto lá quanto aqui, nos últimos anos, as novas contratações trouxeram novos trabalhadores às fabricas. Esses trabalhadores não viveram os anos de demissões da década passada.

Exemplo de São José dos Campos
A vitória dos trabalhadores na GM de São José dos Campos (SP) teve um papel muito importante na decisão dos trabalhadores de São Bernardo.

O boletim da Conlutas “Ferramenta de Luta” realizou intensa propaganda da vitória na GM. Também foram distribuidos 300 DVDs da campanha contra o banco de horas e contra a redução de direitos na fábrica Volks.

Um integrante do racha da artsindical, Ailton Gomes, membro da comissão de fábrica na ala 14 (montagem final) em assembléia interna da ala, a maior da fábrica com 2 mil trabalhadores, citou o exemplo GM que conquistou investimentos e 660 novas vagas sem o banco de horas.

A semana da assembléia
No dia 7 de julho, os trabalhadores chegaram à fábrica e encontraram um boletim anônimo, intitulado “Chave de Luta”. Nele, uma mistura de críticas ao setor que rachou com a Artsindical (corrente majoritária do sindicato ligada ao governo) e ao “Ferramenta de Luta”.

No dia seguinte, na hora do almoço, foi distribuído nos refeitórios o jornal da dita oposição cutista de São José dos Campos (SP). No folheto, podia se ler a manchete “GM: vitória dos trabalhadores derrota dos Sem Lutas”. Ao mesmo tempo, era distribuído o jornal dos companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos que dizia que era possível vencer o banco de horas e a redução dos direitos.
No dia 9, foi feriado no estado de São Paulo. Na Volks, porém, era dia de trabalho. O jornal da comissão com a proposta negociada entre o sindicato e empresa sobre banco de horas, PLR e sábados adicionais de trabalho foi distribuído. Estava aberto o debate.

Foi no dia 10 que aconteceram as assembléias nas áreas. A oposição e o setor dissidente da Artsindical se posicionaram contra a proposta nas alas 13 (pintura), 5 (usinagem) e 14 (montagem final).

Na hora do almoço, o “Ferramenta de Luta” foi distribuído nos refeitórios. A temperatura aumentou na fábrica: na ala 14 (montagem final), o racha da Artsindical realizou assembléia e fez uma votação pedindo aos trabalhadores que garantissem uma fala dissidente da do sindicato.

No dia da assembléia, 11 de julho, na ala 5 – setor tradicionalmente ligado ao sindicato – por volta das 5h40, os membros do sindicato começaram a chamar os trabalhadores para uma assembléia. Às 5h50, o segundo orador começou sua fala defendendo a proposta da Volks e do sindicato. Ouviram-se as primeiras vaias: “puxa saco”, “pelego”, gritavam os operários. A assembléia terminou com os trabalhadores se retirando da mesma.

A derrota da empresa
Às 15h15, começou a assembléia geral no pátio da empresa. O coordenador do Comitê Sindical de Empresa (CSE), o “Frangão”, tomou a palavra. Novamente, ouviram-se as vaias. De repente, subiram no carro de som o membro da Comissão de Fábrica, Ailton, do racha da Artsindical, e o companheiro Vagner Lima, coordenador da oposição.

Pela primeira vez na história de luta dos metalúrgicos na Volkswagen do ABC, abriu-se a palavra a vozes não-alinhadas ao sindicato. Ailton começa a falar: “companheiros, quero aqui dizer que defendemos a unidade, mas a unidade na luta contra esta empresa, que o papel do representante sindical não deve ser defender as propostas da empresa e sim defender o trabalhador”.

Depois de uma defesa escandalosa da proposta da empresa por parte do orador do sindicato, inicia-se a votação. A favor da proposta, 30% dos operários se posicionaram. Contrários à renovação do banco de horas e à PLR rebaixada, 70%.

Novas batalhas
Sabemos que tanto a empresa quanto o sindicato voltarão à ofensiva com o banco de horas. Mas os trabalhadores também sabem que sua luta continua.

Agora a batalha contra o banco de horas e contra a redução de direitos terá outros campos de batalha. Primeiro em Taubaté, onde o acordo de banco de horas entre o sindicato local, ligado à CUT, e a Volkswagen foi estendido por 30 dias. Lá as disputas dentro da fábrica estão esquentando. Como em São Bernardo o “Ferramenta” vem batalhando contra a parceria entre o sindicato da CUT e a empresa. Já em São Caetano do Sul, em outra unidade da GM, os trabalhadores receberam de forma muito positiva a vitória em São José. Muitos operários na portaria da empresa manifestaram sua revolta contra o sindicato local, filiado à Força Sindical. O sindicato simplesmente assinou o acordo sobre o banco de horas e não consultou os trabalhadores.

O próximo “Ferramenta de Luta” de São Caetano estará denunciando o papel pelego da CUT e Força Sindical.

Reação dos patrões
Um absurdo interdito proibitório foi concedido pela justiça à GM. A medida proíbe a distribuição de material com notícias sobre a vitória dos operários em São José dos Campos em outras unidades da GM, como em São Caetano e Gravataí. A censura é a resposta que a empresa vem tentando dar à vitória dos metalúrgicos.

A mineradora Vale do Rio Doce também reagiu contra a vitória dos trabalha­do­res. Depois da derrota do banco de horas em Congo­nhas (MG), agora quer aumentar a jornada de trabalho de 6 horas para 8 horas diá­rias.

Outra vitória importante foi a recente assembléia dos trabalhadores da Ford de Camaçari (BA). Os trabalhadores recusaram a proposta da fábrica e do sindicato, ligado à CTB, para manter o acordo de jornada de 41h 5min. Dessa forma, os trabalhadores vão retomar a jornada de 40 horas.

Seguindo o exemplo dos metalúrgicos de São José, a luta contra o banco de horas avança. Outras batalhas estão em andamento e devemos nos preparar para varrer o banco de horas do país.

Post author Rogério Romancini, de São Bernardo do Campo (SP)
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