Marcha sem-terra chega a Brasília, mas não rompe com o governo

No dia 15 de maio, depois de 13 dias de caminhada desde Goiânia, a marcha liderada pelo MST chegou à capital do país. No fim de semana de reta final da marcha, mais trabalhadores rurais e apoiadores juntaram-se à mobilização. O teólogo Leonardo Boff e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foram alguns dos que aderiram à marcha no final do percurso.

A marcha contou com a participação de 15 mil pessoas de 23 estados, que percorreram mais de 200 km em duas semanas. A programação termina com um ato na Esplanada dos Ministérios em 17 de maio. Os marchantes contaram com a assistência de ambulâncias, escolas, professores, equipes de limpeza, uma emissora de rádio, um gerador e um telão, em que foram projetados filmes durante a noite, nas paradas.

A manifestação e a própria marcha, porém, não são demonstrações de ruptura do MST com o governo, ou de uma postura de oposição. As lideranças do movimento permanecem afirmando que o governo Lula é um aliado histórico do movimento. “Nossa marcha não é contra o governo Lula, e sim para ajudar a construir um novo projeto para o país”, afirmou João Pedro Stédile, durante a Plenária Nacional da CUT em 10 de maio.

Por causa dessa caracterização, o MST decidiu recuar de seu “Abril Vermelho”, deixando as ocupações de terras de lado para priorizar a marcha, como “instrumento de pressão”. Uma postura dessas, num momento em que o governo Lula corta verbas da reforma agrária e privilegia o agronegócio, é incoerente com a própria história de luta do MST.

Metas não cumpridas
Com a marcha, o movimento pretende pressionar o governo Lula para o atendimento de reivindicações como a contratação de novos servidores no Incra e o desbloqueio de todo o orçamento para a reforma agrária, que sofreu cortes no início do ano para o pagamento dos juros da dívida.

Até 2006, o governo Lula prometeu assentar 400 mil famílias, mas está longe de cumprir essa meta. Em 2003, a meta era assentar 60 mil e, pelos dados oficiais, foram assentadas 36,8 mil. Já em 2004, da promessa de assentar 115 mil famílias, Lula atendeu 81,2 mil. Para isso, deve-se levar em conta que as metas estabelecidas já eram recuadas e não correspondiam à real necessidade do movimento.

Como resposta à marcha, o Ministério do Desenvolvimento Agrário planeja anunciar algumas medidas para disfarçar a paralisia da reforma agrária. Mas, para avançar, seria preciso romper com os latifundiários, deixar de pagar a dívida e seus juros exorbitantes para investir de fato no campo: atitudes que estão extremamente opostas da postura neoliberal do governo Lula.

É preciso que o MST rompa com o governo Lula. As reivindicações do movimento só sairão do papel com a luta direta dos trabalhadores, com as ocupações de terra se alastrando pelo país e com a associação das lutas dos trabalhadores da cidade e do campo.

Post author Yara Fernandes, da redação
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