Mar del Plata: a crise da Alca

Existe uma crise no projeto imperialista da Alca, que poderia levar a sepultar esse projeto, caso o governo Lula assim o quisesse. A IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata, terminou com uma derrota para Bush: mesmo com a pressão do governo dos EUA, não se referendou a retomada das negociações da Alca.

Mas esse projeto não está morto. Mesmo com a derrota conjuntural em Mar del Plata, ele pode terminar sendo vitorioso se não houver uma luta continental. É preciso lutar contra a Alca e contra governos como o de Lula.

Alca = recolonização
A Alca é um projeto de recolonização da América Latina. Através dela, deixariam de existir quaisquer fronteiras econômicas entre os EUA (que, sozinhos, têm 77% do PIB de todo o continente) e os países semicoloniais das Américas, com o livre ingresso de capitais, serviços e produtos norte-americanos. Os traços de soberania que sobram em nossos países seriam destruídos. A saúde e educação públicas tenderiam a não existir mais, porque as multinacionais teriam direito aos mesmos financiamentos que os hospitais e escolas públicas. Até pendências jurídicas entre as multinacionais e os governos de qualquer país não seriam mais resolvidas pela justiça local, mas por um tribunal com forte incidência norte-americana.

Esse projeto foi lançado na primeira Cúpula das Américas, em 1994, em Miami, pelo governo dos EUA. Na II Cúpula (Santiago do Chile, 1998) e III (Quebec, Canadá, 2001), a Alca foi reafirmada, com seus prazos máximos de negociação previstos para 2005, nesta IV Cúpula. A derrota em Mar del Plata, portanto, tem grande importância.

A origem da crise
A crise da Alca começa no próprio EUA. O imperialismo quer impor o livre comércio em todo o mundo, à medida que tem as empresas mais fortes em termos tecnológicos, financeiros e capacidade de produção, capazes de arrasar suas concorrentes. Mas, existe uma contradição, porque o governo dos EUA busca também preservar setores mais atrasados de sua burguesia, que não conseguem competir a nível internacional (parte da burguesia agrária e dos produtores de aço). Entre 1995 e 2000 (já com as negociações da Alca) aumentou os subsídios para a agricultura em 260%. Em 2001, Bush aumentou as tarifas de importação do aço em 30%.

Essa crise não tem a ver somente com a América Latina. Em dezembro se reunirá a Organização Mundial do Comércio, na qual está prevista uma nova crise. A chamada Rodada Doha das negociações, lançada em 2001, também estava prevista para terminar em 2005, mas está emperrada, por um conflito entre os EUA e a União Européia, cada um buscando abrir os mercados dos outros para favorecer suas burguesias mais dinâmicas, mas não abrir os seus próprios nos setores mais atrasados, em particular na agricultura.

O problema nas negociações com os governos brasileiro e argentino tem a ver com essa questão. Lula e Kirchner estão longe de defender a “soberania”. Kirchner voltou a pagar a dívida externa argentina, depois da moratória imposta pela crise de 2001. Lula aplica todo o receituário do FMI e não cansa de se declarar a favor da Alca, como fez logo depois da cúpula.

A esses problemas econômicos se soma a ampliação da consciência e da resistência antiimperialista em todo o mundo. A manifestação de Mar del Plata, foi um exemplo disso, uma das maiores mobilizações antiimperialistas dos últimos anos.

Onde Bush vai provoca manifestações contrárias. Não se trata somente dele e nem apenas dos EUA. O problema é o imperialismo e as mobilizações da última semana na França comprovam isso. Mas Bush, por expressar o imperialismo hegemônico, com sua política sem disfarces, concentra o ódio de todo o mundo.

A combinação entre os problemas econômicos do imperialismo e o ambiente antiimperialista crescente explicam a crise de Mar del Plata.

A luta continua
Mas, enganam-se os que acreditam que a Alca está sepultada. Os EUA contam com o apoio explícito de 29 países para sua implementação, tendo à frente México e Chile. Os princípios da Alca já estão sendo aplicados, tanto no México (com o Nafta), como agora com tratados regionais, como o Tratados de Livre Comércio que Bush faz com Colômbia, Peru e Equador.

Por fim, é muito importante ver o comportamento dos governos brasileiro e argentino. Na Cúpula, Lula fez parte de um bloco intermediário, contrário à posição de Chávez (que queria decretar o fim da Alca), como do bloco liderado pelo presidente mexicano, Vicente Fox (que queria marcar a retomada das negociações para abril de 2006). Lula, da mesma forma que Kirchner, quer retomar as negociações, mas depois da reunião da OMC, condicionada a maiores concessões dos EUA para a abertura de seus mercados.

Em 2006, portanto, estará colocada novamente a perspectiva de retomada das negociações da Alca. Nosso futuro não pode estar nas mãos de governos entreguistas como o de Lula.

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