Manderlay: a segunda parada de Lars na Terra das Oportunidades

A trilogia EUA – Terra das Oportunidades, do diretor dinamarquês Lars von Trier, teve seu primeiro ato na cidade fictícia norte-americana de Dogville, filme lançado em 2003. No segundo filme, Manderlay, a história continua exatamente de onde parou no primeiro, a partir do momento em que a protagonista Grace deixa Dogville, acompanhada do pai e de sua trupe de capangas pessoais.

Manderlay é uma outra cidade fictícia no mapa dos EUA da década de 30, desta vez no estado do Alabama. Passando por acaso pelo local, Grace e o pai descobrem uma antiga fazenda ainda sustentada à base do sistema escravista, apesar de abolido pelas leis norte-americanas 70 anos antes da época em que se passa a história.
A história de fato tem início quando Grace, contra a vontade do pai, resolve tomar a fazenda e implantar a democracia, a liberdade e a justiça norte-americanas no local, ainda que esse processo se dê por sua imposição. Para sua missão ‘bem-intencionada’, Grace leva quatro dos capangas de seu pai, devidamente armados.

É inevitável a comparação com a política de guerra preventiva de Bush e sua invasão do Iraque, país no qual Bush pretende estabelecer à força uma democracia. Também é inevitável que a única espingarda velha encontrada na fazenda escravista remeta a platéia às fictícias armas de destruição em massa escondidas na manga de Saddam.

Sem paredes para esconder as hipocrisias
Manderlay é a continuação de Dogville também na forma. O cenário desta segunda cidade também não tem muros, é insinuado por desenhos no chão e só apresenta alguns objetos essenciais na composição dos ambientes. Entretanto, a ausência de cenário já não choca como da primeira vez, pois a platéia já se acostumou.

A narrativa ainda é feita por capítulos, com um narrador onisciente e irônico. Uma novidade é o deslocamento de Dogville até Manderlay, mostrado através de carrinhos andando sobre um mapa dos EUA.

A complexidade de Grace
Grace não é mais vivida por Nicole Kidman, mas por Bryce Dallas Howard. A mudança causa um estranhamento, até porque Bryce não alcança a interpretação que Nicole deu a essa protagonista. Mas, talvez o que mais confunda a platéia seja sua brusca benevolência, tendo em vista sua vingança ao final de Dogville.

Entretanto, o espectador descobrirá na personalidade ambígua dessa personagem muito bem criada que seu autoritarismo, sua hipocrisia, sua vaidade que é alimentada quando faz ‘boas ações’, submergem do rosto angelical em ambos os filmes. Desta vez, como da outra, não se tem certeza no decorrer do filme se ela é a vilã ou a mocinha da história.

Liberdade, igualdade e fraternidade?
O filme anterior era uma crítica mais complexa às instituições. Desta vez, Lars usa a temática do racismo e do fim da escravidão para questionar de maneira mais clara os valores norte-americanos, algo do qual tanto o presidente como muitos dos habitantes do país se orgulham. A crítica aqui está no cerne daquilo que forma o orgulho ufanista norte-americano. Não é à toa que o elenco teve que ser composto em sua maior parte por atores ingleses. A maioria dos artistas dos EUA que foram convidados se recusou a participar.

Logo no início, Lars critica a idéia de liberdade, que é concedida aos escravos sem que possa ser usufruída, pois está desassociada de condições econômicas igualitárias. Depois, o diretor joga luzes sobre a democracia, que aqui também é imposta, ou ‘ensinada’ por Grace, mas também esbarra nas condições econômicas. Aqui também é possível recordar das recentes eleições que os EUA bancaram no Iraque. A liberdade e a democracia trazidas por Grace vêm acompanhadas da fome. Nessa democracia, é interessante observar que a própria Grace não vota (é apenas conselheira ou professora) e pouco trabalha junto com os demais. Seus capangas também são apenas mais bocas a serem alimentadas.

A escravidão e o racismo
O filme também é uma crítica à forma como se deu o fim da escravidão, através da qual os negros (do Brasil e dos EUA) obtiveram uma liberdade superficial, mas sem uma política de integração de fato, através de empregos e salários justos, reforma agrária etc. A liberdade era obtida, mas os fazendeiros se encarregavam de aprisionar os negros novamente, através de dívidas.

O sistema de escravidão de Manderlay também se baseia numa filosofia interessante, de classificar os escravos por ‘tipos’. Também numa crítica aberta à psicologia comportamental, nesse caso, a ex-senhora da fazenda tinha um livro em que cada escravo era tipificado, seja como ‘orgulhoso’, como ‘submisso’, ou ‘adaptável’, para que a forma de explorá-los fosse direcionada e suas reações fossem previstas. Não é preciso dizer que Grace aproveitou as dicas. A crítica à estereotipação do negro não pára por aí. A visão do negro como objeto sexual também está presente na personagem.

O filme mostra ainda que, para manter um sistema de exploração mais eficiente, o patrão ou senhor precisa cooptar um dos trabalhadores ou escravos que seja capaz de influenciar os demais. Essa é a figura bem conhecida do atual pelego.

Apesar das grandes críticas feitas pelo filme, há um elemento que incomoda especialmente os negros e lutadores. A idéia de que a escravidão era aceita pelos negros, de que havia uma submissão destes à exploração e opressão a que foram submetidos historicamente, destoa da história real ocorrida tanto nos EUA como no Brasil. A escravidão, assim como a recolonização que os norte-americanos tentam levar adiante no Iraque e na América Latina encontrou resistência.

A fim da escravidão na América, ainda que tenha significado uma liberdade superficial e não tenha atingido a igualdade, se deu às custas de muita luta por parte dos negros. Mesmo após a abolição, as lutas contra o racismo, contra o verdadeiro apartheid que seguia dividindo a sociedade, e contra organizações fascistóides como a Klu Klux Klan, mostram que a luta contra a escravidão e o racismo foi uma constante e não terminou.

No filme, a permanência dessa luta é menosprezada quando o personagem de Danny Glover fala que os escravos não estão preparados para serem livres, pois a sociedade não está preparada para recebê-los. “E não estará daqui a 100 anos”, completa.

Rumo a Wasington
Apesar deste incômodo, que também parte de uma visão externa da sociedade norte-americana, o filme não deixa de ser brilhante. A trilogia de conjunto e suas críticas severas ao modo de vida norte-americano e à doutrina Bush são um belo manifesto antiimperialista e contra a hipocrisia da sociedade.

A próxima parada será na também fictícia Wasington, que será filmada em 2007. Há declarações de que Lars pretende usar Nicole Kidman e Bryce Dallas interpretando Grace ao mesmo tempo, algo já realizado pelo diretor espanhol surrealista Luis Buñuel no filme Esse Obscuro Objeto do Desejo. A maior dúvida é quais serão as paredes que Lars derrubará desta vez.

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