Malcolm X: “É impossível o capitalismo sobreviver”

LIT-QI

Leia abaixo o trecho de entrevista com Malcolm X realizada em 18 de janeiro de 1965, pouco antes de seu assassinato em 21 de fevereiro, há 55 anos. Segundo seu biógrafo Manning Marable “Jack Barnes e Barry Sheppard, da trotskista Aliança Jovem Socialista, entrevistaram Malcolm para a publicação do grupo, a Young Socialist”.

Esta entrevista mostra a evolução de um revolucionário ocorrida após sua ruptura com a organização Nação do Islã no ano anterior e a colaboração política com o partido revolucionário Socialist Workers Party. Segundo seu biógrafo “Os comentários pró-socialistas diferiam notavelmente de qualquer coisa que Malcolm tivesse dito antes. (…) Mas talvez o que mais pesou foi o entusiástico apoio do Partido Socialista dos Trabalhadores ao próprio Malcolm. Os trotskistas viram nele o líder potencial de um movimento inteiramente novo entre os negros, um movimento que em última análise radicalizaria toda a classe operária americana.”

Por que você rompeu com a Nação do Islã?

MALCOLM: Eu não rompi, houve uma divisão. Ela ocorreu principalmente porque fui expulso por causa da minha abordagem inflexível dos problemas que eu acredito que deveriam ser resolvidos e que o movimento poderia resolver.

Senti que o movimento estava vacilando em muitas áreas. Não se envolvia nas lutas pelos direitos civis nem nas políticas pelas quais nosso povo era confrontado. Se limitava a fazer uma reforma moral – não beba, não fume, não permita fornicação e adultério. Quando descobri que a própria direção não estava praticando o que pregava, percebi que essa parte do programa estava falida.

Portanto, a única maneira de ser funcional e significativo na comunidade era participar das lutas políticas e econômicas dos negros. E a organização não faria isso, porque isso exigia ter uma postura militante intransigente e ativista, e a direção tinha se tornado conservadora. Sua única motivação era a proteção de seus próprios interesses. É possível destacar também que, embora o movimento muçulmano fosse religioso, o Islã não os reconheceu. Então, religiosamente, estava no vácuo. Também não participou da política, então não era um grupo político. Quando você tem uma organização que não é política nem religiosa e não participa da luta pelos direitos civis, como pode se chamar? Está no vácuo. Então, todos esses fatores levaram à minha separação da organização.

Como você define o nacionalismo negro, com o qual você tem sido identificado?

MALCOLM: Eu costumava definir o nacionalismo negro como a ideia de que o homem negro deveria controlar a economia de sua comunidade, as políticas de sua comunidade e assim por diante.

Mas, quando estava na África em maio, em Gana, conversei com o embaixador da Argélia, extremamente militante e revolucionário no verdadeiro sentido da palavra (realizou uma revolução bem-sucedida contra opressão em seu país). Quando lhe disse que minha filosofia política, social e econômica era o nacionalismo negro, ele me perguntou com muita franqueza, bem, como ele ficava nisso? Porque ele era branco. Ele era africano, mas era argelino e, sob todas as aparências, era um homem branco. E ele disse que se eu definir meu objetivo como a vitória do nacionalismo negro, onde isso o deixa? Onde isso deixa os revolucionários no Marrocos, Egito, Iraque, Mauritânia? Então ele me mostrou que eu estava alienando pessoas, que eram verdadeiras revolucionárias, dedicadas a derrubar o sistema de exploração que existe nesta terra por todos os meios que sejam necessários.

Então, eu tive que pensar muito e reavaliar minha definição de nacionalismo negro. Podemos resumir a solução para os problemas que o povo enfrenta em nacionalismo negro? E se você perceber, não uso a expressão há vários meses. Mas ainda seria difícil dar uma definição específica da filosofia geral que considero necessária para a libertação do povo negro neste país.

Como você vê o papel dos EUA no Congo?

MALCOLM: Como criminoso. Provavelmente, não há melhor exemplo de atividade criminosa contra um povo oprimido do que o papel que os EUA têm desempenhado no Congo, através de seus laços com Tshombe e os mercenários. Você não pode ignorar o fato de que Tshombe recebe seu dinheiro dos EUA. O dinheiro que ele usa para contratar esses mercenários – esses assassinos pagos importados da África do Sul – vem dos Estados Unidos. Os pilotos que pilotam esses aviões foram treinados pelos EUA. As próprias bombas que estão explodindo os corpos de mulheres e crianças vêm dos EUA. Portanto, só posso ver o papel dos Estados Unidos no Congo como um papel criminoso. E eu acho que as sementes que ele está plantando no Congo, ele terá que colher. As galinhas que ele soltou ali precisam voltar para casa para descansar.

E o papel dos EUA no Vietnã do Sul?

MALCOLM: A mesma coisa. Mostra a verdadeira ignorância daqueles que controlam a estrutura de poder americana. Se a França, com todos os tipos de armas pesadas, tão profundamente arraigada na então chamada Indochina, não poderia ficar lá, não vejo como alguém em sã consciência possa pensar que os EUA podem entrar lá – é impossível. Isso mostra sua ignorância, sua cegueira, sua falta de visão e percepção. Sua completa derrota no Vietnã do Sul é apenas uma questão de tempo.

Qual a sua opinião sobre a luta mundial que está ocorrendo agora entre capitalismo e socialismo?

MALCOLM: É impossível o capitalismo sobreviver, principalmente porque o sistema capitalista precisa de sangue para sugar. O capitalismo costumava ser como uma águia, mas agora é mais como um abutre. Costumava ser forte o suficiente para sugar o sangue de qualquer pessoa, forte ou não. Mas agora tornou-se mais covarde, como o abutre, e só pode sugar o sangue dos desamparados. À medida que as nações do mundo se libertam, o capitalismo tem menos vítimas, menos para sugar e se torna cada vez mais fraco. É apenas uma questão de tempo, na minha opinião, antes de entrar em colapso completo.