Mais uma novela do Enem: por que precisamos competir?

Crise do exame revela o grande descaso do governo com a Educação da juventude brasileiraHá duas semanas, os mais de três milhões de jovens que fizeram a prova do Enem com a expectativa de realizarem um sonho, agora estão angustiados com o desfecho da crise aberta com os erros da prova. As decisões judiciais que oscilam entre “ajudar pouco” ou “ajudar muito” ao MEC, os estudantes seguem prejudicados pela irresponsabilidade e incompetência do governo.

Diante desta situação, acreditamos que a saída menos prejudicial aos estudantes é a realização de uma nova prova, em que todos que se sentiram prejudicados participem – e não apenas os que receberam o cartão resposta invertido ou a prova amarela, como quer o MEC. Diante da correção da nova prova, defendemos que o estudante seja avaliado pela maior nota. Esta saída, porém, não significa a verdadeira resolução dos problemas.

Por que a juventude precisa competir por vagas?
Na ocasião do lançamento do “novo ENEM”, o projeto era anunciado como o “fim do vestibular”. Além disso, o exame estaria conectado com “grandes conquistas” do governo no terreno da educação, como o ProUni e o Reuni.

Passados oito anos de governo Lula, a análise da evolução do acesso a esse direito fundamental demonstra que o Brasil continua reproduzindo seu atraso histórico em matéria de índices de escolaridade. Os investimentos públicos no orçamento da educação continuam em patamares abaixo de 5% do PIB, próximos do que foi no governo FHC.

A recente publicação do Relatório do Desenvolvimento Humano, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) revela que nem mesmo em dinâmica o Brasil está avançando: o país foi rebaixado de 73º para 93º no ranking do IDH da educação. Um dos dez países mais ricos do mundo continua oferecendo uma educação miserável.

É assim que, apesar de todo o alarde “democratizante” do Prouni e do Reuni, se mantém a exclusão como a marca fundamental do ensino superior público brasileiro. Menos de 14% dos jovens frequentam cursos superiores. Nas instituições públicas são menos de 4%. Assim, não há modelo de seleção para o ingresso nas universidades que seja “justo” ou “democrático”. O novo Enem é um novo vestibular, mas um mesmo funil social que aparta a maioria da juventude brasileira do acesso à universidade.

Manifestações pelo país
Diante desse cenário, o erro na prova não foi secundário. Qualquer jovem que se submete a este exame está tentando fazer parte de uma cifra extremamente reduzida, que separa, no caso das universidades públicas, 4% da populaçãode 96% que não tem acesso ao ensino superior público.

Este descaso é o alvo da grande indignação dos jovens. No dia 15 de novembro, inúmeras cidades brasileiras presenciaram manifestações organizadas pela internet que repudiaram o desrespeito do MEC e do governo.

Este desrespeito também foi expresso na ameaça que o MEC fez através de seu twitter: “Alunos q já ‘dançaram’ no Enem tentam tumultuar com msgs nas redes sociais. Estão sendo monitorados e acompanhados. Inep pode processá-los”. Um verdadeiro absurdo que também foi alvo de críticas nas manifestações do dia 15.
O outro grande questionamento das manifestações se direcionava à UNE, que após a crise da prova, instalou uma Central de Atendimentos que recebia reclamações para melhor ajudar o MEC a sair da crise. Assim, a UNE não esteve presente em nenhuma manifestação e se comportou como uma Ouvidoria do MEC. A Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel) participou de todas as manifestações denunciando o caráter excludente do Novo Enem e lutando pelo fim do vestibular.

O livre acesso é um direito
Só com o livre acesso às universidades públicas poderemos falar em um verdadeiro “fim do vestibular”. É a escassez de verbas e vagas que nos condena à brutal competição que quer nos crivar pelo “mérito”, ao mesmo tempo em que o governo nos oferece condições tão desiguais de ensino.

Um país rico como o Brasil pode oferecer ensino público básico e superior de qualidade para todos os seus jovens. Na luta pela educação que merecemos, a juventude do PSTU defende que 10% do PIB sejam destinados à educação para que não faltem verbas. Defendemos a estatização do ensino pago para nosso direito não virar mercadoria e o fim do vestibular, para que a universidade deixe de ser um sonho distante para os jovens brasileiros.

Se hoje, oito anos após a posse de Lula, ainda precisamos lutar por um direito é porque o governo não está comprometido com nossos interesses, mas com o dos grandes empresários. Enquanto os técnicos do MEC perdem o sono com a crise de sua prova, a luta pelo fim do Enem pode acordar a juventude brasileira para que se mobilize por um autêntico fim do vestibular. Que Dilma não subestime a força dos jovens. Ano que vem é a sua vez de “aplicar” o Enem.
Post author Camila Lisboa e Jorge Badauí, da Secretaria Nacional de Juventude do PSTU
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