Mais do que uma greve

Os trabalhadores uruguaios realizaram sua primeira grande luta desde o início do governo Tabaré Vázquez, da Frente Ampla. A greve teve enorme importância, pois foi a primeira desde que o presidente assumiu. Como Lula no Brasil, Vázquez despertou enormes esperanças na população e seu governo é formado pelos partidos de esquerda (comunistas e socialistas) junto com a burguesia. Como em nosso país, a principal central sindical uruguaia, a PIT-CNT, colabora com o governo, impedindo grandes enfrentamentos. Mas a recente greve foi uma vitória de uma grande luta política das organizações classistas uruguaias, como a Tendência Classista e Combativa (TCC), corrente de oposição à maioria da direção da PIT-CNT. Junto com Conlutas, COB, C-Cura e Batalha Operária, a TCC foi uma das principais organizações convocantes do Encontro Latino-americanos dos Trabalhadores (Elac), realizado em julho. Confira um artigo de uns dos principais dirigentes da TCC sobre a paralisação.

No último dia 20, foi realizada a primeira paralisação (greve) geral de 24 horas contra os patrões e o governo desde que o presidente Tabaré Vázquez assumiu, há três anos e meio. No final da ditadura, durante os três governos do Partido Colorado, foram realizadas mais de 30 greves gerais. Já o governo de Luis Lacalle, do Partido Blanco (nacionalistas), enfrentou 12 greves de 24 horas. Quase todas as paralisações gerais tinham como motivo principal os salários.

Mesmo que no último período desse governo supostamente “progressista” os trabalhadores não tenham recuperado seu poder aquisitivo, não havia ainda sido realizada uma primeira greve geral. Tal como a burguesia, o sucesso do governo “progressista” pôs um freio ao motor da história. As maiorias conciliadoras, reformistas e burocratizadas do sindicalismo uruguaio atuaram para conter as demandas dos trabalhadores, favorecendo a implementação da política econômica do governo.

Desta vez, 15 sindicatos votaram por uma paralisação parcial (três ou quatro horas de duração, com mobilização, ato, etc.). Uma proposta que vinha do secretariado da PIT, apesar de 26 sindicatos e federações terem votado a favor de uma greve de 24 horas. Portanto, o resultado prático da greve é muito mais simbólico, superando todas as manobras de bastidores.

O governo Vázquez apostou forte na submissão da central sindical única. Ela era (e continua sendo) um instrumento tático essencial para seus interesses. Em um processo de longos anos, os partidos reformistas de esquerda conseguiram controlar as principais direções sindicais e, portanto, controlar os organismos de direção da PIT. O fato de muitos desses sindicatos dirigidos pela burocracia sindical “progressista” terem votado a favor da paralisação acendeu um sinal de alarme no governo da Frente Ampla.

O que aconteceu?
O que aconteceu para que muitos votassem pela paralisação? Em nossa opinião, compartilhada pela maioria dos companheiros da TCC, uma das causas seria a aproximação do ano eleitoral. Com o início das disputas internas, os setores minoritários buscam se mover um pouco mais para a ação de massas para captar os votos de que necessitam.

Claramente movidos por esse fator, agiram muitos militantes sindicais dos aparatos do Partido Comunista e do Partido Socialista, enfrentados com a supremacia político-partidária do MPP-ASAMBLEA URUGUAY.

Alguns exemplos são o ex-ministro Mujica e o “quase ex-ministro” da Economia, Danilo Astori, ambos lançados à campanha eleitoral e por muitos considerados os preferidos pelos eleitores para suceder Tabaré Vázquez. O Partido Comunista, que tem muito peso no movimento sindical, mesmo dividido e com sua principal figura, Juan Castillo, virtual secretário-geral da PIT, ligado aos setores mais conciliadores, joga em duas pontas: por um lado pretende captar votos e ganhar “cargos genuínos”, mas por outro ameaça o governo com um “giro” radical, tratando de garantir de antemão as promessas de ocupar futuros cargos do governo.

Congresso sindical
Por outro lado, na primeira semana de novembro, se realizará o 10° Congresso da PIT-CNT. Ali também se jogará uma disputa interna importante. As maiorias “centralistas” voltaram a entrar em disputa, ainda que em essência se manterão unidas até o fim para conquistar seus objetivos: reduzir a participação democrática, consolidar a direção centralista vencendo a maior quantidade possível de sindicatos opositores (entre eles, especialmente os que têm maior quantidade de militantes da TCC ou do Pólo Classista) e se vincular definitivamente a alguma central mundial que permita o financiamento necessário para consolidar as vantagens da burocratização.

Mas as bases começaram a se mover, a reclamar e a desconfiar. É muito claro que o salário está defasado, que as promessas de melhoras viraram pó. São muitas as provas de enriquecimento dos capitalistas, apesar de os alimentos básicos estarem cada vez mais longe da mesa dos trabalhadores. Além disso, continuam os problemas de ensino público, moradia, etc.

Os aposentados recebem uma miséria e os jovens continuam a emigrar massivamente. Os dirigentes da maioria dos sindicatos são burocratas, conciliadores, reformistas, mas não tolos. Por isso, respondem de alguma maneira ao descontentamento. Fica claro que, por baixo, a única alternativa para “ganhar votos” e disputar os cargos passa por uma relocalização política, mesmo que esta dure apenas um momento.

Por outro lado, foi realizada pela Coordenação de Sindicatos Classistas uma iniciativa impulsionada por militantes dos sindicatos dos trabalhadores municipais e dos correios (somados aos companheiros da TCC e de outros sindicatos), que buscava unificar todas as organizações classistas dentro da PIT para levar adiante ações e propostas em comum, na forma de “pólo opositor” para enfrentar os dois blocos hoje dominantes: PC e Articulação. Essa coordenação chamou a paralisação e lançou numa conferência com a imprensa para sua convocação. Alguns dos sindicatos que fazem parte dela definiram a realização de uma paralisação por 24 horas, embora a PIT chamasse uma paralisação parcial. Toda a imprensa burguesa, após o resultado da paralisação, ressaltou o papel da coordenação como a grande vencedora política.

No governo Tabaré Vázquez não foram realizadas mudanças que nos permitam falar de uma mudança de direção. Sem dúvida, isso reforça a convicção de que nosso rumo é correto e que nossos planos são adequados. São tempos árduos e de trabalho paciente, denunciando e participando ativamente em todas as manifestações de luta dos trabalhadores. No Uruguai, em toda a América e no Elac, reforçamos nosso compromisso de estar em cada batalha, apostando em nossos povos, propondo idéias, elaborando junto com nossos irmãos de classe, repetindo pacientemente (mas também sem se cansar) o caminho revolucionário que devemos tomar.

Post author Mario Michelena, de Montevidéu (Esquerda Socialista dos Trabalhadores)
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