Machismo em cinquenta tons: crítica a uma literatura popular

Capa do primeiro livro da trilogia

Escrita pela autora E. L. James, a trilogia considerada oO livro conta a história a partir do ponto de vista da universitária Anastasia Steele, uma jovem de 21 anos que, após entrevistar o empresário Christian Grey para o jornal da faculdade, se envolve num relacionamento com ele. Mas o “extra” da relação vem quando a mocinha, que é virgem até então, descobre que, no pacote das maravilhosas atribuições do rapaz (lindo, educado e milionário), vem também sua opção pelo mundo do “bondage, sadismo e masoquismo” (BDSM). Envolvida pelo lindo e maravilhoso Grey, acaba assinando um contrato no qual concorda ser sua submissa sexual. Porém, fica em permanente conflito com os “jogos” que permeiam o mundo BDSM. Essa suposta história de um “relacionamento picante” garantiu, até o momento de fechamento desse artigo, só no Brasil o ranking do livro mais vendido em 2012 (583.768 cópias), número um em vendas por várias semanas em 2013 e cerca de 40 milhões de cópias vendidas em todo mundo.

Poderia até passar por mais um livro água com açúcar, com um toque mais apimentado, comum na literatura feita para o “público feminino”. Mas o fato é que o best-seller americano é nada mais que uma história que remonta os padrões de opressão da mulher. Mas por quê?

Eu domino seu coração e você a minha vida?
“‘Cinquenta Tons’ é sobre amor, diz autora”. Em toda a história o livro tenta passar a idéia de que, apesar de o rapaz tentar ser o dominador da relação, no final das contas, quem de fato domina – pelo simples fato de conseguir “amarrar” emocionalmente o rapaz – é a mocinha. Ou seja, o grande trunfo da personagem principal é conseguir desenvolver e concretizar um romance com o rapaz, coisa que o mesmo se negava e nunca teve até então. Não é por acaso que a trilogia segue, literalmente, a seguinte cronologia: livro 1 – namoro, livro 2 – casamento, livro 3 – filhos. Assim, fica claro que o que garantiu o sucesso de best-seller mundial passa, antes de tudo, pela velha e conhecida fórmula dos romances populares no qual a mulher vira o jogo, conquista o homem amado e cumpre sua missão no mundo de casar e ter filhos. Infelizmente, em pleno século XXI, essa ainda é a missão moral pré-estabelecida para as mulheres nos romances, propagandas, filmes e até nas definições das políticas públicas.

Em agosto de 2012, o presidente sul-africano Jacob Zuma abriu uma polêmica ao afirmar que “é um problema para a sociedade” haver mulheres solteiras, defendendo que as mesmas devem ter filhos porque “isso lhes traz uma capacitação adicional”. Na China se criou um tipo de bullying para as mulheres solteiras. Se uma mulher chinesa continuar solteira depois dos 28 anos, ela inevitavelmente passará a ser chamada de “shengnu” (“mulher restante” em mandarim), um termo criado e divulgado pela imprensa oficial. Quando se navega na Internet pelos sites das igrejas a coisa fica ainda mais séria – dezenas de cursos são oferecidos no intuito de “preparar as solteiras rumo ao altar”. Pressionadas todos os dias a cumprir essa “missão de vida”, não é à toa que o livro – que leva essa idealização ao extremo – tenha encontrado eco em milhares de leitoras.

O machismo também aparece quando analisamos para além da história, os próprios personagens. Virgem, inocente e jovem, Anastasia, a personagem principal, remonta ao modelo feminino imposto às mulheres todos os dias. Começa pela infantilização da mulher, que tem que ser bobinha, fofinha, desastrada, uma figura indecisa e insegura, que até fala alguns palavrões leves, mas para por aí. Ana é a cinderela do século XXI, sempre lembrada pela autora como uma moça comum diante do milionário e deus grego Grey. Junto a isso, vem a dicotomia permanente na qual a personagem se constrói: é simples, pura, come pouco, mas ao mesmo tempo tem que ser ousada, sexy, aberta às mais diversas experiências sexuais. Busca sua independência no trabalho, mas é submissa às vontades do seu homem, oferecendo na maioria das vezes resistência, mas cedendo no final, como se esse fosse o papel inerente às mulheres – resistir no início e ceder no final das contas. E é juntando esse conjunto de elementos que se torna impossível fugir da conclusão: ao contrário do que tenta construir a autora do livro de que é Ana quem comanda a relação, na verdade, a personagem se submete às vontades de Grey e pior que isso, faz o centro de sua vida o desenvolvimento da relação com esse homem.

Já Cristian Grey, apesar de ser considerado problemático pela sucessão de traumas da infância e experiências na adolescência, é merecedor da mais extrema compreensão e amor por parte de Ana. Esse elemento é interessante, pois revela a tentativa sutil de mostrar o possível instinto maternal da moça aliado a já ultrapassada ideia de “mudar o homem através do amor”. Mas apesar de seu passado problemático, Grey, além de jovem, lindo, culto e milionário, tem aptidões sexuais mais que surpreendentes. A exaltação desse homem é a marca presente em quase todos os momentos do livro. Mas por trás dessa ficha encantadora, Christian Grey nada mais é que o homem conservador que paga as contas, controla as roupas, alimentação e horários, restringe as relações – de amizade – com terceiros que não lhe agradam e um longo etc, que vai desde comprar um carro de última linha para deixar a “amada mais segura” até comprar a editora que ela trabalha para se livrar do chefe desagradável e inconveniente da moça. Isso tudo é apresentado no livro como algo que, apesar de muitas vezes trazer uma irritação à personagem, no fundo, faz com que ela se sinta segura e amada (como admite através do próprio apelido que coloca no amado, “meu controlador, meu 50 tons”), ou seja, o encontro perfeito entre o papel de submissão da mulher e de provedor do homem.

Em 1918, Alexandra Kollontai no livro A Nova Mulher e a Moral Sexual já escrevia sobre esse padronização do universo feminino e masculino: “Que determina essa maneira diferente de julgar as coisas? A que princípio obedece uma apreciação tão contraditória? Essa diversidade de critérios tem origem na idéia da desigualdade entre os sexos, idéia que tem sido inculcada na humanidade durante séculos e séculos e que acabou por apoderar-se de nossa mentalidade, organicamente. Estamos acostumados a valorizar a mulher, não como personalidade, com qualidades e defeitos individuais, independente de suas sensações psicofisiológicas. Para nós, a mulher só tem valor como acessório do homem. O homem, marido ou amante, projeta sobre a mulher sua luz; é a ele e não a ela que tomamos em consideração como o verdadeiro elemento determinante da estrutura espiritual e moral da mulher. Em troca, quando valorizamos a personalidade do homem, fazemos por antecipação uma total abstração de seus atos no que diz respeito às relações sexuais. A personalidade da mulher, pelo contrário, valoriza-se em relação à sua vida sexual. Este modo de apreciar o valor de uma personalidade feminina deriva do papel que representou a mulher durante séculos.”

Entre quatro paredes, tudo obedeço?
Sem dúvidas, a questão da sexualidade é um dos fatores que garantiu a venda dos milhões de exemplares do livro em todo o mundo e coroou o best-seller como “pornô das mamães”. Mas também aqui existem algumas reflexões importantes sobre o caráter do livro. Por um lado, o livro com certeza teve grande aceitação por trazer à tona um tema que ainda é tabu para o chamado “universo feminino”. As mulheres já estão no mercado de trabalho, ocupam cargos de chefia, já somam maioria na formação em ensino superior, mas quando o assunto é sexo, só se pode discutir entre “quatro paredes” e olhe lá. Nesse sentido, é progressivo que milhares de mulheres pelo mundo tomem a iniciativa de comprar um livro que, a princípio, trata abertamente de temas como o sexo antes do casamento, masturbação, fantasias eróticas e, inclusive possam “apimentar sua relação” com a leitura nada convencional.

Porém, a mesma sociedade que se nega a discutir temas como esse de forma séria, impedindo a educação sexual nas escolas, reservando para a esfera privada as questões relativas à sexualidade, é a mesma sociedade que responsabiliza a mulher pelo estupro que sofreu uma vez que não usava “trajes adequados”. A hipocrisia, quando se trata de temas como sexo, sexualidade, liberdade sexual ainda é reinante. A libertação sexual e a construção de uma perspectiva social que desafia as condutas tradicionais de comportamento relacionados à sexualidade humana e aos relacionamentos interpessoais ainda é uma necessidade.

Por outro lado, retomando o conteúdo do livro, ainda que apresente esses temas de forma aberta, acaba entrando em sintonia com o restante da padronização do papel da mulher. Isso porque, no final das contas, a personagem só se submete ao universo sexual imposto pelo milionário pois deseja conquistar seu amor. Ou seja, Ana acaba por se submeter a situações nas quais sequer se sente confortável de realizar e a coerção não aparece por ser uma relação BDSM, mas sim por ser imposta à revelia da vontade da moça. Portanto, sobre a vontade de Ana se sobressai a imposição de Grey, e não só no sexo, mas em todos os demais aspectos da vida da moça.

Como coloca Alexandra Kollontai, “Além do individualismo extremado, defeito fundamental da psicologia da época atual, de um egocentrismo transformado em culto, a crise sexual agrava-se muito mais com outros dois fatores da psicologia contemporânea: a idéia do direito de propriedade de um ser sobre o outro e o preconceito secular da desigualdade entre os sexos em todas as esferas da vida. A idéia da propriedade inviolável do esposo foi cultivada com todo o esmero pelo código moral da classe burguesa, com sua família individualista encerrada em si mesma, construída totalmente sobre as bases da propriedade privada. A burguesia conseguiu com perfeição inocular essa idéia na psicologia humana. O conceito de propriedade dentro do matrimônio vai hoje em dia muito além do que ia o conceito da propriedade nas relações sexuais do código aristocrático. (…) O ideal da posse absoluta, da posse não só do eu físico, mas também do eu espiritual por parte do esposo, o ideal, que admite uma reivindicação de direitos de propriedade sobre o mundo espiritual e moral do ser amado, é que se formou na mente e foi cultivado pela burguesia com o objetivo de reforçar os fundamentos da família, para assegurar sua estabilidade e sua força durante o período de luta para conquista de seu predomínio social. Esse ideal não só o recebemos como herança, como também chegamos a pretender que seja considerado um imperativo moral indestrutível.”

Porém, quando se trata de libertação sexual, a idéia é oposta a essa: deve-se ter o direito de manifestar o seu desejo sexual e decidir, sozinha, sem que exista pressão do parceiro, ou mesmo do grupo, se deseja ou não fazer sexo, como e com quem. Do ponto de vista das demais áreas a mesma coisa: não pode ser o homem e a relação que estabelecemos com ele que deve determinar nossas decisões, forma de pensar, etc.

Nossa libertação, nossa luta!
É na ideologia de que as mulheres têm de forma determinada certos comportamentos ou tarefas, que se encontra a base do conceito de machismo. Cria-se um sistema de falsas ideias que produzem uma falsa verdade utilizada pelo sistema para manter a submissão das mulheres e impor um padrão a ser seguido, que naturaliza o papel das mulheres como “rainhas do lar”, chefes no trabalho mas mães incondicionais, sensuais mas virginais. É por isso que nós, mulheres do PSTU, lutamos cotidianamente ao lado de milhares de mulheres para fortalecer a luta ideológica contra o machismo.

Mas também é preciso não ter a ilusão de que podemos acabar com ele no capitalismo. Inevitavelmente, a luta pelos direitos das mulheres tem um limite que esbarra nas questões de classe. O padrão que se impõe sobre nosso corpo e comportamento, o ideal de família que nos fazem acreditar, os objetivos que a mulher moderna deve alcançar, toda essa ideologia machista está a serviço de reproduzir e fortalecer o sistema que transforma tudo em mercadoria, nosso corpo, nossos sonhos e até nossas fantasias sexuais. Quanto mais livros vender, melhor. Por isso nos organizarmos, homens e mulheres, para derrotar a sociedade de classes e, com ela, o machismo.

Livros como Cinquenta Tons de Cinza, apesar de parecer trazer à tona o universo feminino, acaba somente por reforçar a contramão da história de luta pela libertação das mulheres. Às milhares de leitoras do livro deixo essa reflexão. Busquemos na nossa luta cotidiana criar as condições para que seja possível transformar o mundo e, abrir a possibilidade para a construção de uma nova mulher, como afirma mais uma vez Kollontai, “esta é a mulher moderna: a autodisciplina, ao invés de um sentimentalismo exagerado; a apreciação da liberdade e da independência, ao invés de submissão e de falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade e não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado; a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da “pureza”, e finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. Diante de nós temos, não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas sim uma mulher-individualidade.”