Machado de Assis: Entre os morros do Rio e a elite

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

Dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Este ano comemora-se o centenário da morte daquele que é considerado (tanto aqui quanto mundo afora) como um dos maiores escritores de todos os tempos. Joaquim Maria Machado de Assis morreu em sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, em 29 de setembro de 1908, deixando como herança uma obra composta por “clássicos” como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), poemas e uma fantástica coleção de contos e crônicas, além do título de fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Seu pai, um pintor de paredes, era neto de escravos e filho de alforriados (escravos libertos). Sua mãe, que morreu quando ele ainda era muito novo, era portuguesa de Açores. Machado de Assis foi criado quase exclusivamente por sua madrasta, lavadeira, doceira e também negra.

Foi trabalhando como caixa numa livraria que Machado entrou em contato com o mundo literário de sua época. Aos 21 anos, começou a escrever para uma série de jornais e revistas, nos quais foi publicada boa parte de seus contos e romances iniciais – lançados no formato de “folhetins” (capítulos diários). Paralela a esta atividade, o escritor exerceu uma série de cargos burocráticos em órgãos públicos do Império.
Negro, pobre, criado como agregado, gago, epilético e extremamente tímido, Machado de Assis atingiu a condição de gênio da literatura mundial. Um título inquestionável. Como também é inquestionável que o escritor e sua obra são reflexos distorcidos e complexos de um Brasil que foi, e ainda é, marcado por polarizações.
Um país de escravos num mundo capitalista; um Brasil de maioria negra que sonha em embranquecer-se; uma sociedade provinciana e colonizada que, nos projetos da elite, tem que se transformar em “metrópole”, custe o que custar.

Um realismo desencantado
A primeira fase da produção machadiana, marcada por livros como “A mão e a luva” (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878), faz parte do período romântico da literatura brasileira, ao qual também pertenceram autores como Castro Alves e Álvares de Azevedo.

Fruto direto da Revolução Francesa, o Romantismo, na Europa, teve como uma de suas expressões a exaltação dos valores burgueses: o nacionalismo, a valorização da individualidade, os amores trágicos e o constante desejo de fuga da realidade (escapismo).

O Brasil vivia as contradições de um Império decadente e a busca, por parte da elite, da constituição de uma “identidade nacional”. O Romantismo agregou a tudo isso o “indianismo”, a construção de mitos nacionais (particularmente personagens indígenas, tratados como “bons selvagens”, completamente idealizados e distantes da realidade) e as muitas contradições de uma sociedade escravocrata vivendo num mundo que caminhava a passos largos em direção ao capitalismo moderno.

Essas contradições apareceram de forma particularmente forte na obra de Machado, fazendo com que sua relação com o estilo romântico fosse bastante complexa. Por um lado, o fato de seus textos saírem publicados em “folhetins” sempre deu um caráter mais realista às suas histórias; por outro, mesmo nos romances desta primeira fase as marcas registradas do escritor (o ceticismo, a ironia e a melancolia) entravam em choque com o escapismo delirante da maioria dos autores românticos.

Essas características apareceram particularmente a partir do fantástico “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (transformado em um bom filme, por André Klotzel, em 2001). Escrito em meio à profunda e generalizada crise da sociedade imperial, Brás Cubas tem uma das mais inspiradas e absurdas dedicatórias da história da literatura mundial. Escrito pelo narrador-personagem, o já falecido Brás Cubas, o livro que desconstroí os costumes da época abre com a seguinte frase: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

Também desta fase é “Dom Casmurro” (1899), que traz uma das personagens femininas mais enigmáticas da literatura: Capitu, que, com seus “olhos de ressaca”, embriaga e transtorna seu marido Bentinho, obcecado pela suposta “traição” da esposa.
O “realismo” de Machado nasceu de seu profundo senso de observação, treinado nos morros pobres cariocas, atrás dos balcões de venda, nas oficinas, nos bondes, nas ruas, nas redações da imprensa e nas repartições públicas.

Filtrado pelo ceticismo e pelas contradições pessoais (e, também, políticas e sociais) do escritor, esta realidade surge quase cercada pela ambigüidade, por devaneios de ordem psicológica, por lacunas que transferem ao leitor a construção dos sentidos e significados das histórias. Além de exibirem contraditórios pontos-de-vista que refletem o olhar da elite europeizada, mas deixam perceber o olhar das camadas massacradas da sociedade: dos negros alforriados e desempregados, das escravas violentadas, das mulheres presas à lógica opressiva da sociedade patriarcal.

Presente em toda sua obra, estas características aparecem particularmente em seus contos. Assim, numa sociedade aristocrática em que trabalho é “coisa de escravo”, o conto “Teoria do medalhão” apresenta um pai ensinando ao filho que o único caminho para o sucesso é a prática da descarada picaretagem.

Dentre os quase 200 contos, também merecem destaque “Pai contra mãe”, que recentemente passou por uma interessantíssima releitura no filme “Quanto vale ou é por quilo”, de Sérgio Bianchi, e retrata de forma cruel a escravidão e a opressão.

Negro de “alma branca”? Alienado?
A criação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, é exemplar da complexa e contraditória figura do escritor. A ABL e a forma como Machado a presidiu dizem muito sobre quem nunca se sentiu “confortável” no mundo em que vivia, particularmente do ponto de vista social e racial.

Em termos sociais, as obras de Machado (incluindo a ABL) revelam um sujeito preocupado em “educar” e “civilizar” a elite dominante, sem mudar a estrutura da sociedade (com exceção da abolição). Esse choque, por exemplo, é o que marca as desventuras de Rubião, o personagem do excelente “Quincas Borba” (1891), cujo final é marcado pela máxima “Ao vencedor, as batatas!”

O mínimo que se pode dizer é que Machado, por mais simpático que tenha sido à abolição, nunca conviveu bem com sua negritude. Basta lembrar que, para sua própria mulher, Carolina, a “mulatice” de Machado era “um simples acidente”.

Contudo, seria errado afirmar que Machado foi um completo alienado ou um reacionário. Isso não significa, evidentemente, poupá-lo de críticas, mas também, principalmente do ponto de vista literário, é necessário compreendê-lo dentro de seu contexto. Mais do que um “alienado”, Machado se aproxima muito de um de seus mais famosos e interessantes personagens, o médico de “O alienista” (1882). Na obra, Machado, ao mesmo tempo e com igual ironia, revela a “loucura” do mundo das soluções propostas para “salvá-lo”. Postura típica de um cético. Um cético, contudo, genial.

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