Lista de Furnas atiça disputa eleitoral entre PT e PSDB

No dia 15 de fevereiro, o ex-diretor de Furnas Dimas Toledo prestou depoimento na CPI dos Correios sobre a polêmica lista de Furnas, que está sendo analisada pela Polícia Federal. Protegido por uma liminar do Supremo Tribunal Federal, que lhe garantia o direito de não responder a perguntas que pudessem incriminá-lo, o ex-diretor negou todas as acusações.

A lista de Furnas, supostamente elaborada por Dimas, aponta 156 nomes de políticos que teriam sido beneficiários de verbas desviadas da estatal, que somam R$ 39,665 milhões. A lista chegou à PF no início de fevereiro pelas mãos do lobista Nilton Monteiro, que também fez as denúncias do caixa dois nas campanhas do PSDB em Minas Gerais de 1998.

Em seu depoimento, Dimas disse que a lista de Furnas é falsa e que não conhece Nilton Monteiro. “Trata-se de uma montagem ou uma falsificação“, disse Toledo. “Nunca ajudei com recursos de qualquer empresa ou de qualquer origem a nenhum parlamentar“, completou. Dimas também disse que aceita fazer uma acareação com Nilton Monteiro.

A famosa lista contém nomes de 156 políticos de 12 partidos políticos (PDT, PFL, PL, PMDB, PP, PPS, Prona, PRTB, PSB, PSC, PSDB e PTB). De acordo com a data do documento, os repasses ilegais teriam sido feitos nas eleições de 2002.

Além da lista, há ainda outras evidências do esquema de Furnas. A denúncia existe desde junho do ano passado, quando o então deputado Roberto Jefferson resolveu contar a história em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Ele também afirmou que, em abril de 2005, Toledo esteve em sua casa e ofereceu uma mesada de R$ 1,5 milhão para o PTB. Na época, Jefferson não deixou a acusação somente no colo dos tucanos, afirmando que o esquema, que existia no governo FHC, fora herdado pelo ex-ministro José Dirceu na gestão Lula.

Interesses eleitoreiros
A questão é: com todas os escândalos e as investigações ocorrendo há quase um ano, por que essa lista de Furnas apareceu só agora? As eleições que se aproximam explicam a bomba. Há uma pedra no sapato do governo em seus preparativos para a campanha à reeleição: a CPI dos Correios. Majoritariamente composta por membros de partidos da oposição burguesa (PSDB, PFL), que procuram desgastar o governo Lula o máximo possível até as vésperas do pleito, a CPI ainda não teve fim.

Não é coincidência que, dos 156 nomes da lista, 47 eram candidatos do PSDB e teriam ficado com mais de dois terços dos R$ 39,9 milhões desviados de Furnas. O PFL seria o segundo partido mais beneficiado, com 33 nomes na lista. Segundo dados divulgados pelo Portal Vermelho, do PCdoB, o deputado ACM Neto (PFL-BA), um dos mais empolgados participantes da CPI, teria recebido R$ 75 mil do esquema de Furnas. Três dos quatro deputados do PSDB que são titulares ou suplentes da CPI também estão na lista de furnas. Também estão na lista um membro da CPI pertencente ao PL e dois do PTB.

Nada disso significa que a lista seja falsa ou verdadeira. Nem mesmo se fosse comprovada a falsidade do documento (até porque não se costuma fazer nota fiscal de desvios de verbas e assinar embaixo), não significaria que o esquema de Furnas não existiu. Aliás, o próprio Fernando Henrique Cardoso reconheceu, em conversas, a existência do esquema.

O que fica claro, acima da polêmica sobre a falsidade da lista, é que tanto PT como PSDB e PFL, assim como o Congresso e o governo de conjunto, estão afogados até o pescoço e abraçados na mesma lama, apesar de estarem em lados opostos na disputa eleitoral.

Se o governo tirou tal lista da manga a essas alturas, é porque quer pressionar a oposição burguesa para que a CPI dos Correios faça um relatório rápido e com um final feliz para ambos os lados. Não há um intuito real de investigar o esquema de Furnas, ou as outras diversas fontes de caixas dois eleitorais, ou quaisquer outras maracutaias resgatadas da era FHC. A mensagem que o governo Lula pretende transmitir ao PSDB com essa lista é “vamos parar de brincar de CPI, vamos ao que interessa! Vamos logo para a disputa para ver quem comanda a mamata nos próximos quatro anos!”.