Lições do Egito

A derrubada de Mubarak impactou o mundo. Os ativistas que estão à frente das lutas sindicais, estudantis e populares no Brasil ficaram muito contentes, como no mundo todo. Agora, além da alegria, é hora de tirar conclusões. Pensar em algumas lições que podem nos servir também aqui no Brasil, mesmo com realidades tão diferentes.

A primeira lição é que ocorreu uma revolução vitoriosa. A revista Veja, símbolo da direita no Brasil, descreveu a queda de Mubarak como um golpe militar, para esconder o protagonismo das massas populares concentradas ao redor da Praça Tahrir. Não, não foi assim. Aconteceu uma revolução, com os estudantes, os trabalhadores e o povo egípcio derrubando uma ditadura que durava trinta anos e parecia estável há menos de dois meses. O exército não foi o agente
da derrubada de Mubarak, mas busca agora se apropriar da vitória das massas.

Praça Tahrir, no centro do Cairo, palco dos maiores enfrentamentos

Uma revolução vitoriosa é uma injeção de ânimo para os lutadores de todo o mundo. As massas em ação conseguiram dividir um poderoso exército, mostrando que o mais sólido Estado pode desabar quando elas entram em movimento. O povo egípcio passou por cima das direções conciliadoras que queriam um acordo para manter Mubarak até setembro. As massas mostraram que, quando têm uma clara vontade política, podem fazer maravilhas.

Isso é um antídoto forte contra o ceticismo. O proletariado brasileiro já protagonizou um dos maiores ascensos sindicais de todo o mundo na década de 1980, quando sacudiu toda a superestrutura política e sindical do país, criando a CUT e o PT. O povo nas ruas derrubou o governo Collor na década de 1990.

O refluxo atual, para o qual contribuem decisivamente o governo do PT e o crescimento econômico, não vai durar para sempre. É produto de circunstâncias econômicas e políticas que têm um tempo histórico para terminar. É necessário ter firmeza para atuar nesse refluxo e paciência para esperar por novos tempos.

A revolução egípcia é parte de uma situação mundial em mudança, que já incluía vários países imperialistas na Europa. Agora se estende como um efeito dominó – além de derrubar as ditaduras egípcia e tunisiana, ameaça outras no Oriente Médio e norte da África. Essa situação, com suas desigualdades, pode se estender ao resto do mundo.

A segunda lição é que esta foi uma revolução no terreno do regime burguês, para derrubar uma ditadura. Não foi uma revolução para mudar os fundamentos da sociedade, sua economia. A situação política que se abriu é completamente nova, confirmando a existência de uma revolução.

Mas seguem existindo no país a exploração capitalista, a submissão ao imperialismo norte-americano e a Israel, e boa parte das instituições autoritárias do antigo regime. Essa revolução democrática só pode ser entendida como parte de uma revolução permanente que, ou avança para tarefas antiimperialistas e socialistas, ou acabará retrocedendo.

Na verdade, a história dessa revolução está apenas começando. Todas as forças do antigo regime (o conselho militar, as Forças Armadas, os órgãos de repressão intactos) e a oposição burguesa vão tentar acabar com as mobilizações, para não “incomodar” as negociações. Caso isso aconteça, o pacto com Israel se manterá, o novo regime preservará instituições do antigo, e a fome e a miséria não vão acabar.

Agora as tarefas se tornam muito mais difíceis. Haverá diferenças importantes entre os que estiveram unidos contra a ditadura de Mubarak. A existência de uma organização revolucionária com peso de massas poderá definir a evolução da revolução árabe.

Se a revolução democrática foi em boa parte espontânea, sua continuidade para a revolução socialista exige uma direção revolucionária. Na verdade, caso essa organização revolucionária de massas já existisse, mesmo esse primeiro momento da revolução poderia ter sido diferente. Agora, para os próximos passos, se torna imprescindível. Essa é a segunda lição que se pode tirar do Egito. É fundamental construir uma organização revolucionária.

Assim, quando uma situação revolucionária surgir no Brasil, será possível disputar sua direção.

Post author Editorial do Opinião Socialista Nº 418
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