“Licença remunerada da Vale não garante emprego”, diz sindicalista

Valério Vieira denuncia que, no mesmo dia, empresa aumentou em 25% o repasse aos acionistas, que alcançou de 2,5 bilhões de dólaresAcompanhando as declarações de seu presidente, Roger Agneli, a Vale apresentou, nesta quarta-feira, uma proposta de licença remunerada aos seus trabalhadores de Minas Gerais e do Mato Grosso do Sul. Cerca de 19 mil funcionários seriam atingidos pela medida.

Pela proposta da patronal, os trabalhadores que aderirem à licença ficariam em casa até 31 de maio e receberiam apenas metade do salário, e os benefícios, com o valor mínimo de R$ 856. Após 31 de maio, os empregos não estariam mais garantidos.

A Vale condicionou a garantia de emprego a aceitação da licença por parte dos sindicatos que representam os trabalhadores. Até o momento, cinco dos dez principais sindicatos aceitaram a proposta. Os sindicatos ligados à Conlutas e à CUT não aderiram, entre eles os de Itabira e de Congonhas, em Minas.

Para Valério Vieira, diretor do Sindicato Metabase de Congonhas, Ouro Preto e Região, a licença remunerada é inaceitável. “No mesmo dia que propôs a licença, a diretoria da Vale aprovou o repasse de 2,5 bilhões de dólares para os acionistas, 25% a mais do que em 2008”, justifica.

Valério também ressalta que a Vale continua comprando empresas. A última aquisição da mineradora foi uma indústria de cimento na Colômbia por US$ 300 milhões. “A Vale não deixou de investir e repassa o prejuízo para os trabalhadores, e isso nós não vamos aceitar”, afirma.

O sindicalista comparou a política atual da empresa com o ocorrido na década de 1990 com as câmaras setoriais. Na época, documentos foram assinados garantindo estabilidade no emprego em troca de redução de direitos e salários. Mesmo assim, os acordos foram burlados e milhares foram demitidos. “Essa política já foi usada, já temos experiência e não vamos repetir o mesmo erro”, garante.

Garantia de emprego é ilusão
O que está por trás da licença remunerada é muito mais do que a manutenção dos empregos. Esta é uma forma de reduzir a produção em tempos de crise mundial. Desde o agravamento da crise em 2008, a Vale já reduziu em 9% a sua produção, o equivalente a 30 milhões de toneladas de minério.

A Vale também não diz o que vai acontecer com estes trabalhadores depois do dia 31 de maio. Segundo a empresa, o destino de seus operários vai depender do mercado.

Que a empresa pague pela crise
A Vale é uma das empresas que mais lucrou no mundo nos últimos anos. Desde a sua venda em 1998 – num leilão cheio de irregularidades – a mineradora aumentou 40 vezes seu patrimônio.

O próprio presidente da Vale declarou, no ano passado, que o caixa da empresa era de US$ 15 bilhões. Isso não impediu que a mineradora demitisse 1.300 funcionários no final do ano passado e que suspendesse, em fevereiro, as atividades da Mina de Fábrica, deixando cerca de 1.700 operários parados. “A Vale lucrou muito, é forte, tem caixa e tem condições de segurar a crise”, concluiu Valério.

A Conlutas também se manifestou. A central classificou a proposta como um desrespeito aos trabalhadores. Em nota, diz que a Vale não precisaria demitir nem reduzir os salários, pois lucrou muito. “Como a própria empresa trata de deixar claro, ela não quer abrir mão de engordar o lucro dos milionários que são seus acionistas com 2,5 bilhões de dólares, pelo menos, em 2009. Nesta hora desaparece a crise”, diz o texto.

A nota ainda cobra das autoridades públicas uma medida que impeça as demissões, que, segundo a Conlutas, “são usadas pelas empresas para chantagear seus empregados, obrigando-os a aceitar redução de salários e direitos”.

Tanto para a Conlutas quanto para o sindicalista, a única saída possível será o caminho da resistência e da luta. A Conlutas chama os trabalhadores da Vale a “resistirem e a lutarem para preservar seu emprego, seu salário e direitos, ao lado dos demais trabalhadores que estão resistindo em todo o país” e chama também “as demais centrais sindicais a cerrar fileiras na construção de um amplo processo de mobilização em todo o país (…) e para exigir do governo uma medida provisória que proíba demissões de trabalhadores.”.

No dia 11 de fevereiro, haverá um ato em frente à sede da Vale, no Rio de Janeiro. Trabalhadores de todas as unidades deverão estar representados.