Lênin ou Kornilov

Porque a democracia-liberal não foi uma alternativa histórica na revolução russa de 1917No próximo mês de outubro dar-se-á o aniversário de noventa anos da revolução russa. A efeméride oferece a ocasião para o ressurgimento da interpretação liberal sobre o seu significado: seus arautos nos recordarão, em um exercício manipulado de história contra-factual, que o século XX teria sido o palco de uma luta titânica da democracia contra os totalitarismos comunista e fascista. Esquecerão, convenientemente, que sem a revolução de outubro – e, portanto, a existência da URSS – seria muito duvidoso o resultado da luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial.

Derrotas históricas, conseqüências trágicas
A velha máxima que assegura que as revoluções tardias são as mais radicais não deixou de se confirmar. Ao final da Primeira Guerra Mundial ruíram na Europa Central e Oriental três Impérios – o russo, o austro-húngaro e o prussiano – que tinham atravessado, incólumes, o século XIX, desde a Santa Aliança anti-republicana e o Tratado de Viena de 1815. As formas monárquicas mais ou menos arcaicas de cada um deles – expressão de uma transição burguesa negociada sob as cinzas da derrota das revoluções democráticas de 1848 – foram destruídas pelo desenlace da guerra, mas, também, pela maior vaga revolucionária que a história tinha até então conhecido: de Petrogrado a Budapeste, de Viena a Berlim, milhões de homens e mulheres, trabalhadores e soldados, atraíram para o seu lado setores das camadas médias, artistas, intelectuais e professores, e lançaram-se na obra de destruir os velhos regimes de opressão que os tinham mergulhado no turbilhão do genocídio de dez milhões de vidas.

Aonde as revoluções democráticas de 1848 foram derrotadas pelas velhas monarquias – fortalecidas na época da restauração depois de 1815- como na Alemanha prussiana e no Império dos Habsburgos, a tarefa de pôr fim à guerra uniu-se à proclamação da República, mas as forças sociais que impuseram, pelos métodos da revolução, a derrota do governo – o proletariado e os camponeses arruinados que constituíam a maioria do exército – não se contentaram somente com as liberdades democráticas, e lançaram-se na vertigem da conquista do poder com suas esperanças socialistas.

As revoluções atrasadas da Europa Central e Oriental transformaram-se em revoluções proletárias pioneiras ao final da Primeira Guerra Mundial, mas, à excepção da Rússia, foram desbaratadas. Derrotas históricas, contudo, têm conseqüências trágicas e duradouras. O custo histórico, para os alemães, da derrota de seus jacobinos em 1848 foi o militarismo nacionalista do II Reich, o imperialismo do Kaiser, e a Primeira Guerra Mundial. O preço que a nação alemã pagou pela derrota do seu proletariado – o triunfo do nazismo, a Segunda Guerra e os seis milhões de vidas da juventude alemã – foi ainda maior.

Ditadura do proletariado ou ditadura fascista
Aonde as formas tirânicas do Estado revelaram-se mais rígidas, como na Rússia, a revolução democrática radicalizou-se, muito rapidamente, em revolução socialista, confirmando que revoluções não podem ser compreendidas somente pelas tarefas que se propõem resolver, e menos ainda pelos seus resultados, mas, sobretudo, pelos sujeitos sociais, ou classes, que tiveram a audácia de fazê-las, e pelos sujeitos políticos, ou partidos, que foram capazes de dirigi-las. O substitucionismo histórico – de uma classe por outra – e a centralidade da política – com a redução das margens de improviso da liderança – demonstraram-se as chaves de explicação dos processos revolucionários contemporâneos.

Não foi a burguesia russa que se lançou à insurreição para derrubar o Estado semi-feudal dos Romanov em fevereiro de 1917, mas foi ela quem impediu o governo provisório do Príncipe Lvov de fazer a paz em separado com a Alemanha: os capitalistas russos demonstraram-se demasiado frágeis para, por um lado, romper com seus parceiros europeus, e por outro, para garantir a sua dominação através de métodos eleitorais na República que nascia pelas mãos da insurreição proletária e popular. Não foi a burguesia quem mandou os seus filhos para as trincheiras da guerra serem massacrados, mas era ela quem apoiava Kerensky, quando este insistia em lançar os camponeses fardados em ofensivas suicidas sobre o exército alemão.

A pressão de Londres e Paris exigia a manutenção da frente oriental, mas a pressão de um proletariado poderoso e combativo – proporcionalmente a uma burguesia com pouco “instinto de poder” pela submissão à monarquia – exigia o fim da guerra; as forças mais fortes da esquerda socialista – mencheviques e esseristas – se recusavam a assumir o poder sozinhos, porque não queriam romper com a burguesia, porém os bolcheviques, minoritários até setembro, recusavam a integração no governo de colaboração de classes, porque não admitiam romper com as reivindicações populares. Quando Kerensky perdeu o apoio nas classes populares, a burguesia russa apelou ao general Kornilov para resolver com as armas, o que não podia ser resolvido com argumentos. A hora das eleições para a Constituinte tinha passado. A burguesia russa perdeu a paciência com Kerensky e rompeu com a democracia, dois meses antes de o proletariado perder a paciência com os seus líderes, e recorrer a uma segunda insurreição para terminar com a guerra.

O fracasso do putsch selou o destino da burguesia russa. O proletariado e os soldados encontraram nos bolcheviques, nas horas terríveis de agosto, o partido disposto a defender com a vida as liberdades conquistadas em fevereiro. Sem o apoio da burguesia e sem o apoio das massas, suspenso no ar, o governo de Kerensky – e seus aliados reformistas – procurou socorro no pré-parlamento, mas a legitimidade da democracia direta dos sovietes superava a representação indireta de qualquer assembléia: o tempo para as negociações com a Entente tinha se esgotado, a oportunidade histórica para a república burguesa tinha sido perdida. Era tarde demais.

A engrenagem da revolução permanente empurrava a maioria do Exército e dos trabalhadores interessados no fim imediato da guerra para uma segunda revolução e operava a favor dos bolcheviques. O proletariado e os camponeses pobres precisaram dos meses que separaram fevereiro de outubro para perderem as ilusões no governo provisório, onde os partidos em que depositavam suas esperanças, mencheviques e esseristas, eram incapazes de garantir a paz, a terra e o pão, e entregar sua confiança aos sovietes onde a liderança de Lênin e Trotsky se afirmava.

Martov, líder dos mencheviques internacionalistas e Kautsky, líder da social-democracia alemã, insistiram, nos anos seguintes, que Outubro teria sido uma aventura voluntarista. Acusaram os bolcheviques de golpistas por terem feito a revolução: queriam que os bolcheviques construíssem o regime democrático-liberal quando a burguesia russa tinha apoiado os métodos da guerra civil para defender a propriedade privada. Quis a ironia da história que, na Rússia de 1917 – antecipando um movimento histórico que depois se generalizou à Europa – os partidos menchevique e SR, que nasceram como organizações operárias e populares, transfiguraram-se nos porta-vozes da pequena-burguesia e das incipientes classes médias urbanas: um colchão de amortecimento da luta de classes entre o Capital e o Trabalho, e os últimos advogados de um regime democrático-liberal, mesmo depois que a burguesia tinha abraçado o plano da ditadura fascista, que poderia ser adornada com uma coroa monárquica. Mais razoável, entretanto, seria concluir que uma hesitação bolchevique em outubro, ou a sua derrota na guerra civil entre 1918/1920, teria levado ao poder – apoiado pelas democracias de Washington e Londres – um fascismo russo, e ninguém deveria querer imaginar o que poderia ter sido um “Hitler” no Kremlin.
Revolução européia e contra-revolução nazi-fascista

Onze anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial, quando se precipitou a crise catastrófica de 1929, já era claro que a alternativa colocada diante daquelas nações era, tão somente, entre um governo dos sovietes ou uma ditadura fascista, mas a revolução socialista, paradoxalmente, acabou triunfando apenas no mais atrasado dos velhos Impérios europeus. A vaga revolucionária que sacudiu o continente ao final da guerra – iniciada em 1917 com a queda do Czar, e derrotada na Alemanha em 1923 – foi forte o bastante para bloquear a violência contra-revolucionária sem quartel – uma guerra “total” contra a ditadura do proletariado como o jovem Winston Churchill chegou a defender – e preservar a jovem República dos trabalhadores por alguns anos, mas insuficiente para impedir o seu isolamento internacional.

Na seqüência da crise de 1929, uma segunda vaga revolucionária abalou a dominação capitalista até os seus alicerces tendo como epicentro, pela primeira vez, uma onda que uniu a Europa do Mediterrâneo à luta na Europa Central e, mais uma vez, o destino da revolução mundial foi depositado sobre os ombros da classe operária alemã. A coragem dos trabalhadores germânicos foram em vão: suas organizações dirigentes demonstraram-se incapazes da mais elementar união diante do perigo nazista, e sua derrota abriu o caminho para que Franco triunfasse nas trincheiras da Guerra Civil Espanhola.

Na história, o que não avança, tende a recuar. A primeira onda da revolução mundial obteve a maior vitória do movimento operário – a existência da URSS – mas, ao adiar para o futuro a hora dos combates decisivos em Berlim, permitindo, assim, a reconstrução do capitalismo alemão sob as ordens de Hitler, favoreceu as condições que acabaram resultando na II Guerra Mundial e, finalmente, na invasão dos exércitos nazistas até às portas de Petrogrado. Colocou em risco mortal, em 1941, tudo o que se tinha conquistado em 1917. A derrota alemã em 1923 esteve na raiz do isolamento internacional que favoreceu o processo de burocratização da URSS, e a vitória da fração de Stálin dentro da III Internacional. A derrota alemã em 1933 inverteu a relação de forças entre revolução e contra-revolução em toda a Europa e ameaçou a própria existência da URSS. Em 1942, o mapa da Europa era dominado pelo Império nazista. Mas, sem a revolução de Outubro, seria impensável a mobilização que permitiu a derrota do exército alemão em Stalingrado, e o início do colapso do nazi-fascismo.

A alternativa de outubro: capitalismo ou socialismo
O balanço que a história deixou parece irrefutável: se até a Alemanha, a mais desenvolvida e educada das nações européias não escapou da ditadura nazista, seria superficial e até, talvez, ingênuo, imaginar que a atrasada Rússia semi-asiática poderia ter consolidado um regime democrático-liberal ao final da Primeira Guerra Mundial. São variadas as razões que explicam essa impossibilidade na Rússia, ao contrário do que aconteceu, posteriormente, na Europa do Mediterrâneo em 1945, em Portugal e Espanha entre 1975 e 1978, ou na América Latina entre 1982 e 1985.

Nas condições da Rússia depois da queda do Czar, em fevereiro, a burguesia não estava disposta a romper suas relações com Londres e Paris e iniciar um processo de paz em separado com Berlim, porém, sem a paz, a burguesia não teria segurança para a convocação das eleições para a Constituinte. Acontece que revoluções são, sempre, em maior ou menor medida, uma surpresa histórica. A burguesia não poderia imaginar, entre fevereiro e julho, que o bolchevismo seria o maior partido da Rússia em setembro, e que Lênin e Trotsky estariam dispostos à luta pelo poder. Mas, a contra-revolução aprende, e por isso a burguesia alemã não hesitou em apoiar Hitler quando o nazismo se credenciou como o partido que seria capaz de enterrar a revolução alemã.

Ao chegar mais de meio século atrasada ao processo de industrialização, e ao ter se inserido no sistema internacional como potência semi-periférica – imperialista em relação às suas colônias no Cáucaso e na Ásia, mas sub-metrópole em relação à França e à Inglaterra – a burguesia russa tinha se associado aos capitais estrangeiros para financiar a implantação de seu parque industrial.

A consolidação de uma democracia-liberal pressupunha a convocação de eleições em uma situação em que a legitimidade da vontade popular tinha encontrado representação nos sovietes, onde o principal partido burguês, o Kadete, não tinha expressão. A força do proletariado em movimento impunha uma forte presença dos partidos socialistas moderados, mencheviques e esseristas, nos variados Governos provisórios, mas, assim como Miliukov não estava disposto a romper com a Entente, estes partidos não estavam dispostos a romper com a burguesia, levando primeiro o Príncipe Lvov, e depois Kerensky, ao impasse crônico. Ao exigir das massas que fizeram a revolução contra o Czar para se libertar da guerra, que prolongassem a guerra para conseguir a Constituinte (e a promessa secular de terra e libertação nacional para ucranianos, bálticos, caucasianos e asiáticos) sucessivas crises políticas foram se precipitando em vertigem até à crise revolucionária, depois da derrota do golpe de Kornilov.

A existência de um partido, como o de Lênin, capaz de resistir às pressões oportunistas e manter-se na oposição votando as Teses de Abril, capaz de resistir às pressões ultra-esquerdistas em julho e evitar o confronto com Kerensky em terreno desfavorável em julho, capaz de levantar-se contra a quartelada fascista em agosto para defender as liberdades e, sobretudo, capaz de preparar a insurreição em outubro, fez toda a diferença. Mais importante, no entanto, foi o seu exemplo internacionalista: aprendendo as lições da Comuna de Paris, o bolchevismo colocou a vitória de outubro ao serviço da revolução mundial e chamou à fundação da III Internacional. Permanecem a melhor inspiração para os socialistas do século XXI.

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