Kurt Cobain: o cometa de Seattle que abalou uma década

Kurt Cobain

Cinco de abril de 1994. Há 11 anos, um tiro apagava o cometa que atravessou o mundo da música nos anos 90. A morte de Kurt Cobain, o lendário vocalista do Nirvana, prenunciava o fim definitivo do grunge, o efêmero movimento que tirou do marasmo a trilha sonora daquela década

Krist Noveselik, Dave Grohl e Cobain. O Nirvana foi um marco divisor do rock contemporâneo. Quase vinte anos depois dos Sex Pistols “reverenciarem” a rainha da Inglaterra com a irônica “God Save the Queen”, esse trio da fria e cinzenta Seattle ressuscitavam o espírito do punk-rock em canções catárticas que não primavam pela técnica, mas pela emoção e sentimento derramados em insanos decibéis.

Nirvana: a lenda
Já vivíamos a decadência do metal e do chamado glam rock. As roupas de couro já não impressionavam, assim como as performances transbordando testosterona começavam a ser visto com um quê de ridículo. O tempo de bandas como Motley Crue, Manowar e o ícone glam Twisted Sister já havia passado. As confortáveis blusas xadrez de flanela, sempre velhas e surradas, substituíram as jaquetas e os óculos escuros.

O epicentro do movimento grunge foi Seattle, cidade chuvosa do estado de Washington. Várias bandas começaram a surgir e dividir a cena local, como os veteranos do Mudhoney, o Soundgarden e o Pearl Jam. Porém, o Nirvana foi a expressão máxima e inconteste da ressurreição do punk rock, atingindo um sucesso superior a de todos os seus conterrâneos.

Kurt Cobain, o adolescente hiperativo fã de Clash e Sex Pistols, embarcou cedo na cena musical da cidade. Sua primeira banda tinha o sugestivo nome de Fecal Matter. Pouco depois, ele e seu amigo baixista Krist Novoselic criaram o Stiff Woodies, que também teve pouco tempo de vida. Tentaram vários nomes até se decidirem definitivamente por Nirvana, o estado supremo de transcendência pregado pelo budismo. No entanto, paz de espírito não era bem a filosofia de vida da banda.

A violência do grupo, que destruía literalmente o palco em suas apresentações, começou a fazer lenda na cidade e o Nirvana gravou seu primeiro álbum em 1989, o Bleach, pelo selo underground Sub Pop. Da mesma forma, tornaram-se lendárias as baladas homéricas de Kurt e cia, regadas a drogas e álcool. Vários bateristas passaram pelo grupo e não agüentaram o ritmo frenético de Cobain. O único que agüentou a barra foi Dave Grohl, que saiu do Scream para integrar a banda que revolucionaria o rock.

Nevermind: o marco
O álbum responsável pela inscrição do nome Nirvana no livro da História foi Nevermind, em setembro de 1991. Com praticamente todas as faixas virando hits, o disco trazia a canção que marcaria para sempre a década: `Smells Like Teen Spirit`. Introdução lenta e tranqüila e uma progressão distorcida culminando na explosão catártica do refrão. A fórmula era simples e arrebatadora. Aliado a isso, a voz rouca e desesperada de Kurt conquistava fãs em todo o mundo.

No entanto, junto com o sucesso, aumentava também a pressão da gravadora, agora a gigante Geffen Records. O já fragilizado Kurt se afundava cada vez mais nas drogas. Chegou a ser internado várias vezes por overdose e tentativa de suicídio. O título que teria o álbum seguinte, I Hate Myself and I Want to Die (Eu me Odeio e Quero Morrer), de 1993, expressa bem o estado de Cobain. A gravadora, evidentemente, não aceitou esse nome, e o disco passou a se chamar In Utero.

Kurt: o fim
O tormento de Kurt Cobain parecia irreversível. Com a carreira já em uma rota descendente, o vocalista deu um tiro na própria cabeça em sua casa. Foi encontrado três dias depois por um eletricista, no dia 8 de abril de 1994. Era o fim do Nirvana e do movimento que representava.

Os anos que se passaram após o suicídio foram marcados por patéticas disputas judiciais entre Courtney Love, ex-esposa de Cobain, e seus antigos companheiros de banda. A causa da discórdia eram os direitos sobre os restos de gravações deixados pelo músico. A sanha capitalista da gravadora também não arrefeceu e raspou até o fundo do tacho da banda. Hoje, mais de uma década depois, cada um parece finalmente seguir seu próprio caminho. Dave Grohl deixou as baquetas e assumiu o vocal e as guitarras do aclamado Foo Fighters e Krist Novoselic abandonou a música para virar militante pelos direitos civis nos EUA.

Hoje: a memória
O pop açucarado sucedeu o barulho ensurdecedor do Nirvana nas paradas de sucesso. Num momento em que rappers faturam milhões pra incluírem a expressão “big mac” nas letras de suas músicas, a falta da genialidade e rebeldia de Cobain ganham contornos dramáticos. Ele não se deixou absorver pela indústria e pagou seu preço. Kurt Cobain se suicidou com apenas 27 anos, coincidentemente a mesma idade de Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison quando morreram. Assim como eles, Cobain foi considerado o porta-voz de uma geração.

Seu trágico desfecho de fato reflete a falta de perspectiva proporcionada pelo capitalismo à juventude. No período da brutal ofensiva do neoliberalismo, essa desesperança não era nada menos que desoladora. Assim como o famigerado realismo socialista do stalinismo castrou a ânsia criativa do poeta Maiakovski, culminando no seu suicídio, a personalidade selvagem de Cobain não pôde sobreviver dentro da jaula das limitações impostas pelo capitalismo.