José Alencar: por que não reivindicamos sua biografia?

A esquerda tem por tradição reverenciar os seus mortos. Reivindicar a trajetória daqueles que deram suas vidas por um mundo melhor, sem exploração. Alencar, porém, não era um deles. Estava na trincheira oposta da luta de classesFazia algum tempo que uma morte não era recebida com tanta reverência como a do ex-vice-presidente José Alencar, falecido no dia 29 de março, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Em tempos de reality show, as últimas horas do empresário de 79 anos, há 13 anos com câncer, foram exaustivamente acompanhadas pela imprensa.
Nos jornais ou na TV, a imagem de José Alencar esteve ao lado de qualificativos como “lutador” e “exemplo de vida”, entre tantos outros. Repórteres emocionados elogiavam sua simplicidade mineira, enquanto analistas discutiam o legado do dono do maior complexo de tecelagem do país.

Políticos e personalidades de todos os matizes declararam luto. Até mesmo parte da esquerda lamentou a morte do ex-vice-presidente. Não apenas o lamento justificável pela perda de qualquer vida humana, mas um lamento que reivindica, politicamente, o empresário.

A CUT-RJ divulgou nota lamentando a morte do “grande brasileiro José Alencar” que, segundo a central, “conquistou o país com sua simplicidade e defesa permanente das grandes causas nacionais”. O presidente do PSOL descreveu o ex-vice-presidente como “um exemplo de coragem na defesa de suas convicções democráticas”, afirmando ainda que “o heroísmo de sua luta pela vida entra para a História do nosso país”. Já o dirigente nacional do MST, João Paulo Rodrigues chegou a dizer que Alencar foi “um dos poucos bons burgueses”.

O legado de Alencar
Qual é o significado de José Alencar para o país? Embora já fosse um grande industrial estabelecido, proprietário de 11 fábricas tecelãs que formam o complexo da Coteminas, o mineiro só ganhou destaque político nacional pelas mãos de Lula, nas eleições que o levaram à Presidência em 2002.

Mesmo que Lula credite a seu ex-vice o fato de ter ganho aquelas eleições, a escolha do industrial para compor a chapa para o Planalto foi bem mais simbólica. O desgaste de FHC e do neoliberalismo, assim como o histórico de Lula como líder operário, já colocavam o petista em uma posição de franco favoritismo frente ao então candidato tucano José Serra. Assim, com ou sem Alencar, seria muito improvável que o petista não ganhasse.

O empresário mineiro viria, na verdade, referendar a escolha programática do PT a favor do capital, da economia de mercado e da manutenção da política econômica dos governos anteriores. Seria necessária uma cara para a famigerada “Carta aos brasileiros”. Lula e José Dirceu decidiram que a cara simpática e bonachona de Alencar se encaixaria perfeitamente aí.

Mais do que ganhar votos, a escolha de Alencar foi mais uma mensagem ao mercado. Foi então que se conformou a chapa entre PT e PL, o partido do empresário na época, que mais tarde se transformaria no PRB.

O empresário
Outro fato que teria pesado na escolha de Alencar para o posto teria sido sua biografia, semelhante à de Lula como exemplo de “superação”. De família pobre do interior de Minas Gerais, Alencar trabalhou no comércio durante sua juventude. Na década de 1960, constituiu a Companhia de Tecidos Norte de Minas, a Coteminas, que contou com generoso auxílio da Sudene na época para se expandir.

Foi só na década de 1990 que Alencar passou o comando de seus negócios a um de seus filhos e se lançou na vida política. Até então, sua atuação se limitava às associações de classe. Foi eleito senador em chapa com Itamar Franco, de quem se tornaria desafeto mais tarde.

Oficialmente, Alencar teria saído do mundo dos negócios. Mas eles não saíram dele. Recentemente, documentos vazados pelo Wikileaks comprovam a intenção da Coteminas de entrar no Haiti. O país ocupado militarmente pelas tropas da ONU comandadas pelo Brasil se tornou o paraíso das fábricas têxteis, devido à abundante e barata mão de obra. De lá, os produtos são exportados principalmente aos EUA. A estabilidade propiciada pelos soldados garante o retorno dos investimentos.

Os documentos, de 2009, mostram como o filho de Alencar, Josué Gomes da Silva, presidente do grupo, teria feito lobby para a empresa se beneficiar da Lei Hope II. Esta lei (Oportunidade Hemisférica Haitiana) foi estabelecida em 2007 e cria uma zona de livre comércio entre o país caribenho e os EUA. Ou seja, além da mão de obra barata, a Coteminas teria caminho livre para exportar aos EUA.

Vale lembrar ainda que, entre 2004 e 2006, o então vice José Alencar acumulou também o posto de ministro da Defesa. Ou seja, foi em seu mandato que o Brasil ocupou a liderança da Minustah, a missão de ocupação militar da ONU no Haiti, iniciada em 2004.

Josué Gomes não escondia o interesse da Coteminas em aproveitar as condições oferecidas pelo país haitiano. “O Brasil é reconhecido colaborador do processo de resgatar o Haiti. O país tem direito de pleitear um tratamento preferencial”, chegou a dizer em entrevista ao jornal Valor Econômico, sobre a reivindicação da empresa de se beneficiar da Lei Hope.

Alencar não é um dos nossos
Não se deve negar que a figura de Alencar e seu jeito simples despertavam simpatia. Grande parte de sua popularidade experimentada em seus últimos momentos de vida, porém, deve-se à enorme popularidade de Lula.

Além disso, a orientação ultraliberal adotada pelo governo Lula, principalmente em seu primeiro mandato, fez parecer que o ex-presidente estivesse à direita de Alencar. O empresário, no entanto, fez o que qualquer industrial faria: reclamou dos juros altos. Esteve muito longe de qualquer política que pudesse ser considerada minimamente progressista.

José Alencar, mesmo que fosse um empresário “íntegro” e “honesto”, de acordo com a moral burguesa, construiu seu império à custa da exploração dos trabalhadores. O capital acumulado por anos de exploração o possibilitou, em idade já avançada, receber o melhor e mais moderno tratamento contra o câncer. Possibilidade que nenhum de seus funcionários teria.

A esquerda tem a tradição de reverenciar os seus mortos. Ou seja, reivindicar a trajetória daqueles que deram suas vidas por um mundo melhor, sem exploração. Alencar, porém, não era um deles. Estava na trincheira oposta da luta de classes. Do lado dos exploradores. Por isso, apesar da comoção nacional provocada pela mídia, José Alencar não é um de nossos mortos.
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