João Cândido, 96 anos depois

João Candido é levado após a revolta

Em 22 de novembro de 1910, quando o Almirante Negro João Cândido e seus marinheiros apontaram os canhões dos mais poderosos navios de guerra da época para a sede do governo federal no Rio de Janeiro, dando início à Revolta da Chibata, eles, sim, nos ofereceram “simbolismos“ de enorme importância. Primeiro, de que a luta contra o racismo só pode ser travada, de forma conseqüente, nas ações diretas contra o sistema e seus agentes; segundo, que não é possível depositar qualquer confiança nas elites dominantes.

A rebelião contra os maltratos e os castigos físicos praticados contra os marinheiros, na sua imensa maioria negros recrutados à força, se estendeu por uma semana, quando, diante de um projeto de anistia votado pelo Congresso, os marinheiros depuseram as armas. No início de dezembro, todos foram presos. Mais de cem foram enviados para a floresta, no Acre, onde a maioria morreu no trabalho forçado de construção da ferrovia Madeira-Marmoré, ao lado de ladrões e presos comuns. Dezesseis líderes foram atirados numa masmorra na Ilha das Cobras (RJ), onde morreram asfixiados. Outros tantos foram fuzilados.

João Cândido saiu vivo da Ilha, foi colocado numa solitária e, em 1911, perturbado e abatido, foi encaminhado para um hospício. Foi libertado somente em 1912. Quando morreu, em 1969, aos 89 anos. Ele era estivador e vendedor no Entreposto de Peixes do Rio de Janeiro, sem patente, sem aposentadoria e, sem “registro“ na história oficial do país.

Sua história, contudo, não morreu com ele. Mas, para resgatá-la e lhe dar o devido valor será preciso que lutemos até que possamos dar continuidade ao movimento que ele iniciou há 96 anos.