Jesús Herrera, da Venezuela: “Só com nossa força poderemos conquistar nossos objetivos”

Jesús Herrera
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Operários da Siderúrgica de Orinoco (Sidor), na Venezuela, estão protagonizando um importante processo de lutas no país. Na última terça-feira, dia 4, trabalhadores organizaram uma grande passeata e foram duramente reprimidos. O protesto ocorreu em frente às instalações da empresa venezuelana de Guayana (CVG), quando os trabalhadores aguardavam para serem atendidos por membros de uma comissão de negociação. A Sidor é uma grande siderúrgica do país, privatizada em 1997. Desde então, os trabalhadores sofrem um duro arrocho salarial e contínuos golpes trabalhistas. Para falar da greve, entrevistamos Jesús Herrera, dirigente da luta e Delegado da Sutiss e Coordenador da Frente Siderúrgico Bolivariana de Prevenção, Saúde e Segurança Trabalhista, algo semelhante às Cipas aqui do Brasil

Qual é o motivo da greve?
No marco da discussão da convenção coletiva, o Sindicato elaborou um projeto de contrato onde reivindicava uma série de benefícios. Mas a transnacional manteve uma posição que não preenchia as expectativas dos trabalhadores, dizendo à opinião pública que as reivindicações do sindicato são inviáveis, mesmo que a empresa reconheça que os nossos salários estão defasados.

Por outro lado, o lucro da empresa é extraordinário, tanto que se dá o luxo de investir na compra de empresas em outros países. Enquanto isso, os salários estão muito baixos, comparado com as outras empresas e com o custo de vida. Em média, os trabalhadores recebem cerca de 1.200 bolívares por mês.

O governo da V República se dispões a reestatizar a Sidor?
A privatização da Sidor trouxe consigo a substituição dos trabalhadores fixos por trabalhadores contratados e subcontratados. Além disso, houve a aplicação de políticas neoliberais e exploradoras que desrespeitam as leis venezuelanas nas questões trabalhista.

Este governo revolucionário, ainda que reconheça que a privatização da Sidor foi um presente dado pelo governo da IV República, não tem o interesse, por ora, de restatizá-la, mesmo sabendo dos problemas existente na siderúrgica do país.

Como começou a greve?
A greve como tal não está declarada. Estamos fazendo paralisações escalonadas de 24 e 48 horas para protestar ou pressionar para construirmos um ambiente de conciliação. Contudo, não descartamos ir a uma greve indefinida.
Estão envolvidos diretamente nas paralisações os trabalhadores amparados pela convenção coletiva, com apoio de setores das contratadas que também estão amparados na cláusula nº 97 (1.200).

Como está sendo o dia-a-dia da luta, a radicalização e o papel dos delegados de prevenção e do sindicato?
Mantemos uma constante mobilização nos meios de comunicação, jornais, rádios, internet, para desmontar a política midiática da transnacional, empresários e um setor de políticos. Além disso, estamos aprofundando os protestos com os delegados de Prevenção e Sindical fábrica adentro, paralisando as fábricas que expõe os trabalhadores a processos perigosos.

Como foi o enfrentamento com a Guarda Nacional?
Os trabalhadores têm em mente que somente com sua força organizada poderemos conquistar nossos objetivos e que, em qualquer momento, teríamos que enfrentar a repressão que pudesse vir a partir do setor do governo que pretende intimidar a classe operária em sua luta justa.

O enfrentamento com a Guarda começou após um protesto no portão da Sidor, onde presumimos que infiltrados da transnacional queimaram um ônibus. Realizamos uma marcha pacífica por toda a cidade e nos concentrarmos nos arredores da C.V.G, onde estava marcada uma reunião. Mas lá também queimaram outro ônibus. Nisso, chegou a repressão da Guarda Nacional, que tivemos que enfrentar, pois não tiveram pena de ninguém.

Na repressão foram atingidos até habitantes da cidade, com tiros à queima roupa, deixando vários feridos com balas de borracha. Algo que enfureceu ainda mais o resto dos trabalhadores que agüentaram a repressão até que a munição da polícia acabasse.

Qual é a opinião dos trabalhadores sobre como relação a atuação do governo e do Ministério do Trabalho nas negociações da Comissão de Alto Nível?
Reconhecemos que este governo nos tem dado muitas ferramentas para lutar, mas também criticamos a estreita relação que o presidente Chávez mantém com o governo argentino, que está privando uma ação mais contundente contra a transnacional. Tanto é assim que sentimos que a pressão que estão fazendo recai sobre os trabalhadores e não sobre a transnacional.

Após os incidentes na C.V.G, a sede das reuniões foi transferida para um lugar isolado e com aceso restrito aos trabalhadores. Ao finalizar a reunião de sábado o governo expôs a possibilidade de romper a mesa de negociação e impor uma proposta à assembléia.