Iraque: resistência avança e questiona Constituição colonial

Na guerra de liberação nacional que se trava hoje no Iraque, o povo está encurralando as forças de ocupação. Em mais uma manobra para tentar consolidar um governo títere no Iraque e garantir o controle das regiões ricas em petróleo, o governo Bush trabalha para a aprovação da nova Constituição, que consagra a ocupação e a recolonização do país em mãos dos americanos. E tenta dar um “ar democrático” ao processo, convocando uma consulta popular para que o “povo possa opinar”, para o dia 15 de outubro.

“Essa é a primeira Constituição em nossa História da qual todo o povo iraquiano participou”, disse o presidente interino do Iraque, Jalal Talabani. Mas ninguém participou de nada e agora será convocado para dizer sim ou não. E pelo que indicam as mobilizações, o povo iraquiano vai dizer “não” à Constituição americana, se não houver fraude.

Carta dará autonomia às áreas petrolíferas
Longe de consolidar o governo, dominado pela burguesia xiita e curda, com uma minoria de representantes sunitas, a nova Constituição está deixando mais evidentes os rachas internos. Os principais pontos de discórdia giram em torno ao controle das regiões petrolíferas.

A nova Constituição é uma armadilha do imperialismo norte-americano. Estabelece que o Iraque é uma república federativa. Isso significa que as 18 províncias que conformam o país terão autonomia relativa. Na região sul, dominada pelos xiitas, e norte, dominada pelos curdos, ficam as províncias mais ricas em petróleo. Por isso, os sunitas, que são maioria em apenas três províncias, e não as que têm maiores concentrações petrolíferas, não aceitam a nova Carta, porque temem perder o controle sobre o petróleo iraquiano.

Bush tenta um acordo. A Carta é essencial para dar uma imagem “democrática” ao governo títere, mas, sobretudo, para consagrar na lei o saque do petróleo. Com o federalismo, a Carta consagra de fato a secessão do Iraque, fazendo com que as regiões ricas em petróleo ganhem autonomia em relação ao Estado iraquiano. Isso facilitaria a ação das multinacionais petroleiras, que poderiam explorar o petróleo à vontade, obedecendo à legislação própria. Em certa medida, é o que a burguesia tenta fazer também na Bolívia, conquistando autonomia para a região de Santa Cruz de la Sierra, que concentra quase todo o petróleo e o gás bolivianos.

O inferno da ocupação
Isso seria a desgraça total para o povo iraquiano. O petróleo, a grande fonte de riqueza que pode tirar o povo da miséria, seria controlado pelos amos coloniais, com investimento zero no Iraque.

A ocupação militar já deixou clara a política imperialista no país, fazendo do dia-a-dia do povo um verdadeiro inferno. Enquanto enchem a boca para falar em democracia, em paz e cooperação, Bush e seus comparsas destroem o país. Os próprios deputados norte-americanos estão denunciando que o dinheiro para a reconstrução do Iraque desapareceu. As condições básicas de alimentação, saúde e educação são péssimas; o desemprego chega a 70%; a taxa de inflação chegou em junho a 37%; é incrível a falta de combustível e eletricidade (no país que tem a segunda reserva mundial de petróleo!). Essas mazelas vieram a somar-se ao sofrimento que já se suportava, ocasionado pelo criminoso bloqueio americano ao país desde a guerra do Golfo, que levou às alturas a mortalidade infantil. Tudo isso explica o caráter amplo e massivo do ódio ao imperialismo e a todos os que colaboram com ele. A cada dia fica mais claro que a única preocupação dos ocupantes e seus cúmplices é roubar o petróleo e controlar as riquezas do país.

Não contentes com isso, os ocupantes estão dizimando a população. Estima-se em mais 100 mil os civis iraquianos mortos. São constantes os massacres, a fome e as doenças, e as prisões estão abarrotadas de “suspeitos”, vivendo uma rotina de torturas e execuções, como as que vieram à luz em Abu Grahib. Em 26 de julho passado, o porta-voz do Pentágono informou que as forças de ocupação americanas mantêm sob custódia 17 mil presos iraquianos, e o último informe da Anistia Internacional sobre os direitos humanos no Iraque mostra que centenas de crianças estão presas, suspeitas de “terrorismo”.

Iraque para os iraquianos!
As liberdades democráticas, como a libertação dos presos políticos, o fim das torturas e prisão e o castigo para os responsáveis por elas, são uma necessidade premente na luta contra a dominação colonial. Também é preciso lutar pelo direito irrestrito de greve e organização sindical, proibidos por Saddam e que os ocupantes mantiveram.

É preciso construir a organização independente da classe operária iraquiana para derrubar esse governo capacho do imperialismo e construir um governo operário e camponês, que lute por uma Federação de Repúblicas Socialistas do Oriente Médio. Só esse governo poderá fazer com que a liberação nacional signifique também uma vida melhor para o povo, com a nacionalização do petróleo e um plano de obras públicas para a reconstrução do país.

Iraque para os iraquianos! Essa é a grande bandeira da luta no Iraque hoje, porque nem os EUA, nem a Europa e nem a ONU vão resolver seus problemas. Só aos iraquianos cabe decidir o destino de seu país.

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