Irã: Depois da eleição, “eixo do mal” fica pior para Bush

A resistência dos povos contra as incursões do imperialismo sobre seus países está aumentando e nada indica que o “eixo do mal” se torne, em um curto prazo, um “eixo do bem”. No Irã, tivemos mais uma prova disso que estamos dizendo. País que já foi incluído por Bush no “eixo do mal”, agora, com as eleições, caiu para o “eixo do inferno”. Foi eleito presidente Mahmoud Ahmadinejad, candidato que não goza da simpatia dos EUA, e derrotado Hashemi Rafsanjani, candidato preferido pelos americanos, porque se comprometera a continuar a política de aproximação com o imperialismo e “ocidentalização” da República Islâmica do Irã.

Dois grandes fatores estão no centro das preocupações de Bush no Irã: o controle do petróleo e o fim do programa nuclear. Ambos ficam mais periclitantes quanto mais o islamismo se fecha e se fortalece. Foi o que aconteceu no Irã, com a eleição de Ahmadinejad.

Irã, peça-chave para os EUA no Oriente Médio
Desde a revolução iraniana de 1979, que varreu a ditadura do Xá Pahlevi, o imperialismo, que apoiou até o último momento o regime do Xá, sempre tentou retomar o controle dos ricos poços de petróleo do Irã. A contradição dessa revolução foi sempre sua direção, a hierarquia xiita, que tratou de desmobilizar as massas e estabeleceu um estado ditatorial e teocrático, que manteve o sistema capitalista, atacou os comitês operários surgidos na revolução, perseguiu o movimento sindical independente e obrigou a população a aceitar os designios dos sacerdotes xiitas.

Mas, apesar do caráter burguês e retrógrado dessa direção, o Irã manteve uma relativa independência em relação ao imperialismo norte-americano que nunca desistiu de retomar seu controle direto sobre o país, estratégico no Oriente Médio, com imensas fontes de petróleo.

Nos últimos anos, o imperialismo fez diversas tentativas de retomar seu domínio sobre o Irã: sanções econômicas, financiamento de oposições pró-imperialistas e, durante o mandato de Reagan, inclusive do armamento de Saddam Hussein, para que declarasse a guerra ao Irã, que durou oito anos (1980-88) e terminou com mais de um milhão de mortos. A guerra contra o Iraque serviu também para que os aiatolás reprimissem o movimento operário e estabelecessem um controle férreo sobre a juventude. Um ano depois de terminada a guerra, sobe ao governo Hashemi Rafsanjani (o mesmo que agora foi derrotado), então comandante-em-chefe das forças armadas. Ele governou o país até 1997, fazendo algumas reformas democráticas, mas aprofundando enormemente a miséria e o desemprego.

Essa situação fez com que, nos últimos anos, tanto na juventude como no movimento operário, explodissem mobilizações por liberdades democráticas e melhores condições de vida, que vêm se expressando em grandes atos de protesto, sobretudo nas comemorações do 10 de Maio.

Rafsanjani era, portanto, alvo do repúdio das massas, em especial porque fez toda a campanha pregando a “abertura” do Irã ao Ocidente, o que quer dizer maior ingerência dos EUA e Europa nos negócios do petróleo. Por outro lado, disse que aceitaria uma negociação com os EUA em relação ao programa nuclear do Irã.

O imperialismo está preocupado com o avanço do programa nuclear iraniano. “O Irã deve dar garantias concretas de que seu programa nuclear será usado apenas para fins pacíficos”, disse o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Joschka Fischer, um dia depois das eleições no Irã. Israel fez coro e chamou a comunidade internacional a adotar uma política dura contra o Irã. Não mencionou, claro, as 200 bombas atômicas que mantém no deserto de Neguev e fingiu que não ouviu os EUA anunciarem o plano de retomada da produção de plutônio-238, parada desde o fim da Guerra Fria, para uso em “missões secretas”.

Eleição complicou plano imperialista
As ameaças imperialistas ao Irã lembram o período anterior à invasão do Iraque. Mas hoje a situação do Irã deve ser vista em um novo contexto. O imperialismo está metido num pântano no Iraque, o que impede Bush de tomar uma medida de força militar contra o Irã. Além disso, Bush precisa contar com alguma colaboração do regime iraniano para apoiar o novo governo títere iraquiano dirigido pelas forças xiitas, entre elas, aliados respaldados pelo governo do Irã, como o Conselho Supremo da Revolução Islâmica. O resultado eleitoral vai na contramão desse plano.

Mahmoud Ahmadinejad, ex-prefeito de Teerã, é um político de direita, com uma retórica populista. Já disse que seu país não precisa dos EUA para progredir e que não abrirá mão do programa nuclear. Tanto Rafsanjani, candidato favorito para substituir o presidente Mohammed Khatami, quanto Ahmadinejad, mais ligado ao aiatolá Ali Khameni, autoridade suprema no Irã, são conservadores e ligados aos cléricos, mas têm políticas diferentes. Rafsanjani era mais propenso à abertura ao Ocidente e às reformas liberalizantes de costumes (como o fim da obrigatoriedade do uso do véu pelas mulheres), que não foram implementadas enquanto ele foi presidente e que, apesar de serem uma justa reivindicação da população, sobretudo da juventude, serviram basicamente como cortina de fumaça para seus planos neoliberais que levaram ao aumento da miséria e a disparada do desemprego.

Ahmadinejad é ultraconservador em questões sociais. Quando foi prefeito de Teerã, instituiu elevadores separados para homens e mulheres em prédios municipais, proibiu festas mistas e o uso de roupas “não-islâmicas”. Fez a sua campanha eleitoral exortando o Irã a resgatar os valores da revolução islâmica de 1979. Mas, com isso, teve de centrar a campanha no combate ao desemprego e à valorização das “pessoas pobres e dos varredores de rua”.

Esse discurso, que representa uma reforço aos princípios do islamismo, por um lado, e uma tentativa de esfriar o ascenso das massas, por outro, mostra que a vitória de Ahmadinejad é uma expressão distorcida da resistência das massas à ingerência do imperialismo e à abertura ao Ocidente, que só aprofundou a crise econômica, o desemprego e a miséria no Irã. Representa também o fortalecimento de um setor da burguesia mais ligado aos clérigos, que querem negociar com o imperialismo em melhores condições.

Assim, a situação do imperialismo fica mais complicada no Oriente Médio, já que, pelo menos na retórica, Ahmadinejad pretende fortalecer o regime islâmico. Seu governo já começa a ser visto pela burguesia imperialista como pior que o de Saddam, o que, por si só, já justificaria uma invasão americana no Irã. Mas a resistência no Iraque está aumentando e complicando cada vez mais a vida de Bush.
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