Inflação atinge os mais pobres

    Com discurso de combater alta nos preços, governo concede isenção fiscal e aumenta juros

    Apesar do discurso do governo, o dragão da inflação vem dando mostras de ser mais que uma mera ilusão ou fenômeno passageiro. Embora não estejamos vivendo ainda uma explosão inflacionária generalizada, a alta nos preços incide, sobretudo, no setor de alimentos, afetando os mais pobres cuja maior parte dos salários vai para esse tipo de gasto.
     
    Carestia
    O aumento nos preços dos alimentos tem disparado o valor da cesta básica e o custo de vida. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a cesta básica aumentou nas 18 capitais pesquisadas pelo órgão nos quatro primeiros meses do ano. Em João Pessoa, o aumento chegou a ser de 22,33%, em Aracaju de 21,40% e Recife, 19,84%.
    Já a inflação da cesta básica acumulada nos últimos doze meses mostra como a elevação nos preços está comendo os salários. Entre maio de 2012 e abril de 2013, a cesta subiu 34% em João Pessoa, 33% em Recife e 32% em Fortaleza. Para se ter uma ideia, o menor aumento foi verificado em Porto Alegre e mesmo assim foi de 16,4%. Em todas as regiões pesquisadas, o aumento acumulado foi maior que 10%. Só para lembrar, o reajuste do salário mínimo este ano não chegou a 9%.
    Comer em casa também ficou bem mais caro no último ano. A alta na alimentação em domicílio chegou a 15% em março no acumulado dos últimos 12 meses, enquanto que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) foi de 6,59%. Ou seja, se por um lado é verdade que a inflação superou a meta do governo (cujo teto é 6,5%) em “apenas” 1%, por outro essa inflação “localizada” está corroendo os salários dos trabalhadores, principalmente de quem ganha menos.
    A queda nas vendas do comércio varejista expressa o aumento nos preços dos produtos de primeira necessidade. Em março, as vendas caíram 0,1% em relação a fevereiro, quando já havia caído 0,2%. Alimentos venderam  2,1% menos, enquanto que produtos médicos e farmacêuticos registraram redução de 5,2%.
     
    Governo só beneficia empresários
    No dia 8 de março, o governo Dilma anunciou na TV a desoneração dos produtos da cesta básica a fim de enfrentar o aumento nos preços. No entanto, os preços não só não baixaram como aumentaram no mês seguinte. Na grande maioria dos lugares, a cesta básica aumentou, como em São Paulo, que subiu 3% ou em Vitória, que ficou 6% mais cara.
    Isso mostra que a política de isenção fiscal amplamente praticada pelo governo do PT em vários setores, como na indústria, longe de se reverter em benefício à população, serve apenas para proteger os lucros dos empresários. A população e os trabalhadores pagam duas vezes por essa política: através do Estado que deixa de arrecadar com a isenção e no preço final.
    A dinâmica inflacionária, por sua vez, surte efeito na economia como um todo, com reflexos que vão para além do varejo. A alta nos preços vem aprofundando o endividamento das famílias (em São Paulo, por exemplo, 57% das famílias estão endividadas), além de impulsionar a inadimplência. A fim de manter o padrão de consumo diante do aumento nos preços, as pessoas se endividam cada vez mais. Em abril, 19,5% das famílias tinham mais da metade da renda comprometida com dívidas.
     
    Aumento nos juros vai resolver?
    Além de aliviar impostos aos empresários, o governo vem apostando no aumento dos juros para combater a inflação. Em março, o Banco Central elevou em 0,25% a taxa Selic (os juros básicos da economia), passando para 7,5% e apontando que iríamos a uma nova escalada de aumentos sucessivos.
    No breve momento em que o país crescia de forma acelerada, entre 2010 e 2011, o governo subiu os juros para conter a demanda e, segundo ele, segurar a subida nos preços. A metáfora mais utilizada na época pelos defensores dessa política era a necessidade de  “pisar no freio”. Mas, desta vez, estamos vivendo os reflexos da crise internacional e a economia já está desacelerando, quase parando.
    O aumento nos juros, desta forma, só beneficia os banqueiros e os rentistas da dívida pública às custas do Orçamento. A medida vai ainda aprofundar a estagnação da economia num momento em que os investimentos patinam. Vai também aumentar o endividamento das famílias, que terão que arcar com prestações maiores.  
    O que o governo não diz é que a inflação dos alimentos é expressão do caráter dependente da economia brasileira. Grande parte do aumento nos preços se deve ao aumento na cotação das commodities (produtos primários para exportação) no mercado internacional. Cotados em dólar, esses produtos aumentaram devido à especulação financeira (algo que aconteceu também em 2008). Então, mesmo que não sejam exportados, os produtos daqui também inflacionam. E quem paga é o trabalhador.
     
    Congelamento e gatilho
    Para conter a inflação, o governo aposta em uma política recessiva, que só beneficia o capital financeiro e que, ao final, será ainda ineficiente. Para enfrentar de fato o aumento dos preços, o governo Dilma deve decretar o congelamento dos produtos e estabelecer reajuste automático dos salários, de acordo com a inflação. Os trabalhadores, por sua vez, devem unificar suas campanhas salariais a fim de fortalecer a luta contra a carestia.

    Em São Paulo, Haddad aumenta tarifa de ônibus

    Além de sofrer com o aumento desenfreado dos produtos mais básicos do dia-a-dia, os trabalhadores de todo o país estão se deparando com mais um duro ataque: os reajustes nas tarifas do transporte público. Em São Paulo, a prefeitura de Fernando Haddad (PT), eleito em meio a uma grande expectativa de mudança, anunciou o aumento da tarifa de ônibus para o dia 1º de junho.
    Pressionado pelas concessionárias, o prefeito petista divulgou o novo aumento ao mesmo tempo em que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) informava o aumento nas tarifas do metrô e trem. A nova tarifa ainda não foi divulgada, mas deve ir de R$ 3 para algo em torno de R$ 3,50. Enquanto isso, o bilhete único da prefeitura, carro chefe da campanha eleitoral de Haddad, permanece no rol das promessas.
    Já em Natal, o prefeito Carlos Eduardo (PDT) aumentou a tarifa do ônibus de R$ 2,20 para R$ 2,40, mesmo com a precária situação do setor. No dia 15 de maio, a Polícia Militar reprimiu duramente uma manifestação estudantil contra o aumento. A vereadora do PSTU, Amanda Gurgel, está apoiando o movimento e aprovou na Câmara um requerimento exigindo do prefeito a suspensão do reajuste.
     

    Post author Diego Cruz, da redação
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