Imperialismo: a crise chegou

A consciência anti-imperialista avançou enormemente em 2005. Sem dúvida nenhuma, Bush e o imperialismo conquistaram um ódio ainda mais profundo dos trabalhadores, que vêem neles os responsáveis pelo saques das riquezas, pela pobreza e a miséria.

A ofensiva imperialista combina aspectos econômicos, políticos e militares. Mas a luta dos povos contra essa ofensiva gera uma enorme polarização e mostra os limites dessa política. A crescente resistência armada iraquiana – de forma combinada à luta anti-guerra nos países imperialistas – é o ponto mais avançado dessa luta que mostra que o imperialismo não pode fazer tudo o que quer, e que pode ser derrotado.
Aqui na América Latina, ela tomou forma de revoluções que derrubam governos servis à Washington, e na luta pela nacionalização do gás e petróleo. Na Europa, explodiu nas periferias de Paris e nas greves operárias que desestabilizam governos comprometidos com as reformas neoliberais.

Há, evidentemente, muitas desigualdades de continente para continente. A situação de toda a Europa, por exemplo, é ainda bem mais estável que a América Latina. Entretanto, os acontecimentos mundiais de 2005 fazem parte de uma mudança política mundial. Diferente do que existia nos anos 90, em que imperava a ofensiva imperialista e sucessivas derrotas dos trabalhadores, atualmente existe uma polarização política e social além de uma crise maior do imperialismo.
É um grande engano, contudo, acreditar que por isso o imperialismo está derrotado.

Bush e os governo europeus continuarão sua ofensiva contra os povos. Mas é preciso aproveitar esse momento de crise e redobrar a luta contra os planos de recolonização.

Iraque: o pântano de Bush

O ano de 2005 não está terminando nada bem para Bush. Além de continuar sendo alvo do repúdio de milhões em todo o mundo, o presidente norte-americano enfrenta uma enorme crise com o atoleiro que se tornou a invasão militar ao Iraque.

A resistência é o epicentro da crise
O Oriente Médio é o maior ponto de crise do imperialismo. As intenções de reformular o mapa geopolítico da região, expostas no plano de expansão militarista “Projeto para um Novo Século Americano”, estão bem distantes de acontecer.

A resistência à ocupação colonial cresceu e tomou forma numa luta de libertação nacional, colocando as tropas imperialistas num verdadeiro atoleiro. Essa guerra de libertação questiona diariamente o poder dos invasores e limita ao extremo seu controle real sobre o país.

Violação dos direitos humanos
Tentando aplacar a resistência do povo iraquiano, os ocupantes cometem os crimes mais bárbaros, como a manutenção de prisões secretas, uso se de armas incendiárias contra a população e novas torturas.

Recentemente a imprensa mundial revelou a utilização de armas incendiárias contra civis na ofensiva a Fallujah, em novembro de 2004. Outra demonstração da barbárie imperialista é a revelação de que a CIA (Companhia de Inteligência Americana) mantém prisões secretas em, pelo menos, oitos países. A informação não foi negada pela agência. Torturas contra prisioneiros iraquianos são um método absolutamente generalizado pelos invasores. O jornal The New York Times revelou no mês passado que mais de 170 presos, entre homens e adolescentes com marcas claras de espancamento, foram torturados em um calabouço no centro de Bagdá.

Para os ocupantes todo habitante do país (homem, mulher, velho ou criança) é um inimigo em potencial. Por isso segue com as torturas, prisões arbitrárias e lança armas incendiárias para massacrar civis. Essa é o conteúdo da democracia que Bush quer levar para o mundo.

Eleições não resolveram nada
Nem mesmo a farsa das eleições de janeiro, com o respaldo da ONU, do imperialismo alemão e francês, pôde mudar essa situação. Na época, mais da metade dos iraquianos boicotaram as eleições. E os que votaram não o fizeram em apoio à ocupação, mas por acreditar que as eleições era um meio de recuperar a independência do Iraque. A eleição fraudulenta, sob a batuta do invasor, elegeu um novo governo capacho às tropas invasoras que não consegue aplacar a resistência e mantém o impasse da ocupação colonial.

Os EUA apostaram tudo nas eleições para fazer a transição a um governo iraquiano “confiável” e garantir o controle do petróleo e da região. Mas fracassaram na tentativa de “democratizar” a ocupação. A idéia era preparar as forças armadas locais, com um governo fantoche menos desgastado, sem manter as tropas imperialistas.

Frustrando as expectativas de Bush, o novo governo fantoche, apesar de ser formado por partido xiitas colaboracionistas, como o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica (CSRI) ou o Dawa, não conseguiu assegurar uma estabilidade mínima que permita um plano de retirada gradual das forças de ocupação e sua substituição por tropas iraquianas. Por outro lado, a situação do governo norte-americano não pára de se complicar. Para garantir uma estabilidade e criar condições de derrotar a resistência Bush teria que aumentar o número de soldados no Iraque – hoje em 150 mil – para cerca de 400 mil soldados. Mas teria que voltar ao recrutamento militar obrigatório, abolido depois da guerra do Vietnã. Tarefa praticamente impossível para um governo que enfrenta uma grave crise interna, em função da ocupação.

Crise interna
A luta contra a guerra nos EUA ganhou um novo impulso em 2005. Essa resistência é tão importante como a que se desenvolve dentro do Iraque. Até o momento, mais de dois mil soldados norte-americanos foram mortos na ocupação. Os recrutamentos militares do exército não conseguem mais atingir suas metas. O repúdio à guerra cresce e toma forma nos protestos de Cindy Sheehan (mãe de um soldado morto no Iraque que exige a volta dos soldados para casa), nos movimentos contra os recrutadores nas universidades e no aumento de soldados desertores e objetores de consciência (soldados que se negam a lutar por considerar que a guerra vai contra seus princípios). Pesquisas apontam que maioria da população está contra a guerra.

A imprensa norte-americana e a opinião pública falam abertamente em “atoleiro” e “novo Vietn㔠cobrando um plano de retirada dos soldados. Mesmo a oposição burguesa capitaneada pelos democratas, que sempre apoiou a invasão, cobra um plano gradual de retirada. Nas cordas, Bush vê sua popularidade em queda – hoje conta com o apoio de menos de 40% da população.

Como produto do atoleiro iraquiano, Bush enfrenta outra crise relacionada ao vazamento de informações de seus assessores. Lewis Libby, principal assessor do vice-presidente, Dick Cheney, foi indiciado por falso-testemunho e obstrução da Justiça, por sua relação com o vazamento da identidade da agente secreta da CIA, Valerie Plame, como vingança por seu marido – um importante diplomata dos EUA – ter desmentindo as supostas armas de destruição de massa de Saddam Hussein.

Karl Rove, assessor político e braço direito de Bush, também se encontra envolvido no mesmo processo. Ambos poderão ser condenados por crimes antipatrióticos, o que é considerado muito grave nos EUA. Como Lula aqui no Brasil, Bush e Cheney juram de que “não sabiam de nada”.

Além disso, os trágicos acontecimentos de Nova Orleans atingiram Bush em cheio. Muitos questionavam porque ele negava dinheiro para reformar os diques da cidade arrasada pelo furacão Katrina, enquanto o custo diário da ocupação do Iraque já supera o da Guerra do Vietnã.

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