II Encontro dos Movimentos Sociais Mineiros é marcado pela unidade contra os governos Lula/PT e Aécio/PSDB

O primeiro dia do II Encontro dos Movimentos Sociais Mineiros contou com a participação de 750 representantes das diversas organizações que convocam o evento, com destaque para a Via Campesina (MST, MAB, MPA, CPT e outros), Conlutas, Marcha Mundial de Mulheres e Articulações em defesa do Rio São Francisco.

Todos os debates do dia realizaram-se na grande tenda montada nas imediações da Praça da Estação, ao lado da Faculdade de Engenharia, no Centro de BH.

Nesse primeiro dia compareceram delegações da Grande BH, Norte e Jequitinhonha, sul, Centro Oeste, Zona da Mata, Vale do Rio Doce e Triângulo Mineiro.

A presença da juventude e de suas diversas correntes organizadas foi outro destaque. Ausentes, a CUT e a UNE foram objeto de críticas contundentes pelos participantes.

Debate franco e aberto
A primeira mesa de debate, pela manhã, teve as presenças de João Pedro Stédile, do MST e de Valério Arcary, do PSTU.

A marca da discussão foi um debate franco e aberto, bastante influenciado pelas intervenções da plenária. Os dois palestrantes discorreram sobre a conjuntura nacional e internacional e, já aí, diferenças importantes na análise da realidade levaram a diferenciações na política de enfrentamento com o governo Lula.

Stédile descreveu a realidade mundial marcada pelo descenso e derrota da classe trabalhadora desde 1989, tendo a eleição de Collor como referência, e uma realidade marcada pela hegemonia do capital e da classe dominante e pela crise ideológica das esquerdas.

Valério, por sua vez, discorreu sobre os diversos momentos vividos pelas classes trabalhadoras em todo o mundo e no Brasil após a queda do Muro de Berlim, mas enfatizou as dificuldades vividas pelo imperialismo na guerra do Iraque, as mobilizações de trabalhadores e jovens em países europeus, as insurreições e derrubadas de governos na América Latina e a posterior eleição de diversos governos de frente popular na América do Sul como o prenúncio de um novo momento na luta de classes. O Brasil, ainda que mais atrasado frente a essa realidade, é parte dela e influenciado por ela.

Governo Lula
Stédile definiu o governo Lula como não sendo um governo do PT e, nesse segundo mandato, mais à direita ainda do que no primeiro. Para o líder do MST o primeiro mandato foi marcado pela disputa de dois grupos internos ao governo, protagonizados por Palloci, de um lado, aliado à ortodoxia monetarista que marca a economia e por José Dirceu, de outro, que apresentava diferenças com o chamado “núcleo duro” do governo. Esses setores não existiriam mais e hoje a hegemonia no governo é disputada ou, no mínimo, compartilhada com setores burgueses expressivos. O governo estaria, portanto, sem um núcleo dirigente. Dessa análise, João Pedro concluiu que existirão mais enfrentamentos.

Valério destacou que a adesão de Lula, desde o primeiro mandato, a um programa de conteúdo liberal, levou e levará o governo e o PT a enfrentamentos cada vez maiores com os movimentos sociais, o que abre caminho para um processo histórico de reorganização da classe trabalhadora no Brasil.

A construção da unidade para lutar
Outros temas de destaque no debate foram a reorganização dos movimentos sociais no Brasil, o caráter da unidade que está sendo construída e o papel do Encontro do dia 25 de março.

Stédile pontuou que há que se reconhecer a existência de uma mudança entre as principais articulações dos movimentos sociais no Brasil e a existência de quatro grandes blocos que disputam a hegemonia no movimento: a Conlutas, com forte presença do PSTU e também do PSOL, que constrói uma central ao estilo da COB boliviana; a Intersindical, hegemonizada por cutistas insatisfeitos e com presença também do PSOL; a CMS, composta por CUT, UNE e o próprio MST, que não conseguiu se transformar numa frente de massas e faz um esforço para retomar sua autonomia frente ao governo Lula, com destaque para a luta do setor de João Felício e Quintino no interior da CUT; e, por fim, a Assembléia Nacional Popular, com destaque para as Pastorais da Igreja Católica.

Os dois primeiros setores (Conlutas e Intersindical) fariam oposição ao governo Lula. Já a CMS apóia criticamente o governo, mas vive um processo de distanciamento e a ANP não pauta o tema do governo, “quer esquecer”que ele existe.

Em que pesem as diferentes localizações frente ao governo, João Pedro defendeu a unidade dessas quatro grandes articulações e a unidade para lutar por uma plataforma comum, respeitando-se a “liberdade tática” de cada uma delas frente ao governo Lula.

Valério ampliou a análise, localizando a reorganização no Brasil como parte da experiência latino-americana. Ressaltou a crise vivida no interior da CSC – Corrente Sindical Classista – e fez um chamado a construir o dia 23 de maio como um forte dia de paralisações e manifestações para medir força com o governo, o que levantou o plenário e fechou o primeiro debate com chave de ouro.

Reestatização da Vale do Rio Doce e transposição do São Francisco
O segundo painel teve como temas o modelo energético brasileiro e a campanha pela reestatização da Vale. Jocely, do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens; Dirlene Marques, professora da FACE/UFMG e Valério Vieira, presidente do Sindicato Metabase de Congonhas e militante do PSTU, foram os debatedores.

Dom Tomaz Balduíno fechou o ciclo de debates do dia, fazendo uma emocionante exortação à luta em defesa do São Francisco. O Bispo fez uma contundente denúncia do governo Lula e de suas ligações com o agronegócio e com as empresas transnacionais, que dominam a economia brasileira.

PSTU promove lançamento da Revista Marxismo Vivo e do novo livro de Arcary
Mesmo com essa intensa programação, a noite do primeiro dia do Encontro teve ainda uma atividade promovida pela militância do PSTU, o lançamento da Revista Marxismo Vivo Especial dedicada aos 20 anos da morte do dirigente trotskista Nahuel Moreno e do novo livro de Valério Arcary, “O Encontro da Revolução com a História”.

Aproximadamente 90 pessoas compareceram, com destaque para os estudantes da UFMG, que enfrentam a Reitoria da Universidade nas mobilizações pela redução do valor das refeições nos restaurantes universitários.