Honduras numa encruzilhada

Manuel Zelaya e golpistas falam em negociação, enquanto zelayistas freiam novos protestosNos últimos dias, a situação política em Honduras tomou um rumo favorável a uma saída negociada. Manuel Zelaya, que está refugiado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, cercada por militares, disse no último fim de semana que aceita modificações no Acordo de San José, conhecido também como Plano Arias. O acordo previa o retorno de Zelaya ao poder, mas com poderes limitados. Além de garantir que os golpistas não sejam punidos, a medida manteria a estrutura de poder econômico e político de Honduras, ou seja, nenhuma das instituições que apoiaram o golpe (Congresso, Corte Suprema, Forças Armadas, Igreja etc.) seria afetada. Dessa forma, a reivindicação da Assembleia Constituinte – bandeira assumida por todos os que lutam contra o golpe – é simplesmente abandonada.

Os próximos dias serão decisivos para o futuro da luta. No dia 7, desembarca no país uma nova delegação da OEA (Organização dos Estados Americanos) para criar as condições para o acordo, desde que o estado de sítio seja revogado, o que ocorreu na segunda-feira, dia 5.

Apoiadores do governo golpista também falam em retomar o Plano Arias para pôr fim ao conflito. O Partido Nacional, que há três meses foi defensor da destituição de Zelaya, agora fala em “diálogo”, assim como os meios de comunicação e a Igreja Católica. Já os empresários se adiantaram em propor algumas reformas ao Acordo de San José. O setor propõe a restituição de Zelaya, mas prevê que ele seja submetido aos tribunais para responder por supostos crimes que teria cometido.

Essa situação provoca uma crise entre os lutadores contra o golpe. Há um descontentamento com o processo de negociação. Ao mesmo tempo, as mobilizações populares vivem seus piores momentos, reunindo apenas um setor de vanguarda ou dispersas pela capital.

No caso de Tegucigalpa, as marchas de milhares converteram-se em poucas dezenas de pessoas. Dessa forma, o setor zelayista da direção da Frente Nacional de Resistência Contra o Golpe vem freando os protestos nos bairros e impedindo a realização de uma greve geral ou uma grande paralisação nacional.

Por fim, em meio a muita crise interna, a frente publicou um comunicado no último dia 5 sobre as negociações. O documento foi resultado de um intenso debate de três dias e expressa uma tentativa de resistência ao processo de negociação.
Ao final, foram aprovados por consenso a retirada da ditadura do poder e o fim do estado de sítio; a reintegração imediata de Zelaya, de forma incondicional, e a libertação dos presos políticos. Por fim, a frente se mantém comprometida com a luta pela Constituinte.

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