Haiti: “os soldados estrangeiros são a tropa de choque de uma ditadura decadente”

O editor do Opinião Socialista e dirigente do PSTU, Eduardo Almeida, esteve no Haiti de 21 a 28 de agosto. Viu com os próprios olhos a situação precária em que sobrevive grande parte da população do país. Pôde testemunhar também o verdadeiro papel cumprido pelas tropas estrangeiras no país, tanto a Minustah comandada pelo Brasil, como as tropas norte-americanas, que reprimem qualquer protesto popular.

Mas Eduardo também viu o outro lado dessa história. Conversou com importantes lideranças sindicais e populares e viu também a organização, luta e resistência de um povo que protagonizou a primeira revolução no continente. Um desses dirigentes foi categórico: “amamos a seleção do Brasil, mas passaremos por cima desse sentimento para enfrentar as tropas, já que preferimos a morte a viver de joelhos”. Acompanhe abaixo a entrevista concedida por Eduardo Almeida ao Portal do PSTU, realizada logo após sua chegada ao Brasil.

Portal do PSTU- Com qual situação você se deparou no Haiti?
Eduardo Almeida – Uma situação extremamente calamitosa, exatamente oposta do que pensa a maioria da população brasileira sobre o Haiti. Porque, para o povo aqui, a operação de ajuda foi um sucesso e as tropas da Minustah estão no Haiti para ajudar o povo. Eu vi a população no Haiti na mesma situação em que estavam logo após o terremoto que devastou o país em janeiro. Cerca de 2 milhões de pessoas foram atingidas, mas só 2% da ajuda internacional chegou até agora, e nem isso foi revertido em benefício do povo. Morreram 250 mil pessoas. Mora em acampamentos algo como 1,6 milhão de haitianos, outra parte voltou para suas cidades de origem, no interior. Todas as praças de Proto Príncipe estão ocupadas pelos desabrigados. Sete meses depois do terremoto, os acampamentos que eram provisórios acabaram viraram favelas permanentes. Em outubro, se algum dos furacões previstos para o período atingir o Haiti, teremos uma nova tragédia.

As tropas norte-americanas continuam no Haiti?
Continuam e os EUA controlam na prática o país, tanto econômica quanto militarmente. Dos 15 mil soldados norte-americanos enviados ao país, permaneceram no Haiti 7 mil. Deixaram o controle do país oficialmente nas mãos da Minustah, mas quem detêm o poder de fato é Clinton, representante da ONU no Haiti. O plano Clinton prevê a construção de 40 zonas francas no país. As fábricas foram as primeiras coisas que recuperaram após o terremoto, começaram a funcionar duas semanas após o terremoto. O resto continuou destruído. Já o plano de recuperação de Porto Príncipe prevê a expulsão de 2 milhões de haitianos.

Existem processos de lutas ocorrendo no Haiti?
Existem mobilizações parciais, que sofrem repressão muito forte das tropas brasileiras. Recentemente, três acampamentos foram incendiados no meio de uma repressão. Existe uma bronca muito grande contra as tropas, a capital inteira tem pichações com “abaixo Préval” e “Abaixo Minustah”. A população não pode questionar nenhum soldado; semana passada, assassinaram um adolescente com um tiro em Le Cap, acusado de roubar 200 dólares dos soldados. Houve uma mobilização na Faculdade de Etnologia em que um estudante questionou o resultado de uma prova. O reitor o agrediu fisicamente e chamou os soldados da Minustah, que o expulsaram da universidade. Tem também os trabalhadores das estatais que foram demitidos por Préval. O dirigente deles me disse que os haitianos são mais fanáticos pela seleção brasileira do que os próprios brasileiros, mas que eles vão passar por cima desse sentimento para enfrentar as tropas da Minustah, pois preferem morrer a ficar de joelhos. Disse também que se Lula não retirar as tropas, o Brasil vai ser considerado um país inimigo.

O que Préval fez com as estatais?
Ele privatizou todas as estatais e demitiu 10 mil trabalhadores. Chegou a assinar um decreto prometendo o pagamento de 36 meses de salário aos demitidos, mas não cumpriu. É como se aqui o governo privatizasse o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, e mandasse todos os seus empregados para a rua. E toda vez que esses funcionários protestaram, foram reprimidos violentamente pela Minustah, com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. A população percebe o verdadeiro papel das tropas, já que elas não cumpriram nenhum papel de reconstrução após o terremoto, assim como não haviam feito nada em benefícios do povo antes dele. A situação social do país não melhorou em nada desde a ocupação militar, em 2004. O único papel que os soldados cumprem é o de reprimir o povo haitiano. Atuam como tropa de choque de uma ditadura decadente, e por isso é cada vez mais odiada.

Qual foi a importância da campanha de solidariedade realizada pela Conlutas no primeiro semestre?
Teve um papel muito importante por ser um ponto de apoio para uma parcela de trabalhadores, ajudou a erguer os acampamentos de desabrigados dirigidos pela Batalha Operária (organização sindical e popular no país), e ajudou também a manter os lutadores que se opõem à ocupação militar.

Quais as próximas mobilizações previstas no país?
Todo o dia 12, que foi o dia do mês que ocorreu o terremoto em janeiro, o Batalha Operária realiza manifestações contra a situação que se encontra a população no país. E vai começar agora uma ampla campanha contra as eleições em novembro, organizadas por um governo fantoche e realizadas sob uma ocupação militar estrangeira, ou seja, absolutamente ilegítimas.