Haiti: fraude eleitoral e crise política

O Haiti vive hoje uma crise política. As eleições presidenciais de 28 de novembro foram fraudadas pelo governo de Reneé Préval para impor um segundo turno no qual concorresse seu candidato Jude Celestin.

A abstenção foi gigantesca, mais de 75% indicando a distãncia entre o povo haitiano e a farsa eleitoral. O resultado inicial apontou Mirlande Manigat em primeiro e Celestin em segundo, apenas 7 mil votos à frente do cantor de hip-hop Michel Martelli. Imediatamente a capital Porto Príncipe foi tomada por barricadas e mobilizações promovidas pelos apoiadores de Martelli, excluído do segundo turno.
A fraude foi tão evidente que se instalou uma grande crise política no país. O segundo turno deveria ser realizado no dia 16 de janeiro, mas foi adiado para tentar resolver o problema. Agora, no dia em que essa nota está sendo escrita, se anunciou a renúncia do candidato do governo, Jude Celestin ás eleições. É uma admissão que a tentativa de fraude não deu certo.

O processo eleitoral é uma farsa para legitimar a ocupação e só dele participa quem for admitido pela Minustah e pelo governo atual. Nenhum dos 19 candidatos que participou do primeiro turno questiona a ocupação. Qualquer um deles que for eleito, aceita não ter poder de governo. Concorda em ser uma marionete das forças de ocupação.

O atual governo Préval foi produto de uma crise semelhante. Nas eleições passadas, Préval era o candidato de Jean Baptiste Aristide, o presidente deposto pelas tropas dos EUA e França. Préval ganhou as eleições, mas as tropas que ocupam o país queriam impor um segundo turno para fazer ganhar de todas as maneiras seu candidato. Um levante popular impôs o recuo das tropas e a posse de Préval. Ele, logo depois, faria um acordo com as tropas e os EUA, traindo suas promessas e se tornando mais um governo fantasma. Hoje, Préval está completamente desgastado, tendo apoio de menos de 10% da população. Quis impor uma fraude para seguir no poder, exatamente como tentaram sem sucesso contra ele no passado. Recuou por temer uma nova mobilização que escapasse ao controle das tropas de ocupação.

Foi tentando capitalizar essa crise política que Babi Doc voltou ao país. Filho do sanguinário ditador Papa Doc, esse personagem sinistro assumiu o governo quando seu pai morreu, em 1971. Seguiu no governo até ser derrubado em 1985 por uma forte mobilização de massas. Desde então vivia no exílio.
Agora, a disputa entre Mirlande Manigat e Michel Martelli pode ganhar algum grau de atenção do povo, depois da derrota da fraude. Mas terminará em outro governo fantoche.

A Minustah nada fez para encarar a reconstrução do país pós-terremoto. Agora esteve envolvida em uma tentativa de fraude eleitoral. Como é mesmo a tarefa “humanitária”?

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