Haiti: depois da ocupação, a fraude

Rebelion.org
Jose Mercader

Milhares de pessoas tomaram as ruas do Haiti nesta última segunda-feira, dia 13, em manifestações de repúdio a cada vez mais evidente fraude eleitoral em curso no país. As eleições, realizadas na terça, dia 7, foram convocadas pelo governo interino instaurado no país após a destituição do governo Aristide, seqüestrado do palácio do governo por tropas norte-americanas e francesas, em fevereiro de 2004.

Desde então, o país permanece ocupado militarmente, sob a cobertura de uma “missão de paz” da ONU. Como se sabe, as tropas “neocoloniais” de ocupação são lideradas vergonhosamente pelo Brasil, que faz o trabalho sujo do imperialismo naquela que foi a primeira república negra das Américas.

A velha receita: balas e eleições
Assim como no Iraque, o projeto do imperialismo no Haiti não se resume às balas e à ocupação militar. A via morta das eleições também foi apresentada como um caminho para colocar no poder um governo fantoche e manter a opressão sobre o povo.
O projeto, contudo, tem esbarrado na “desorganizada”, mas constante, resistência dos haitianos. As eleições realizadas na semana passada ocorreram depois de quatro sucessivos adiamentos e, mesmo assim, foram marcadas por toda sorte de problemas.

Quando fechávamos esta edição, cerca de 90% dos votos apurados apontavam que René Préval – ligado a Aristides – estava com 48,76% dos votos, sendo seguido por Leslie Manigat – ex-presidente (1988), membro da elite local e do Partido Democrata Nacional Progressista (RDNP), defensor entusiasmado da ocupação e, não por acaso, o candidato preferido de Bush – e pelo empresário branco Charles Baker, com 11,83% e 7,93% dos votos, respectivamente.

Préval está a anos-luz de um candidato em que se possa depositar qualquer confiança. Para começar, ele defende a continuidade das tropas em seu país “o tempo que for necessário”. Se isso não bastasse, seu nome está ligado a Aristide de maneira intima, pois foi seu primeiro-ministro, em 1991, e, também, ao caos em que o país se encontra, já que exerceu a presidência, entre 1996 e 2001.

Contudo, hoje Préval, inegavelmente, personifica o desejo (distorcido, é verdade) do povo haitiano de ver seu país novamente governado por um dos seus. Foi graças a isso que ele ganhou enorme popularidade e apoio entre os mais pobres, apesar de, em nenhum momento, apontar para qualquer medida de rompimento com a perversa lógica do sistema que, hoje, faz do Haiti o país mais pobre do mundo, fora do continente africano.

Por outro lado, na ótica do imperialismo, Préval não é visto como um candidato totalmente confiável, tanto pelos governos norte-americano e francês quanto pela minúscula, mas extremamente poderosa, oligarquia local, que preferiam Manigat ou até mesmo Charles Baker.

O maior problema de Préval é que todos vêem nele a possibilidade de retorno de Aristide ou da total perda de controle da já complicada situação no país. Uma possibilidade que fez com que fossem utilizadas todas as manobras típicas das eleições burguesas, inclusive, a fraude, com o objetivo de forçar um segundo turno no qual o imperialismo e as elites locais possam se relocalizar, até mesmo por negociações com o próprio Préval.

Urnas sob armas
Usando como desculpa o verdadeiro caos existente (provocado em grande medida pela presença de tropas invasoras), a Minustah armou um cenário perfeito para que a maracutaia corresse solta.

Para começar, na manhã das eleições, os moradores do mais pobre dos bairros da capital, Cité Soleil, descobriram que não haveria urnas destinadas a eles e que, caso quisessem votar, teriam que percorrer grandes distâncias a pé.

Revoltadas, mas dispostas a fazer valer sua vontade, milhares de pessoas começaram a vagar pelas ruas, a procura das urnas. Uma situação que serviu como “justificativa” para que as tropas da ONU passassem a reprimir a população, resultando na morte de pelo menos quatro pessoas.

Apesar disso, cerca de 70% dos 3,5 milhões de eleitores registrados compareceram às urnas. Mas o caos provocado pelas tropas foi suficiente para que se armasse um outro tipo de “ataque”, típico da democracia burguesa: a fraude.

Mobilizações contra a fraude
Quase uma semana após o fechamento das urnas, uma pessoa foi morta nas enormes manifestações que tomaram as ruas do Haiti exigindo a posse imediata de Préval.
O sentimento nas ruas foi explicitado por Moger Eldon a uma agência internacional de notícias: “O único resultado que esperamos é o de que Préval venceu. Os brancos não vão decidir por nós”.

Até mesmo os membros da comissão eleitoral do Haiti disseram que os resultados eleitorais estão sendo manipulados. “Eu acredito que há um certo nível de manipulação”, disse Pierre Richard Duchemin, membro da comissão, que conclui: “Existe um esforço para que as pessoas parem de questionar o processo de apuração”.

O fato é que uma vez que que a contagem dos votos avançou, a porcentagem dos votos que favoreciam Préval se reduziram, inexplicavelmente, de 61 % a 48%. Se nenhum candidato alcançar a maioria absoluta dos votos, um segundo turno será realizado.
Apesar das várias incertezas que cercam o processo, um fato parece inquestionável: os haitianos não estão dispostos a engolir a fraude, acobertada pelas tropas da ONU, com a clara intervenção imperialista.

Fora tropas do Haiti
Contudo, mesmo que Préval seja aclamado presidente já no primeiro turno, nada vai mudar. Ao afirmar que concorda com a manutenção das tropas, Préval sinaliza com uma possível negociação com Washington, verdadeiro QG da ocupação, visando conquistar maior confiança junto a Bush. Também não há nada em sua plataforma eleitoral que sequer indique o desejo de romper com o neoliberalismo.

Por outro lado, uma questão fica mais clara do que nunca: depois de massacrar a população haitiana em nome da “paz” e da “democracia” (em violentas ações que, nas últimas semanas, ganharam cada vez mais visibilidade), os soldados de Lula, agora, estão atirando para defender a fraude eleitoral.

Neste momento, entretanto, seria um equívoco não defender que a vontade da população haitiana seja respeitada e a fraude seja derrotada.

A garantia da vitória de quem ganhou nas urnas é um pequeno, mas importante, passo em direção à única saída possível para a caótica situação haitiana: a total e imediata retirada das tropas e a reconquista, pelo povo haitiano, de sua autonomia e soberania.

Uma luta que, hoje, só sairá fortalecida se o povo conseguir empossar seu candidato, derrotando, ao mesmo tempo, o imperialismo e seu “fantoche” preferencial, Manigat.

Colocar-se ao lado dessa batalha, contudo, não pode significar, nem por um minuto, que os trabalhadores e a juventude devam alimentar ilusões em relação a Préval e, muito menos, hipotecar apoio a seu governo, caso ele venha a ser empossado. Significa, sim, colocar-se ao lado do povo e contra o imperialismo e seus aliados no Haiti; Lula, inclusive.

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