Haiti: a última jornada de mobilização anti-ocupação em 2010

Leia abaixo os informes do Batay Ouvriye (Batalha Operária) sobre os mais recentes protestos contra o ocupação militar da ONU no paísLogo após o segundo Congresso da Conlutas em 3 e 4 de julho de 2010, e seguindo o encontro de unificação entre organizações sindicais e populares que se deu no mesmo ambiente, teve lugar uma reunião entre as delegações estrangeiras convidadas e os representantes da Conlutas. Foi ali onde o delegado do Batay Ouvriye propôs a realização de mobilizações internacionais contra a ocupação militar de nosso país pelas Forças Armadas da ONU, a Minustah. Iriam ocorrer principalmente no Haiti e, na medida do possível, as delegações presentes iriam apoiá-las, cada um em seu respectivo país. O período proposto iria de 28 de julho (data do desembarque da primeira ocupação yanque do país em 1915), até 15 de outubro (data da renovação do vergonhoso contrato da Minustah).

Uma vez no Haiti, colocamos este acordo frente a diferentes companheiros de luta. Apesar de haver recebido grande acolhida, foram poucas as organizações que se puseram na construção e participação concreta dele. As que estiveram, no entanto, chegaram a certa unidade adicional, conseguindo aproximar-se mais na construção do campo autônomo de resistência, imprescindível para derrotar este inimigo descomunal que são as forças armadas desta missão sanguinária de ocupação.

Em Porto Príncipe, junto com nós da Batay Ouvriye, as organizações constantemente no planejamento e na ação concreta foram: Movimento Democrático Popular (Modep), a Plataforma de Empregados Despedidos das Empresas Públicas (Pevep), a Central Autônoma de Trabalhadores Haitianos (Cath), Antena Operária, o Comitê de Resistência de Duvivier (KRD), Cabeças Juntas de Organizações Populares, Frente de Reflexão e Ação para o Alojamento Popular (Frakka) e Chandel.

Este conjunto de mobilizações era para marcar claramente nosso mais profundo desacordo com a ocupação-tutela que sofre o país pelas forças armadas da missão da ONU, a Minustah, dita de “estabilização para o Haiti”. Sempre deixamos claro que esta missão militar serve para apoiar a exploração descomunal que operam as multinacionais (principalmente do têxtil) e que não é de ajuda, nem ao menos “humanitária”. Que também tudo isso é possível graças à cooperação ativa dos lacaios dos distintos governos de turno e os colaboradores. Igualmente, todos os que caem na armadilha desta democracia-ditadura, democracia-repressão, democracia-crime, democracia-mentira… que esses sanguinários tratam de nos fazer engolir (fazendo-lhes o favor de considerar que… “caem na armadilha”), na realidade, não fazem mais que participar do engano que propiciam as classes dominantes e o Estado reacionário a seu serviço, afundando ainda mais o povo.

Durante todo esse período de resistência, não podemos dizer que recebemos um real apoio. Desde o início, certamente, muita gente nos escreveu, nos chamou, nos falava pelas ruas.. dizendo sempre que “sim, temos que nos levantar todos e protestar veementente!”. Durante as manifestações, as pessoas aplaudiam sempre, todos liam com afã os panfletos distribuídos, outros até levantavam o punho cerrado, muitíssimos pois nos apoiavam… de coração. Mas poucos se jogaram abertamente a protestar contra esta presença, muitos poucos chegaram a este principal espaço público de luta, onde verdadeiramente se expõem a avançar as contradições sociais: a rua.

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Planejamos a última jornada de mobilização anti-ocupação de 1º de outubro ao dia 15. Também, a partir do primeiro “sentaço” em frente à embaixada do Brasil, durante todo o período seguimos reivindicando o aumento obrigatório do salário mínimo, a escola gratuita como conseguimos que exigisse a constituição, a solução correta (popular evidentemente) para a situação da população dos acampamentos, assim como a dos bairros populares ainda em pé, a dos pequenos mercados que os comerciantes burgueses, aproveitando-se da destruição causada pelo terremoto de 12 de Janeiro passado, querem jogar de vez para fora da cidade a desta tão cantada “justiça” que não faz mais que nos condenar sempre, a dos pequenos camponeses que seguem resistindo aos ataques agora sistematizados de parte dos proprietários (respaldados pela polícia especial… a Minustah) para expulsá-los das terras que ocupam por mais de 75/100 anos! É que nesta projetada “reconstrução”, o valor da terra triplicou!, a dos empregados dos serviços públicos demitidos que ainad não receberam sua compensação formalmente prometida…

Em 14 de outubro, foi outra vez em frente ao Ministério de Assuntos Estrangeiros que fomos gritar nosso desacordo à iminente renovação do contrato da Minustah e nosso desdém à vergonhosa atitude do gabinete do chanceler do governo que nem sequer tem uma palavra para dizer. Outra vez, ele apontou o dedo… e outra vez, conhecendo claramente os principais responsáveis deste macabro crime, queimamos as bandeiras brasileiras e americanas. Ao final, nossa delegada leu publicamente, e diante da imprensa nacional e internacional, nossa declaração comum.

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Nesta reta final, além da mobilização anti-ocupação que se deu também de novo em Cap_Haitien), houve outras que se realizaram no mesmo dia 14 em Plaisance e Limonade, dos povos que se localizam também na região Norte do país e onde temos agora uma significativa e combativa implantação.

Ali, foi com as “Cabeças Juntas de Pequenos Camponeses”, a Associação Solidária de Pequenos Camponeses e o Movimento de Organizações de Pequenos Camponeses de Plaisance por uma parte e partir diretamente da Associação de Cultivadores e Criadores de Pistè – Batay Ouvriye de Limonade que, com cartazes, bandeiras e panfletos realizamos as marhcas nas respectivas localidades. Abaixo a Minustah! Abaixo a Ocupação! Abaixo os lacaios locais!… mas também: Abaixo as sementes Monsanto! Abaixo as da FAO! Abaixo Jetrofa! Os companheiros marcharam por todas as áreas circundantes e dentro dos povoados mencionados.

Há que se ressaltar o fundamental de levar a luta anti-ocupação nacionalmente, por todo o território, urbano e rural, articulando as reivindicações de cada espaço até uma resistência, então global. Neste sentido, as mobilizações de Plaisance e Limonade representam um passo importante na construção de uma força única para fazer frente ao poder e seus mecanismos de dominação.

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Em 15 de outubro, como já anunciado, ocorreram também mobilizações e atos diversos em distintos países da região, em particular: Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília), Argentina, México, Cuba e Porto Rico, como nos indicam as reportagens enviadas pelo Jubileu Sul e Conlutas. O conteúdo dessas manifestações apontava tanto o cancelamento definitivo e incondicional da dívida, como a retirada das tropas da Minustah do Haiti.

Neste mesmo dia 15, no Haiti haviam-se planejadas duas mobilizações. A primeira, protestando contra o assassinato em pleno dia pela polícia do companheiro Filbert, professor que reivindicava nada mais que uma escola gratuita e de qualidade para todos; e a segunda, outra vez contra a ocupação, mas desta vez em frente à principal base da Minustah, pelo aeroporto, fechando assim o ciclo 28 de julho e 15 de outubro.

Se a da Educação pública ocorreu sem incidentes, não foi assim para ao “sentaço” em frente à base da Minustah. De fato, antes de começar realmente (quando acabávamos de chegar ao local), foi radicalmente bloqueada. Primeiro pelas forças armadas da Minustah, que chegaram a disparar para ar em diversas ocasiões e, depois, pelas forças especiais da polícia local, com gás lacrimogêneo e bastonadas. Todo mundo correu em diversas direções. Houve enfrentamentos, onde perdemos nossos cartazes, bandeiras e panfletos, até as pequenas vendedoras ali sentadas tiveram que fugir, deixando no chão suas mercadorias. Um cinegrafista da Al Jazira recebeu golpes na cabeça, ferindo-se seriamente.

Assim aprendemos que desses soldados das forças da ONU, não só se conheciam seus roubos, estupros e etc, mas também que não se pode manifestar em frente a suas bases! Ali, pertencem-lhes as ruas e todo o espaço público circundante, ali não há liberdade cidadã alguma. Inúteis foram nossos protestos e gritos que levamos pela tarde nas rádios da capital.

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Dois dias depois, em 17, se comemorava o assassinato em 1806 de Dessalines, general em chefe do Exército revolucionário das guerras de independência. O principal lacaio, Préval, acompanhado de seu governo fantoche e um conjunto de coladores, fez um discurso “em nome desses valentes ancestrais”, supostamente apaixonado, na verdade fato totalmente grandiloqüente e confuso… digno dos melhores filmes surrealistas. Claro, na total ausência dos soldados da Minustah, a polícia “nacional” garantiu fortemente o circo desse marionetes.

A história se encarregará por apontar todos esses eventos
E a luta acaba de começar!

Porto Príncipe, 20 de outubro de 2010