Há 30 anos, o imperialismo sofria sua maior derrota

Em 30 de abril de 1975, terminava a Guerra do Vietnã. Lembrar essa data hoje não significa apenas recordar as lições que deixou para a luta dos trabalhadores de todo o mundo. Significa entender que hoje assistimos a uma guerra muito parecida, a que o povo do Iraque enfrenta em cada rua, em cada casa, em cada campo de seu país para expulsar os invasores americanos, exatamente como fizeram os vietnamitas entre 1964 e 1975. Lembrar o Vietnã hoje é resgatar as lições que eles deixaram e que podem nos ajudar a entender a guerra do Iraque. É lembrar que as grandes mobilizações contra a guerra do Vietnã foram fundamentais para a derrota do imperialismo, assim como as que hoje estão se dando contra a guerra do Iraque, sobretudo nas universidades americanas, onde os estudantes recusam alistar-se para ir matar o povo iraquiano.

Derrubando mitos
Lembrar o Vietnã é também uma forma de derrubar alguns dos mitos que se construíram em torno dela. O primeiro deles é o da invencibilidade do imperialismo. O povo vietnamita, mal-armado, faminto, sem um exército regular, provou que o exército mais poderoso do mundo pode ser derrotado. Essa lição é fundamental para toda a luta dos trabalhadores, mas sobretudo para a resistência iraquiana hoje. Também que, quando um povo está unido em torno de uma causa justa consegue o apoio e a solidariedade dos povos do mundo, e pode vencer o inimigo.

Outro mito é o que existe, inclusive entre a esquerda mundial, de que nos EUA há um partido belicista, o Republicano, e um partido democrático. Nas últimas eleições, muitos chegaram a simpatizar com Kerry contra Bush, porque aquele seria democrático e este militarista. A história mostra que a maioria das guerras que ocorreram até hoje em que os EUA estiveram envolvidos foram iniciadas pelo Partido Democrata. O Vietnã também. Quem começou a guerra foi Kennedy, enviando assessores militares para socorrer o ditador Diem, no Vietnã do Sul, que estava sendo derrotado pelas forças do Viet Minh. Morto Kennedy em 1963, coube a seu sucessor, o “democrata” Lindon Johnson, o envio das tropas e o início dos bombardeios sobre o Vietnã do Norte.

O mito sobre o Vietnã que também é usado hoje contra o Iraque: a mentira da democracia para justificar a guerra e acalmar o povo americano. As incursões militares americanas seriam legítimas porque estariam a serviço da causa democrática para todos os povos. Quando vem na ponta do fuzil, é quando a democracia mostra sua verdadeira face: eleições fraudulentas, governos capachos, repressão contra os trabalhadores e as organizações de esquerda, genocídio e torturas contra a população, mentiras na imprensa.

Apoio russo?
Quanto ao papel da URSS na guerra, também se construiu um mito, o de que ela ajudou a vitória dos vietcongs. Por isso, em 1989, quando a URSS entrou em colapso, muitas correntes de esquerda passaram a dizer que agora não se podia mais fazer a revolução porque não havia um país que a sustentasse. Mas, na guerra do Vietnã, os vietcongs não tiveram praticamente nenhum apoio da burocracia soviética, nem político, nem financeiro, nem em armamentos. Os guerrilheiros tinham pouquíssimas armas, e todas velhas e sucateadas. Não lhes brindou qualquer apoio estratégico e, quando se fez a partilha do Vietnã, depois da II Guerra Mundial, a burocracia soviética apoiou as exigências da França, e o Vietnã do Sul, pró-imperialista, ficou com mais território do que o Norte comunista. A política da burocracia soviética não era a de estender a revolução socialista, mas fazer a coexistência pacífica com o imperialismo.

Americanos vítimas?
Também se alimenta a idéia de que os EUA foram as grandes vítimas e os vietnamitas os algozes. São raros os filmes americanos que não mostram o sofrimento dos soldados americanos, a sua coragem, o seu drama. Os vietnamitas jamais são os protagonistas, e as atrocidades de que foram vítimas sempre são mostradas como uma forma de defesa dos americanos contra esse povo bárbaro, esses assassinos frios. Mas os números não mentem. Na guerra do Vietnã, morreram 58 mil soldados americanos contra 2 milhões de vietnamitas! Sem contar a destruição irreversível do meio ambiente com o uso, pelos EUA, do “agente laranja”, que dizimou as florestas e envenenou os rios, e das bombas de napalm, que deixaram milhões de pessoas feridas e mutiladas.

Cronologia da Guerra

1941 – Colônia francesa, a Indochina é ocupada pelo Japão quando a França é ocupada pelos nazistas.

1945 – Com a derrota do Japão na guerra, os franceses tentam recolonizar a Indochina, mas encontraram pela frente o Viet Minh, comandado por Ho Chi Min. Em 2 de setembro de 1945, os guerrilheiros do Viet Minh ocupam Hanói e Ho Chi Min proclama a independência do Vietnã. Os franceses continuam lutando para reconquistar o país.

1954 – A França é derrotada na batalha de Diem Biem Phu pelas forças do Viet Minh. Mas seguindo a política stalinista de coexistência pacífica, Ho Chi Min aceita a partilha do país e o Vietnã do Sul continua nas mãos da França, com o governo ditatorial de Diem, apoiado também pelos EUA, que queriam frear o avanço da revolução.

1960 – Comunistas e nacionalistas formam a Frente de Liberação Nacional (FLN), mais conhecida como Vietcong, e dão início a uma guerra de guerrilhas contra Diem. O presidente dos EUA, John Kennedy, envia os primeiros conselheiros militares a Saigon.

1963 – Kennedy é assassinado. Lindon Johnson assume e aumenta a escalada militar. O número de soldados americanos enviados passa de 900 em 1960 para 50 mil em 1963, 180 mil em 1965 e 540 mil em 1969.

1964 – Johnson ordena o primeiro bombardeio sobre o Vietnã do Norte.

1965 – Começa a surgir nos EUA um forte movimento contra a guerra.

1968 – No dia 30 de janeiro, os vietcongs lançam uma ofensiva sobre 36 cidades sul-vietnamitas, ocupando inclusive a embaixada americana em Saigon. Foi a ofensiva do Ano Ted, o ano lunar chinês, que marcou o começo do fim para as tropas americanas.

1969 – Richard Nixon assume o governo dos EUA e tenta uma saída honrosa, com a “vietnamização” do conflito, ou seja, passando os combates para os militares sul-vietnamitas.

1970-73 – Forças norte-vietnamitas desfecham uma série de ataques que imobilizam as forças americanas, e o exército sul-vietnamita começa a dissolver-se.

1974 – Em dezembro, os norte-vietnamitas ocupam Phuoc Bing, a 100 km de Saigon.

1975 – Em janeiro, começa o ataque final. O presidende Van Thieu, governo títere do Vietnã do Sul, foge para o exílio e os norte-americanos retiram o restante de seu pessoal de Saigon. No dia 30 de abril, as tropas do norte ocupam Saigon.

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