Guerra civil ou guerra de libertação nacional?

Alguns fatos que ocorreram nos últimos meses podem ter dado a impressão de que o imperialismo se fortaleceu no Iraque. Por um lado, se formou um governo que integra as principais forças políticas xiitas e curdas. Por outro, o imperialismo avançou na sua política de “iraquizar” o conflito, transformando a guerra de libertação numa guerra civil entre xiitas e sunitas.

Tal conclusão, contudo, é profundamente equivocada. O novo governo de Al Malik é de uma profunda debilidade, e já que expressa uma grande divisão entre as diferentes frações burguesas que o compõe. Ao mesmo tempo, a suposta “guerra civil” entre xiitas e sunitas não tem nenhum apoio de massas. Na realidade, grande parte desta suposta “guerra civil” encobre as atividades dos “esquadrões da morte” da Brigada Badr, dirigida pelo partido xiita CSRI, a partir do próprio Ministério do Interior.

O novo governo de Al Malik
O novo governo fantoche demorou cinco meses para se formar, em função do alto grau de divisão entre as frações burguesas que colaboram com os ocupantes e os problemas que imperialismo tem para negociar com correntes ligadas ao Irã.

O dirigente da Dawa, Jaafari, muito comprometido com os esquadrões da morte, saiu do governo e foi substituído por outro membro da coalizão xiita, Al Malik, também do partido Dawa. O governo, num certo sentido, se fortalece com a incorporação em postos importantes (área de seguridade) de setores mais à esquerda, como Al Sadr, dirigente do Exército Mehdi. Também se mantiveram no governo os representantes da oligarquia curda e foram incorporados setores minoritários dos sunitas.

Contudo, esta “unidade” no governo não se expressa na realidade. Distintas frações xiitas, por exemplo, disputam entre si o controle das áreas petroleiras. Na região petroleira de Basora, ao sul do país, são constantes os enfrentamentos armados não só com as tropas inglesas, mas também entre as milícias Badr, o exército Mehdi e Fajita (um setor burguês regional que, até a instauração do novo governo, tinha o domínio da região).

Outro ponto de diferenças é o que fazer com as milícias pró-governo: Jaafari e Al Malik propõe incorporá-las na polícia e no exército, todavia outros ministros propõem dissolvê-las e só admitir a incorporação individual de seus membros.
Finalmente, a grande quantidade de ministros de partidos religiosos xiitas é muito problemática para os EUA e o Reino Unido: seus principais aliados no Iraque estão vinculados diretamente ao Irã, o que fortalece o governo desse país num momento em que o imperialismo o enfrenta na questão nuclear.

Prisão de guerra
A imprensa mundial tenta mostrar uma situação onde os dois setores locais xiitas e sunitas se enfrentam enquanto as potências imperialistas apenas os vigiam. Ajudam dessa maneira a política dos EUA e Inglaterra de alentar uma guerra civil no Iraque. Um exemplo disso foi o incidente da detenção de agentes ingleses que, disfarçados de árabes, foram realizar atentados contra a população xiita em Basora e, seguramente, culpar os “terroristas sunitas”.

A política de “dividir para reinar” mantem latente o perigo de guerra civil. Embora não tenha conquistado até agora um peso de massas e de não conseguir mudar o eixo central da luta: uma guerra de libertação nacional onde, por um lado, estão os ocupantes imperialistas e seus lacaios, e de outro, o povo iraquiano, xiita e sunita, obrigados a unir-se contra o inimigo comum.

Como expressão desta realidade, Al Sadr, depois de aderir ao governo, continua com sua retórica de unidade xiita-sunita contra a ocupação. Quando Bush visitou o país, Sadr promoveu uma marcha de milhares de seus seguidores em Bagdá, exigindo um prazo para a retirada.

As ações dos “esquadrões da morte” das milícias Badr, por um lado, e os atentados contra as mesquitas xiitas, atribuídos ao grupo que encabeçava Al Zarqawi, por outro, ajudam a política de impulsionar uma guerra civil. A ausência de uma direção revolucionária para as massas iraquianas contribui também para que o imperialismo imponha a política de divisão.

Cada vez mais difícil…
As tropas ocupantes estão lançando uma ofensiva militar genocida. Sem dúvida, não conseguem deter as ações da resistência. Durante o ano passado, 34 mil ataques da resistência foram realizados, segundo o próprio Pentágono. O resultado é que, cada dia, morrem 2 ou 3 soldados ianques. A cifra total de baixas reconhecidas pelas autoridades militares dos EUA já supera os 2.500.

O sul do país também passou a ser uma zona de grande instabilidade e enfrentamentos com as tropas inglesas. Nesta região, os confrontos entre as frações xiitas dificultam a tarefa de “manter a ordem” e abrem espaço aos combates de milícias contra as tropas invasoras. Um helicóptero inglês foi derrubado com um míssil, semanas atrás. Como expressão da agudização da luta, o exército britânico já contabiliza mil desertores, segundo a BBC. Diante disso tudo, informações dão conta que empresas petroleiras européias estariam tentando negociar diretamente com os insurgentes.

…cada vez mais caro
Os gastos do governo dos EUA na guerra representam um peso cada vez maior no orçamento nacional. O Congresso dos EUA acaba de votar o envio de US$ 64 bilhões para este ano e se calcula que, até agora, se gastaram US$ 320 bilhões desde a invasão (o que supera os gastos iniciais previstos).

Bush, pressionado pela crise interna para dar uma perspectiva de saída do Iraque, alterna discursos pessimistas e otimistas. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, reconheceu no Senado que seria difícil uma redução significativa das tropas nesse ano.

Já o comandante Peter Pace, animado pela morte de Al Zarqawi, falou uma semana depois, no mesmo Senado, em reduzir de forma importante as tropas este ano e, no final de 2007, deixar só alguns milhares de soldados apoiando as forças “iraquianas”.

Durante sua recente visita ao Iraque. Bush defendeu essa última posição, mas ao voltar aos EUA, fez declarações mais próximas de Rumsfeld. Tais manobras são uma clara mostra das contradições que a situação no Iraque provoca e da extrema dificuldade dos EUA em controlar o país.
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