Greve do peão em Belém paralisa cidade

Mais de 22 mil trabalhadores da construção civil de Belém iniciaram uma greve, no último dia 5. “O nosso salário é injusto, não condiz com o nosso trabalho”. As palavras de Soueiro, profissional da empresa CKOM Dove, traduz toda a indignação dos trabalhadores da construção civil. Todos os dias, acordar de madrugada, suar a camisa, perder anos e anos para enriquecer o patrão não é uma tarefa fácil.

“O ponto chave é ir pra rua e fazer greve! Se não doer no bolso deles, eles não vão dar aumento pra gente. Lá na obra, 90% tá firme do lado da greve, aqui na assembléia tem 50% do canteiro”, afirmou Silva da empresa Ckom antecipando, o sentimento de todos os presentes na assembleia da campanha salarial, realizada no dia 1º de setembro.

A greve reivindica reajuste de 20% nos salários em todas as faixas. Além disso, pela primeira vez, uma das principais pautas é a reserva de 10% das vagas, por empresa, para as mulheres, além da qualificação e classificação.

A greve também conta com a participação ativa dos militantes do PSTU e da CSP- Conlutas, da ANEL, do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Fortaleza, entre outras entidades. Os operários também receberam o apoio de Dion Monteiro, do Comitê Xingu Vivo Para Sempre, que luta contra a hidroelétrica de Belo Monte. “Nunca tirarão dos operários da construção civil a sua dignidade, sua força para lutar”, disse o ativista.

O que eles não dizem
Os meios de comunicação do estado realizam uma campanha ofensiva em defesa dos empresários, dos seus lucros e empreendimentos. O principal argumento da imprensa é: que a greve vai dar prejuízo às empresas e é motivada por interesses políticos partidários. Mas a principal pergunta a se fazer é omitida por esses veículos de comunicação. Por que esses trabalhadores estão em greve? O que os levou a protestar sob o risco de perderem seus empregos? A resposta vem dos próprios trabalhadores.

Quem paga pelo crescimento
Os últimos anos foram marcados por um forte crescimento do ramo da construção civil. Tudo isso está rendendo altos lucros para os empresários à custa da exploração dos trabalhadores. Em Belém, o ritmo de trabalho tem aumentado muito com a política das empresas do “acabou banhou”, uma espécie de trabalho por produção. Na prática, o operário tem que se esforçar muito mais para sair uma hora mais cedo. As horas extras também representam outra dura realidade. Aos sábados, por exemplo, é “sagrado” que os novatos trabalhem nos canteiros.

Acidentes de Trabalho
Os acidentes de trabalho marcam a dura realidade dos operários em Belém. A construção civil é um dos ramos que mais mata operários em serviço. Segundo dados do DIEESE, em 2011, enquanto no país ocorre uma morte para cada 37.941 trabalhadores, na construção, esse índice é de um para cada 17.365 trabalhadores. Só em Belém, até setembro, 9 operários perderam a vida e 60 sofreram acidentes nos canteiros de obras. As causas são velhas conhecidas: falta de equipamento de segurança, falta de fiscalização do governo, de treinamento, ritmo acelerado de trabalho e exposição dos operários a altos riscos.

“Os patrões aumentaram os seus lucros com a super exploração dos peões. Salários de menos e trabalho de mais é uma receita que não tem erro. O que isso gera? Lucro pro patrão, doenças e acidentes de trabalho pro peão”,avalia Ailson Cunha, coordenador Geral do Sindicato da Construção Civil.

Salário injusto
Combinado com isso, os operários possuem salários que não dão inveja a ninguém. Um servente, que pega no batente das 6h30 até às 17 horas, ganha apenas R$ 570 na carteira. Um valor insuficiente para sustentar a família e pagar a 10º cesta básica mais cara do Brasil. “As condições são horríveis, a exploração é grande demais”, relata Azevedo, operário da empresa Leal Moreira.

Essa realidade é ainda pior quando vemos a situação das operárias. A participação das mulheres se restringe a 9% de toda a força de trabalho existente. Mas elas recebem um salário menor para trabalhar na mesma função que os homens: “a nossa função é o rejunte dentro da obra, mas pra empresa a mulher não passa de servente”, afirmou a operária Rezende, da Quanta Engenharia, durante assembléia da campanha salarial.

Super lucros dos patrões
Enquanto isso, os empresários nadam em rio de dinheiro. Para se ter uma idéia o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém (Sticmb) realizou uma pesquisa em um residencial em obras (o Samer Total Life, que pertencente a empresa Zappi Construções). O preço de venda dos apartamentos de 61m², é avaliado em R$ 178,5 mil, a unidade. Já o custo para a construção de cada uma dela é orçado em R$ 50,7 mil. Ou seja, em cada um dos apartamentos os patrões lucram mais de R$ 127 mil. Quando multiplicamos esse valor pela 936 unidades à venda naquele residencial, chegamos à cifra de R$ 119, 6 milhões de rendimento em apenas um empreendimento desta empresa.

“Os trabalhadores estão vendo o crescimento do setor da construção civil e dos lucros dos patrões. Mas as condições de vida dos operários, com a inflação, estão mais difíceis”, explica Cléber Rabelo, operário e dirigente do PSTU. “Nesse momento para os trabalhadores a única forma de melhorar o salário é a luta direta, a mobilização”, conclui.
Post author Walter Santos, de Belém (PA)
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