Grécia: no meio de uma greve geral

Leia abaixo uma reportagem especial realizada diretamente de Atenas durante os preparativos para a última greve geral realizada no país no dia 20. A reportagem foi produzida pelo dirigente Gil Garcia, da Ruptura-FER, seção portuguesa da LITDIA 18
Greve geral já é “normal”
Quando falamos pela primeira vez com um estudante da Universidade de Arquitetura de Atenas (com mil alunos) e lhe perguntamos como foram as quatro últimas greves gerais no país, ele corrigiu: “não sei se foram oito ou dez, mas não foram quatro greves gerais”. Ficamos abismados.

Nem os gregos sabem ao certo quantas foram e quais as datas certas de todas as paralisações, já que foram muitas e todas muito participativas, segundo vários relatos. Disse-me ainda que sabia quando havia sido a primeira (em 17 de dezembro de 2009), e que “algumas” foram de dois dias e não de apenas um.

Aqui parece ser “normal” fazer greves gerais. E também é “normal” tudo que os meus olhos já não viam há décadas. As faculdades inundadas de palavras de ordem pintadas, panfletos, cartazes, mesas de todos os partidos e forças políticas e/ou sindicais pelos corredores. Só conheci este ambiente de “Maio de 68” por algum espaço de tempo (dois ou três anos) no período anterior e posterior ao 25 de abril de 1974, quando da revolução portuguesa.

DIA 19
Ataques do governo
Hoje vou falar um pouco sobre o que fez rebentar a ira dos trabalhadores gregos, bem como sobre outros elementos interessantes que estão presentes na atual situação política grega. O governo do suposto “Partido Socialista” (Pasok) resolveu, para atacar aquilo que chamam de crise, cortar os salários dos trabalhadores, primeiro de todos os funcionários públicos e pensionistas, e já se fala ocorrerá o mesmo para os trabalhadores do setor privado. Os cortes são na ordem de cerca de 30% do salário.

A particularidade da realidade grega é que, devido às (más) negociações das burocracias sindicais com o poder ao longo dos últimos anos, um funcionário público tinha um (relativo) baixo salário, na ordem de uns 800 euros, mas que era compensado com vários benefícios que poderiam dobrar seu salário. Calcula-se que os cortes, em muitos casos, podem atingir cerca de 300 euros.

Desde que cheguei a Atenas, me intrigava como se processaria uma greve geral na Grécia. Na Grécia, todas as greves gerais são com manifestações de rua (e não só em Atenas, em que na recente greve geral de 5 de maio estiveram na rua 350 mil pessoas), igualmente seguidas de massivas manifestações em muitas outras cidades gregas. Um dirigente do OKDE dizia-nos que há uma forte tradição de democracia operária na Confederação Nacional dos Trabalhadores que permite que todas as correntes se manifestem e mobilizem para estas gigantescas manifestações de rua.

Mas há outro fator: a maioria que se desloca à manifestação é espontânea, não é controlada por ninguém, vem descarregar a sua raiva contra as medidas de austeridade do governo. Os sindicatos estão lá com as suas colunas (cada vez mais exíguas), mas o que predomina são os trabalhadores anônimos, que não se veem em nenhuma força política nem em nenhuma estrutura sindical.

Um exemplo: a central sindical que chamou a última greve geral e manifestação é dirigida por um dirigente sindical próximo do partido do governo. Para protegerem o homem (e o seu discurso de ocasião) de uma “chuva” de pedras, frutas ou ovos por parte da maioria, as primeiras filas eram ocupadas por adeptos do dito dirigente. Cartazes eram levantados bem no alto para evitar que este fosse atingido no palco, a tal ponto que sequer se via a cara do orador.

DIA 20
Manifestantes cercam o parlamento grego
Fica claro para quem chega de longe a Atenas neste dia 20 de maio que houve uma verdadeira greve geral. Os transportes estão totalmente parados. Com efeito, na última greve geral, no dia 5 de maio, os transportes funcionaram durante algumas horas para poderem essencialmente transportar manifestantes para o centro da cidade, onde ocorreria a manifestação de massas que sempre acompanha o decretar de cada greve geral na Grécia.

Assim, disseram alguns, o fato de a manifestação de hoje ter contado com muito menos gente nas ruas se deveu, em parte, a este fator: não haver transporte para o centro de Atenas. Evidentemente, não terá sido a razão principal porque se passou de 350 mil manifestantes em 5 de maio para cerca de 85 mil de hoje. Haverá certamente outras explicações.

De qualquer forma parecia ser consensual no ativismo e na mídia que a manifestação era bem menor que a da última greve, mas a amplitude “por baixo”, de paralisação efetiva de serviços, fábricas, portos, universidades, escolas, transportes etc., era bem mais significativa. Suspeita-se que poderá haver algum cansaço ao fim de várias greves.

Em qualquer caso, não se pode julgar que a manifestação de hoje não terá sido muito positiva para toda a esquerda. Algumas medidas mais graves do pacote foram adiadas para o próximo mês de junho. Ao que tudo indica, já está marcada nova greve geral para o meio de junho como reação à nova ofensiva governamental. Se não é uma situação revolucionária que se vive na Grécia, está perto.
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