Grécia: direita vence eleições, mas pode perder nas ruas

Dirigente da Nova Democracia, Antonis Samaras

O partido conservador pró-ajuste, Nova Democracia (ND), sagrou-se vitorioso nas eleições gregas realizadas no último domingo, dia 17. A Nova Democracia foi o mais votado nas eleições legislativas gregas, com 29,7% dos votos, o que lhe conferiu 129 cadeiras no parlamento, em função de um critério totalmente antidemocrático que garante ao primeiro colocado mais 50 vagas no parlamento. Já o Syriza (Coligação de Esquerda Radical) obteve o segundo lugar, com 26,9% (conquistando 71 cadeiras no parlamento); o PASOK (social-democracia) obteve 12,3% (33 cadeiras).

Completando as demais vagas no parlamento, a coligação Gregos Independentes ficou com 7,5% dos votos (20 cadeiras); a Aurora Dourada (fascista) conquistou 6,9% (18 vagas); a Esquerda Democrática obteve 6,2% (17 vagas) e do Partido Comunista (KKE) ficou com 4,5% (12 cadeiras).

O ‘apocalipse europeu’
A campanha eleitoral foi marcada por uma enorme e violenta campanha de demonização do Syriza, dentro e fora da Grécia. Alexis Tsipras, líder, do Syriza, foi taxado com um “perigoso ideólogo” que ameaça arrastar o país para fora do euro e levar o “dracmagedom” não só à Grécia, mas para toda União Europeia (UE).

O dracma é a antiga moeda do país antes da adoção do euro. “Dracmagedom”, portanto, seria um expressão, para a direita europeia, do “apocalipse” que a Grécia enfrentaria (e causaria na UE de conjunto) caso declarasse a moratória de sua dívida ou abandonasse a união cambial europeia. Segundo os defensores dos programas pró-ajustes, a Grécia mergulharia num abismo se optasse por tal caminho. O ‘Financial Times Deutschland’, jornal do mercado financeiro alemão, chegou a publicar um artigo (em grego e alemão), poucos dias antes das eleições, intitulado “Combatam os demagogos” para “evitar o desastre”, no qual atacou duramente o Syriza e recomendou voto ao partido da Nova Democracia.

Esses senhores, porém, esquecem (ou fingem esquecer) que a Grécia já mergulhou no “apocalipse” há muito tempo, desde que os partidos que se revezaram no governo (Nova Democracia e PSOK) aplicaram os planos de ajuste exigidos pela “Troika” (Banco Central Europeu, FMI, Comissão Europeia). O resultado não poderia ser outro: a taxa de desemprego supera os 21% (e de mais de 50%, entre os jovens); direitos sociais foram varridos, empregos públicos eliminados, enquanto se implementava um programa massivo de privatizações. Os aposentados viram as suas pensões cortadas em média 15%. E um dos trágicos resultados de tudo isso foi o aumento de suicídios. Segundo o Ministério da Saúde grego, houve um aumento de 40% desses casos, como foi o caso dramático do aposentado Dimitris Christoulas, de 77 anos, que suicidou-se na Praça Syntagma, próximo à entrada do parlamento grego.

O “apocalipse” grego é produto das políticas desenvolvidas pela troika e aplicadas pelos governos da Nova Democracia e do PSOK, e não, como disse recentemente a presidente do FMI, Christine Lagarde, porque os “gregos são preguiçosos que “não pagam seus impostos”.

E são essas mesmas políticas que estão arrastando conjunto da Europa para o “armagedom”, que pode ser visto no brutal crescimento do desemprego, desmantelamento dos direitos sociais e cortes de salários.

Como se não bastasse à humilhação a qual a Grécia é submetida, a campanha de demonização também evidencia uma enorme ingerência dos representantes do capital financeiro europeu nas eleições do país. Mais uma vez, tentaram impor um governo submisso aos banqueiros.

Cenas de autoritarismo financeiro aberto no continente, porém, não representam nenhuma novidade, nem na Grécia nem na União Europeia. Em 2010, Angela Merkel e a troika impediram que gregos realizassem um plebiscito sobre um novo pacote econômico que previa mais ataques. Como se não bastasse, os gregos tiveram que aturar um governo de “emergência” imposto pela troika – chefiado por Lucas Papademos, ex-vice -presidente do Banco Central Europeu – para liderar uma nova rodada de ajustes. Algo semelhante ocorre hoje na Itália com o governo de Mario Monti (ex-funcionário Comissão Europeia), agente direto do capital financeiro europeu que aplica com todo o rigor o receituário dos banqueiros. Assim, a crise vai derrubando a máscara da “Europa democrática”, que vê seus governos reduzidos à simples agências de cobrança de uma oligarquia de especuladores e parasitas.

Um governo frágil
Apesar da vitória da Nova Democracia, o desfecho que decorre das eleições ainda é incerto. O partido conservador não obteve sozinho uma maioria parlamentar. O mais provável é que se forme um governo de “unidade nacional” com o PASOK para garantir a aplicação do memorando econômico exigido pela troika e, assim, efetivamente levar o país para o “amargedom”.

Para satisfazer a voracidade dos parasitas do mercado financeiro, o novo governo terá que fazer duros cortes orçamentários até o próximo ano, estimados em 11,5 bilhões de euros. No entanto, não há dúvidas de que o atual governo encontra-se numa situação de maior fragilidade. Os principais partidos defensores dos ajustes tiveram juntos pouco mais dos 40% dos votos. Esses partidos, que governavam o país até dois meses atrás, são considerados responsáveis pelo estado catastrófico da economia grega. Ambos aplicaram os planos de austeridades exigidos pela troika. Ambos sustentaram o governo Papademos, agente do capital financeiro europeu no país. Ou seja, nas eleições a grande maioria da população, de uma forma ou de outra, rejeitou os planos de ajustes, apesar da enorme campanha midiática da burguesia. Hoje um gabinete pró-memorando terá que enfrentar novas mobilizações em uma situação de maior fragilidade.

É importante lembrar que os governos chefiados por esses partidos foram alvos dos inúmeros protestos contra a crise. O governo de Costa Karamanlis (ND) caiu diante dos primeiros protestos contra a crise. Já o de Papandreu (PASOK), que sucedeu a direita conservadora, aprofundou os ataques aos trabalhadores e foi alvo das 18 greves gerais realizadas até cair. Por ter radicalizado na implementação dos planos de austeridade, o PASOK acumulou um desgaste maior, amargando um dos piores resultados eleitorais de sua história.

O programa do Syriza
Se posicionando contra novos ataques previstos no memorando, o Syriza capitalizou boa parte da insatisfação popular. A coligação chegou a conquistar parte do eleitorado do Partido Comunista Grego (KKE), que chegou ao extremo sectarismo de atacar mais o Syriza do que a ND ou o PASOK. Dos 8,4% que conquistou nas eleições realizadas em maio, o KKE ficou reduzido à metade (4,5%).

O Syriza, por sua vez, apresentou claras limitações no programa apresentado nas eleições. Ao mesmo tempo em que prometia o fim do ajustes, Alexis Tsipras afirmava que um governo do Syriza não levaria a Grécia a romper com a UE ou a saída da Zona do Euro. Nem mesmo uma clara perspectiva de suspensão do pagamento da dívida – ilegítima criada para salvar os barões do sistema financeiro – foi mencionada.

A questão chave é que não há nenhuma possibilidade de se opor ao memorando, ao mesmo tempo em que defende a permanência do país na zona do euro. A realidade se apresentava de outra forma: ou a Grécia sede ao memorando e fica na zona do euro, ou recusa novos planos de ataque. Na reta final da campanha, Tsipras chegou a falar em “renegociação” do memorando.

Tais vacilações expressam uma grande contradição entre a vontade daqueles que votaram no Syriza, que rejeitam a aplicação de qualquer memorando exigido pela troika, e a política eleitoralista adotada pela direção da coligação. Assim, o Syriza tentou passar uma imagem mais “confiável” , na qual deixou as lutas e ações diretas de lado para tentar se afastar a imagem de “radicalismo ideológico”.

Mudança vai sair das ruas
As verdadeiras mudanças saíram das ruas, da luta dos trabalhadores e da juventude grega. Serão produtos das novas greves massivas, ocupações e lutas sociais daqueles que rejeitam as ameaças dos representantes do sistema financeiro europeu. Por isso, os sindicatos dos trabalhadores e as organizações da juventude têm a responsabilidade de continuar sua luta, chamar novas greves até a derrota total do memorando da troika e do novo governo que vai tentar aplicá-lo.

Pela grande votação que obteve, o Syriza tem uma grande responsabilidade com essa tarefa. Após as eleições, Tsipiras declarou que o Syriza realizará uma “forte oposição contra um governo fraco.” Mas a “forte oposição” não pode ficar apenas no terreno institucional apostando na realização de novas eleições. A coligação deve romper com o eleitoralismo, chamar a resistência e a mobilização contra novos ataques que o novo governo pró-austeridade vai tentar aplicar, e não apenas aguardar o calendário eleitoral para tentar “derrotar a Troika”.

A derrota do governo Nova Democracia/PASOK mostraria para todos que é possível vencer a troika, reverter os ataques e fortalecer a resistência dos trabalhadores da Europa.