Governo prevê crise e planeja acelerar reformas

A mais recente crise financeira, cujos abalos são cada dia mais freqüentes e profundos, trouxe uma série de palavras novas ao vocabulário dos noticiários. Hedge funds, derivativos, e outros termos expressam novos mecanismos do mercado financeiro para os especuladores lucrarem ainda mais. No entanto, a saída do governo Lula para uma crise que se avizinha a cada dia conta com medidas muito bem conhecidas pelos trabalhadores.

Aperto fiscal, reforma da Previdência e trabalhista, entre outros ataques, compõem a receita de Lula para enfrentar uma possível crise. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo do dia 18 de agosto, a equipe econômica do governo planeja um conjunto de medidas denominadas “estoque de medidas conservadoras”. Consiste na aceleração das reformas já programadas para este mandato, a fim de conferir maior confiança aos mercados, ou seja, garantir aos investidores e banqueiros internacionais que, independente da situação econômica do país, os juros da dívida pública continuarão sendo pagos em dia.

NÃO FOI APENAS UM SOLUÇO
A mais recente onda de pânico derrubou as bolsas em todo o mundo e reforçou a suspeita de que a crise financeira iniciada no mercado imobiliário norte-americano não é uma turbulência passageira. No dia 16 de agosto, as bolsas tiveram a maior queda desde o início da crise. A bolsa de Nova York chegou a ter uma queda de 2,76%, puxando a Bovespa, que, no pior momento do dia, despencava 8,82%.
A situação só se tranqüilizou no dia seguinte, com o anúncio de que o banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed), cortaria os juros para empréstimos a bancos, a chamada taxa de redesconto. Uma semana após os principais bancos centrais terem despejado bilhões no mercado financeiro, salvando da bancarrota bancos e fundos de investimento, mais uma vez o imperialismo se mexe para ajudar os banqueiros e especuladores. Apesar da relativa calma, os próximos momentos são de profunda incerteza.

No entanto, se antes economistas e autoridades esforçavam-se em tranqüilizar os mercados, afirmando que a crise financeira era restrita e passageira, desta vez, os discursos estão mudando. As “oscilações” são cada vez mais fortes e freqüentes. Se ainda é cedo para anunciar uma crise econômica e uma nova recessão, é mais fantasioso dizer que tudo não passa de um soluço ou uma “reacomodação” dos investimentos, circunscritos à esfera financeira.
Na verdade, o fato é que a crise do mercado imobiliário norte-americano prenuncia uma crise mais profunda cujo epicentro é o coração do império. Ao contrário das crises que abalaram a economia na década de 90, essa que se desenha agora atinge a economia cujo motor puxa o crescimento econômico mundial, o maior desde o pós-guerra.

Os empréstimos, especialmente os ligados ao mercado imobiliário, permitiram o crescimento do consumo das famílias norte-americanas. Possibilitaram também o aumento das exportações aos EUA. Na prática, o mundo financiou o aumento do consumo dos norte-americanos, mantendo o crescimento dos últimos anos. No ano passado, os EUA responderam por quase 20% do crescimento mundial. A China, plataforma de exportação para o mercado norte-americano, foi responsável por 15%.

O imperialismo sabe muito bem da gravidade da situação e do caráter cíclico da crise. Não foi por menos que o Banco Central Europeu despejou bilhões no mercado financeiro e o Fed agiu com tamanha rapidez para acalmar a crise, implementando uma espécie de “Proer global”.

A recente turbulência destrói, assim, o mito da auto-regulação dos mercados. No entanto, outro mito está sendo derrubado, o da suposta blindagem das economias dos países periféricos submetidos a anos de política econômica neoliberal, especialmente o Brasil.

BRASIL E O MITO DA ECONOMIA FORTE
Apesar de o governo dizer o contrário, o Brasil hoje está mais vulnerável aos solavancos dos mercados financeiros do que antes. Quem afirma isso é o próprio jornal britânico Financial Times, principal publicação financeira do mundo. A dependência dos investimentos estrangeiros e uma economia voltada à demanda das commodities (produtos primários para exportação, como a soja e o café) expõem toda a América do Sul, e o Brasil em especial, à crise financeira.

Em artigo de Richard Lapper que analisa o contágio da crise na América do Sul, especialmente pela dependência do comércio de matérias primas, ele afirma: “O Brasil, novamente, está na linha de frente. A relativa prosperidade nos anos recentes foi baseada na demanda global, liderada pela China, pela commoditie de exportação”.

Se a crise financeira persistir nos marcos que vem se dando, o impacto sobre o Brasil será imenso, mesmo sob a ótica neoliberal dos mercados. “Balança comercial e outros fundamentos se deteriorão. Investimento produtivo será mais difícil de encontrar. Ineficiências se tornarão mais evidentes. A aversão ao risco se tornará mais pronunciada”, analisa Lapper.

O contágio da crise na economia nacional é evidente. De 19 de julho a 16 de agosto, início da nova onda de queda das bolsas, as 316 empresas brasileiras de capital aberto haviam perdido nada menos que US$ 209,7 bilhões. Investidores estrangeiros fogem do país para cobrir perdas em outros mercados.

“O Brasil está claramente mais exposto à economia global e os mercados financeiros globais do que antes”, afirmou Christian Stracke, da agência de classificação de risco Credit Sights, ao Financial Times do último dia 16. Ou seja, após anos de superávit primário (economia para pagar juros da dívida), de aperto fiscal que destrói cada vez mais os serviços públicos e corrói os salários dos servidores para pagar a dívida, de apagão aéreo e salário mínimo de fome, o país está mais dependente.

O Brasil hoje, depois de quase cinco anos de governo Lula, é um país mais exposto e dependente. O crescimento dos últimos anos foi puxado pela economia global. Basta apenas uma crise para que o castelo de areia construído sobre as mentiras do governo vá pelos ares.

MAIS ATAQUES À VISTAM
Além de aumentar a dependência, o governo prepara o país para a crise com mais do mesmo, aprofundando a política econômica neoliberal. É como medicar um doente com estricnina. Desta maneira, a limitação dos gastos com funcionalismo e a reforma da Previdência trariam maior “confiança” aos investidores. Da mesma forma, a crescente criminalização dos movimentos sociais asseguraria o lucro impedindo lutas e mobilizações.

A reforma trabalhista, por sua vez, tornaria o país mais atrativo a novos investimentos. Isso porque, apesar da cada vez mais complexa rede de investimentos e especulação nos mercados financeiros, o trabalho continua sendo a única fonte de riqueza. E qualquer saída da crise planejada pelo imperialismo e o governo passa pelo aumento da exploração da classe trabalhadora.

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