Globo tenta usar racismo como cortina de fumaça para estupro

O diretor do BBB12, Boninho – e por tabela a Globo, já que ele é um dos principais executivos da emissora – tem tentando defender a emissora da cumplicidade com o estupro que ocorreu no programa, afirmando que Daniel está sendo vítima de racismo. ConsiderA nota da Secretaria de Mulheres do PSTU sobre o caso de estupro no BBB12 já deixou bastante clara nossa opinião sobre esta história asquerosa e programa onde o episódio ocorreu. Não há dúvidas de que houve violência sexual; a expulsão de Daniel foi tardia e não somente ele deve ser punido, como também a emissora precisa responder, inclusive judicialmente, por ter permitido que o estupro se concretizasse. (simplesmente porque estava mais de olho nos índices do Ibope do que na segurança da garota).

Contudo, depois da publicação da nota, a internet está sendo novamente tomada pelo tema, não só em função de um suposto “desmentido” de Monique, mas principalmente em função das justificativas e “explicações” que vêm sendo dadas pela emissora, principalmente através de um dos seus principais executivos e responsável direto pelo BBB, José Bonifácio Brasil de Oliveira, mais conhecido como Boninho.

Quanto à postura de Monique, o tema também já foi devidamente abordado na nota. Além de toda dificuldade inerente a se assumir como vítima de um estupro (algo difícil para qualquer mulher), é preciso somar, ainda, a enorme pressão que ela deve ter recebido da produção do programa para, em seu depoimento à polícia, apesar de ter se recusado a fazer o exame de corpo de delito, afirmar que não houve nada demais.

O fato de Monique não ter consciência, por sequer ter visto as imagens ou, pior, ter concordado com esta farsa sinistra é lamentável. Mas isto não faz com que ela deixe de ser a vítima de um crime que, graças a Globo, foi testemunhado por milhões de pessoas.

E muito menos Boninho tem o menor direito de tentar jogar a responsabilidade por tudo isto nas costas da população brasileira, acusando aqueles que clamaram pela expulsão de Daniel de racistas. Este absurdo só pode ser considerado como mais um exemplo da infinita hipocrisia da maior emissora de TV do país. Não há a menor dúvida de que vivemos numa sociedade racista. Contudo, tentar acobertar um estupro e a omissão da emissora, confundindo a legítima indignação da população com isto, é pura covardia.

Racismo como cortina de fumaça
Assim que a expulsão foi anunciada, a suposta influência do racismo na indignação dos internautas e da população em geral foi comentada na “TV Folha”, na coluna de Alberto Pereira Jr. (que, diga-se de passagem, também é negro). Numa reportagem evidentemente simpática à emissora, o jornalista, depois de falar que “não teve violência, foi consensual”, comenta sorridente que o que houve foi “um amasso gostoso” e finaliza a matéria afirmando que, ao telefone “o Boninho também me disse que está havendo racismo contra o Daniel”.

Já em uma entrevista ao “Agora São Paulo”, o próprio Boninho defendeu a tese: “Acho que o Daniel está sendo vítima de racismo pelos internautas. Reclamaram que o primeiro grupo só tinha branco e agora, justamente, com ele, o único negro, falam de estupro. Será que o Daniel não pode ficar com uma mulher bonita?”.

Diante disto, a primeira que o Sr. Boninho deveria saber é que homens negros podem, sim, ficar com uma mulher bonita (ou como um homem lindo, se assim desejarem). E, caso ele não saiba, existem milhões que fazem isto cotidianamente com suas companheiras e companheiros. Mas, não à força. Não enquanto a outra pessoa está inconsciente, desacordada e, no mínimo, sem capacidade de concordar com o que possa ocorrer sob os lençóis. E foi exatamente isto o que Daniel fez.

Como também o fato de Daniel ser o único negro no BBB12 não pode, agora, servir como cortina de fumaça para a situação. Não há dúvidas de que o diretor do BBB sabe muito bem disto. Sua “análise” é pura hipocrisia, com finalidade de acobertar outra coisa: a responsabilidade da emissora.

Uma hipocrisia ainda maior se confrontada com o longo histórico de práticas racistas da emissora para quem o Sr. Boninho trabalha. A começar pelas longas décadas durante as quais a Globo afastou negros e negras de seus principais programas, passando por recorrentes exemplos de racismo, muitos deles denunciados neste site, inseridos nas novelas e demais programas da emissora. Isto pra não falar do permanente boicote da emissora a tudo e qualquer coisa que tenha a ver com o movimento negro.

E se não bastasse o fato de contribuir de forma decisiva para a propagação da ideologia racista, até mesmo as “boas intenções” da emissora são pra lá de duvidosas. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transexuais só ganharam alguma visibilidade na “telinha” (questionável e nem sempre digna) depois de colocarem milhões na Avenida Paulista e outras Paradas país afora. Negros e negras somente começaram a ser (sub)representados na programação da Globo depois de muitas lutas do movimento.

Particularmente em relação a um “lixo cultural” como o “Big Brother Brasil”, o que impera é unicamente uma visão mercadológica e totalmente hipócrita das “cotas”: garantir um negro por perto só para não deixar de lado um setor da audiência e exatamente para não ser apontada como racista (principalmente porque, na história da emissora, sobram razões para isto).

Daniel não é “bróder”
Evidentemente, o discurso de Boninho encontrou eco na sociedade. Inclusive, infelizmente, entre negros e negras, até mesmo dentre os organizados em movimentos. “Dúvidas”, ou mesmo defesas enfáticas, sobre o comportamento de Daniel têm aparecido por todos os lados e muitas delas também apontam o racismo como raiz de todo o problema. Isto, contudo, é um terrível engano.

Um erro que (assim como Boninho espertamente insinuou) pode partir de um sentimento legítimo de identificação com o único negro da casa. Mas, mesmo que o “brother” Daniel seja indiscutivelmente negro, isto não significa dizer que ele é “bróder”. Ou seja, não há o porquê de estabelecermos relações de companheirismo e solidariedade com ele (tema e título, é bom lembrar, do excelente filme de Jeferson De).

Ele pode ter pela negra e, certamente, na vida e no mundo em que vive (o da Moda), certamente deve ter enfrentado todo tipo de preconceito. Mas, ao violar a integridade física e dignidade de uma mulher, da forma que fez, não pode ser considerado como “um dos nossos”. Não é mais alguém que temos que defender contra a opressão. Passou a ser um opressor. E como tal tem que ser punido.

O fato é que, ao invés de “bróder”, Daniel quis ser “brother”. Por escolha, decidiu mergulhar neste asqueroso mundo dos “reality shows”, cuja lógica é explorar e expor o pior de cada um, buscando picos de audiência. Mas, mesmo tendo feito esta escolha equivocada, ele poderia ter tido um comportamento “digno”. E o que todo mundo viu foi algo muito distante disto.

E o fato de ser negro não tem nada a ver com isso. Lamentavelmente, e em grande escala graças à ideologia burguesa incutida, também pela Globo, ser de um setor oprimido está longe de ser sinônimo de “imunidade” em relação à opressão ou reprodução da ideologia discriminatória. Há negros mais do que machistas. Não faltam homofóbicos entre os que são vítimas do racismo. Como também são muitas as mulheres, hoje, que “culpam” Monique pela violência que sofreu.

Daniel, inclusive, demonstrou logo no primeiro programa, que é exemplar desta massificante alienação e acabou servindo de garoto propaganda da Globo contra as reivindicações do movimento negro ao cair em uma “armadilha” montada por Pedro Bial com a clara intenção de fazer propaganda contra as ações afirmativas.

Enquanto todos os demais participantes foram questionados sobre bobagens e amenidades, Bial perguntou a Daniel sobre sua posição sobre as cotas, no que o modelo respondeu: “Não tem que ter cota para nada. Embaixo da pele todo mundo é igual”.

Mas alienação e atraso político, muito menos origem racial, podem servir, de forma alguma, como cortina de fumaça para um estupro. Ou mesmo uma tentativa frustrada. E o fato da Rede Globo estar estimulando este erro é mais uma tentativa de afastar de si própria, e do diretor do programa, a responsabilidade pelo crime ocorrido.

Como o cinismo da emissora não tem limites, o programa está tendo continuidade como se nada tivesse acontecido. E pior, os participantes foram proibidos de comentar o tema, e ao anunciar a saída de Daniel por “comportamento inadequado”, o diretor ainda teve o desplante de questionar os poucos avanços que as mulheres conquistaram na luta pela criminalização da violência sexual.

Questionado pelo portal R7 se houve estupro, Boninho respondeu: “Estupro não houve. O problema é que a lei brasileira é muito ampla. O que se discute é o abuso, porque ela estava fora de condições. Ela estava sóbria, mas dormiu profundamente”. Comentário pra lá de infeliz, que foi emendado pelo advogado da emissora, que praticamente responsabiliza as mudanças na lei pela “confusão”: “A lei até o ano passado fazia distinção entre estupro e abuso. O estupro era quando havia penetração. Afora essa penetração, seria atentado violento ao pudor. Com o advento dessa lei, tudo está unificado”.

“Negros opressores não são meus irmãos”
Apesar do episódio ser todo ele lamentável, utilizar um suposto caso de racismo como forma de defender Daniel é um erro. Não só diante do episódio como também em relação a todo combate contra a opressão. Não reconhecer que gente que pertence aos setores oprimidos também pode oprimir é parte das dificuldades que temos para superar os preconceitos que muitos oprimidos e explorados têm enfiados em suas cabeças. E, também, não ajuda identificar quem realmente temos que combater.

Não é preciso retornar a um passado tão distante quanto a época da escravidão para lembrar o papel que negros, como os capitães-do-mato, cumpriram quando viraram as costas para suas irmãs e irmãos oprimidos e se bandearam para o lado dos exploradores e opressores. Basta lembrar que o fato de serem negros não impediram Collin Powell ou Condelezza Rice de cometerem seus crimes no Oriente Médio nem a negritude pode servir como “perdão” para seu papel como líder do combalido, mas ainda inquestionável, coração do imperialismo.

Guardadas as devidas proporções, Daniel, lamentavelmente, também conquistou um desonroso lugar na galeria de negros a quem o genial Solano Trindade dedicou um de seus mais belos poemas: “Negros”


“Negros que escravizam
e vendem negro na África
não são meus irmãos
negros senhores na América
a serviço do Capital
não são meus irmãos
negros opressores
em qualquer parte do mundo
não são meus irmãos
Só os negros oprimidos
escravizados
em luta pela liberdade
são meus irmãos
Para estes tenho um poema grande como o Nilo”.