Furacões tem algo a ver com aquecimento global?

Em 29 de agosto, o furacão Katrina atingiu os Estados Unidos, causando enorme destruição na cidade de Nova Orleans e arrasando os estados do Mississipi e Louisiana. Além do chocante abandono das vítimas, jogadas à própria sorte pelo governo Bush, um dos episódios mais assustadores foi a violência com que o furacão atingiu o continente.

Quando o Katrina chegou ao estado da Flórida, estava na categoria 1 da escala de Saffir-Simpson, que classifica os furacões segundo a velocidade de seus ventos e seu potencial destrutivo. Menos de 24 horas depois de entrar na águas quentes do Golfo de México, ganhou força e transformou-se em um furacão de categoria 5 (a máxima da escala), com ventos superiores a 250 quilômetros por hora. O resultado foi devastador. Muitos se questionaram se o aquecimento global não poderia ter contribuído para o desastre. A resposta a essa questão não é simples, advertem alguns cientistas. Contudo, pesquisas e estudos reforçam a tese de que o aquecimento do planeta, provocado pela enorme devastação ambiental, está por trás de fenômenos climáticos extremos como o Katrina.

Aquecimento das águas
Furacões são fenômenos que dependem de uma interação entre o oceano e a atmosfera e de outros fatores um pouco mais complexos. Entretanto, a condição básica para que ocorram são as altas temperaturas dos oceanos. É o calor dos oceanos que vai determinar a força e a intensidade do furacão. Nos últimos 35 anos, a temperatura média do mar aumentou 0,5 °C no globo. Não é uma mera coincidência, portanto, que, nas últimas três décadas, o número de furacões nas categorias 4 e 5 (os mais devastadores) praticamente dobrou no planeta. O climatólogo David Easterling, do Centro Nacional de Dados Climáticos da NOAA, afirmou que o Katrina obteve seu poder destrutivo das águas quentes do Golfo do México: “As temperaturas oceânicas mais altas têm mais probabilidades de produzir tormentas mais fortes e intensas”.

A elevação de 0,5° da temperatura dos oceanos duplicou o poder destrutivo dos furacões no Atlântico Norte. Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA, em artigo publicado na revista Nature, relaciona a elevação do potencial destrutivo dos furacões com o aquecimento do planeta. “O aquecimento global evidentemente desemboca em tormentas mais poderosas, ainda que não mais freqüentes”, assegura. Em seu artigo, Emanuel formula uma hipótese, cada vez mais corroborada pelas evidências, que sugere o seguinte:

1) Os furacões tendem a ser cada vez mais destrutivos quanto mais se eleva a temperatura dos oceanos.

2) O aumento descontrolado das concentrações de gases estufa promoverá a maior elevação de temperatura dos oceanos.

Estufa planetária
Invernos quentes, verões atípicos, isso tudo pode até parecer um tanto agradável para algumas pessoas. Mas certamente esses fenômenos têm causado calafrios em cientistas. Vários deles coincidem na opinião de que as mudanças climáticas e o aquecimento da atmosfera estão sendo provocados por gases estufa derivados da queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás. No século passado, o desenvolvimento do capitalismo ocasionou uma desastrosa degradação ambiental. Nos últimos cem anos, houve um aumento de 25% da emissão de gases estufa na atmosfera. O dióxido de carbono (um dos principais gases causadores do efeito estufa) é o maior responsável pelo aquecimento do planeta. Nesse mesmo período, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, a temperatura do planeta subiu entre 0,4 ºC e 0,8 ºC, e as últimas décadas foram as mais quentes do século. Os EUA são responsáveis, sozinhos, pela emissão de 25% dos gases estufa do planeta. Mesmo com a vergonhosa marca, o país se recusa a assinar qualquer tratado ambiental, por mais tímido que seja.

O dióxido de carbono liberado na atmosfera funciona como um cobertor, impedindo que a energia solar atmosférica se dissipe no espaço. Por isso, é chamado de efeito estufa, pois cria o fenômeno de uma “estufa planetária”. Resulta, assim, que essa energia eleva também a temperatura dos mares, “criando condições favoráveis para a formação de furacões cada vez mais fortes”, como afirma o funcionário do Centro Nacional de Investigações Atmosféricas dos EUA, Kevin Trenberth.

Degradação em alta escala
Jamais, em toda a história da humanidade, foi promovida uma destruição tão agressiva da natureza como agora, sob o capitalismo. De acordo com os cientistas do IPCC, a temperatura na Terra vai aumentar entre 2 ºC a 4,5 ºC até 2100. A tendência é que efeitos climáticos extremos – enchentes, secas e os próprios furacões cada vez mais intensos – permaneçam ocorrendo com maior freqüência. O aumento da temperatura também derrete o gelo das calotas polares e das montanhas, aumentando assim o nível dos oceanos. O IPCC prevê que esse acréscimo pode chegar a 90 cm, suficiente para riscar cidades inteiras do mapa. Obviamente que as populações dos países pobres sofrerão mais com a devastação.

Uma luta anticapitalista
Sem nenhuma pretensão de criar previsões catastrofistas, a mudança climática em curso ameaça o conjunto da humanidade. Infelizmente, costuma-se dar pouca atenção aos problemas relacionados à questão ecológica e à defesa do meio ambiente. Isso quando não se rende a projetos reformistas, como o tratado de Kyoto (ver quadro acima), que não merecem sequer ser classificado como medida paliativa.

Querendo ou não, a questão ambiental é a base para a manutenção de toda a humanidade. O mundo marcha para uma catástrofe ambiental se o capitalismo seguir destruindo as bases para a sobrevivência da espécie. Ao mesmo tempo em que produz maravilhas no campo tecnológico, o atual modo de produção depredador coloca-nos às portas de uma crise sem precedentes. Uma luta séria contra as agressões ao meio ambiente deve se desenvolver contra os maiores destruidores do planeta, as nações imperialistas. A luta contra a degradação ecológica, portanto, assume um caráter anticapitalista e deve ser assumido como uma bandeira da esquerda revolucionária.

Protocolo de Kyoto não resolve nada

Em 1997, em Kyoto, no Japão, em uma reunião promovida pela ONU, foi negociada entre as nações participantes a adoção de um acordo para tentar conter o aumento da temperatura do planeta. O protocolo tentava estabelecer metas extremamente insuficientes para conter o aquecimento, pedindo que países industrializados diminuíssem em 5,2% a quantidade de gás carbônico jogada na atmosfera, em relação aos índices medidos em 1990. A prova da insuficiência das metas é comprovada pelos próprios estudos do IPCC, que recomendam que a emissão desses gases seja reduzida em 60%.

Mesmo rebaixado, o acordo foi motivo de muita controvérsia entre os países ricos. O imperialismo norte-americano, por exemplo, decidiu não aderir ao acordo.
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