Exército Vermelho dos operários e camponeses

Logo depois da tomada do poder, os bolcheviques se viram obrigados a reconstruir um exército sobre os escombros do exército czarista, destruído pela revolução. Nele, a passividade e submissão aos oficiais czaristas deram lugar à audácia e ao culto da técnica. Jovens comandantes surgiam ao lado de antigos militares técnicos. Esses jovens foram batidos em muitas batalhas mas ao final acabaram vencendo, devido à disciplina, incutida pela teoria, e à audácia revolucionária.

Durante a guerra civil (1918-1922), o exército vermelho lutou em várias e extensas frentes. Sua estratégia era baseada em uma mobilidade muito grande, desviava suas forças de uma frente para a outra, garantindo a superioridade local, ainda que circunstancialmente, com as operações e os recursos controlados de forma centralizada. Caracterizou-se por sua mobilidade, ataque audaz e flexibilidade de manobras.

Profundamente internacionalista, mesmo tendo que lutar contra tropas de outros países, rechaçava veementemente o patriotismo nacional. Não era o exército da Revolução Russa, era o exército da revolução mundial.

A Guerra Civil
Em 3 de março de 1918, os bolcheviques assinaram a paz de Brest-Litovsky com a Alemanha, sob duras condições. Buscavam uma trégua para que pudessem reconstruir a economia do país. No entanto, poucas semanas depois, a revolução já se encontrava combatendo em várias frentes, de maneira desesperada, para tentar sobreviver.
Em 3 de abril, tropas japonesas desembarcaram em Vladivostock e ocuparam o leste da Sibéria. No dia seguinte, os turcos tomaram Batun, na Geórgia, Mar Negro. No final do mês, os alemães tomaram uma parte da Ucrânia. As tropas do general Von der Goltz mantiveram-se em guerra na Letônia e na Lituânia e, em maio, o Marechal Mannerheim expulsou as tropas vermelhas da Finlândia.

No dia 25, a temível Legião Tchecoslovaca, patrocinada pela França, se insurge contra os sovietes e se alia aos guardas brancos, começando uma campanha que culmina com a tomada de Kazan, em agosto. No mesmo mês, as tropas francesas tomam o sul da Ucrânia e a Criméia; os britânicos tomam Arcangel no leste do rio Don e suas unidades da Pérsia tomam o centro petroleiro de Baku e controlam o Cáucaso.
Também havia o exército branco comandado pelos generais reacionários Nicolai Yudenich, Alexander Koltchak e Anton Denikin. Chegaram a dominar a região sul, a Sibéria e parte do interior da Rússia. Recebiam ajuda dos “aliados” que haviam vencido a Primeira Guerra Mundial (França, Inglaterra e Estados Unidos).

Para enfrentar essa situação na arena internacional, a solidariedade do proletariado, com mobilizações e greves, foi determinante. Mobilizações que botaram em crise os impérios alemães e austro-húngaro os fizeram se retirarem da Rússia, Ucrânia e Letônia. Na França, forçaram o governo da III República a renunciar a suas operações no sul soviético. Na Inglaterra, levaram o premiê Lloyd George a afirmar: “Se iniciarmos uma empresa militar contra os bolcheviques, esta terminará por bolchevizar a Inglaterra e por criar o Soviete de Londres”.

Defendendo a Revolução
Mas o elemento determinante para a vitória soviética foi o heroísmo da vanguarda, com entusiasmo, abnegação e espírito de sacrifício. Assim como a política de ação do partido bolchevique que, com Trotsky na frente de batalha, conseguiu organizar, disciplinar e garantir confiança a milhões de soldados.

Apoiavam-se nas conquistas da revolução e fundamentalmente, da entrega de terra ao campesinato, que assim escolhia um lado nesta guerra. Mas também nacionalizaram totalmente a indústria e requisitaram alimentos dos agricultores ricos.

Para montar o exército vermelho, Trotsky primeiramente alistou os entusiastas da revolução. Depois, recorreu ao alistamento obrigatório e, mesmo assim, em caráter experimental, começando pelos centros operários de Petrogrado e Moscou. Somente quando o núcleo proletário do exército estava formado, começou a convocar os camponeses, iniciando pelos mais pobres.

Com isso, a lealdade e a disciplina se ampliavam gradualmente e, mesmo assim, em todo regimento se buscava formar um núcleo bolchevique. Instituíram um regime draconiano em algumas províncias, em virtude do iminente perigo. Os desertores e grupos sociais que alimentavam e inspiravam a deserção foram perseguidos e punidos exemplarmente, assim como os Kulaks, parte do clero e a antiga burocracia.
Depois de muito trabalho, o que era uma massa vacilante, instável e dispersa, transformou-se em um exército.

Vitória do Exército Vermelho
A primeira vitória obtida pelo exército vermelho, dirigido diretamente por Trotsky, junto com Mikail Frunze e o V Exército, foi a derrota da Legião Tcheca e a reconquista de Kazan. Em seguida Tukacheviski, com o I Exército, retoma Simbirsk. A partir daí a Guerra Civil mudou seus rumos.

O Almirante Kolchat que vinha pela Sibéria, “assassinando todos comunistas”, alcançou os Urais e chegou próximo a Moscou, mas foi derrotado pelo V Exército comandado por Frunze, Tukacheviski e o Comissário do Povo Ivan Smirnov (o “Lenin da Sibéria”), em agosto de 1919. Kolchat foi executado ao tentar fugir.

As tropas de Denikin, patrocinadas pelos ingleses, chegaram a tomar Odessa e parte da Ucrânia, avançando até 300 quilômetros de Moscou. Mas foram derrotados, em fevereiro de 1920, quando Tukacheviski, com o V Exército, ocupa Novosibirsk junto com a cavalaria vermelha, construída por Trotsky e Budyonny, com a consigna “Proletários a Cavalo”. Yudenich passou pela Estânia e chegou a 15 quilômentros de Petrogrado, mas o exército vermelho e os guardas vermelhos, dirigidos diretamente por Trotsky o derrotam.

Depois disso, o general Barão Wrangel reuniu os restos do exército de Denekin e, com ajuda francesa e polonesa, ataca a Ucrânia, mas também é derrotado na Criméia em novembro. Um dos motivos dos brancos serem sempre derrotados é que os territórios ocupados por eles viviam envoltos em saques e na corrupção dos chefes do exército. Além disso, com a volta dos senhores feudais, estes queriam reaver suas terras mas enfrentavam a resistência camponesa.

Eles capitularam totalmente em 1920, mas a guerra continuou contra os chamados “verdes”, bandos de cossacos que assolaram alguns distritos russos, e contra a intervenção de polacos e japoneses. O conflito com os polacos terminou em 1921 e os japoneses se retiraram em 1922.

Novo Exército e novos debates
Assim como em todos os problemas que enfrentava o poder soviético, a questão militar também provocou grandes debates e polêmicas no seio do partido bolchevique. “A política dos dirigentes era submetida a uma crítica livre e, às vezes, forte”. Trotsky teve que enfrentar todos estes debates com “velhos bolcheviques” e novos comandantes.

Defendeu o recrutamento obrigatório, a centralização de comando, a manutenção dos oficiais tsaristas em seus cargos e o comissariado político. Restabeleceu a disciplina militar e reprimiu severamente a deserção e a traição. Ele explicou que não podiam dirigir as forças armadas com comitês revolucionários eleitos pelos soldados e acabou com a tática da guerra de guerrilha.

Contra suas posições formou-se uma “Oposição Militar” já nos primeiros meses. As premissas da Oposição eram basicamente: a defesa do princípio eleitoral do comando, o protesto contra a incorporação de especialistas, a introdução da disciplina férrea e a centralização do exército.

O foco da Oposição estava no X Exército na cidade de Tsaritsyn, onde quadros militares agruparam-se em torno de Vorochilov, contra a centralização da organização militar. Em seus “círculos” falava-se, com ódio, dos especialistas, das academias militares e dos supremos quartéis-generais.

O papel de Stalin
O dirigente do Comitê Central que impulsionava e apoiava essa oposição era Stalin, como Comissário do Povo e membro do Conselho Militar do Front Sudeste. Depois de muita discussão, Trotsky decidiu colocar ordem em Tsaritsyn. Propôs a destituição de Stalin e Voroshilov. Sverdlov, intermediou o conflito, viajou até lá e trouxe Stalin em um trem especial. Nesse trem, Trotsky encontrou-se com Stalin. Exigiu disciplina absoluta de Voroshilov ou ele o enviaria a Moscou, a fim de ser entregue ao Tribunal Revolucionário.

Stalin garantiu o comportamento destes que eram “bons meninos”. Trotsky lhe respondeu que “esses bons meninos estão arruinando a revolução que não pode esperar até que eles saiam da idade da meninice. Quero apenas uma coisa: incluir Tsaritsyn na Rússia Soviética”.

O acordo foi feito e houve a garantia formal de subordinação. Ninguém foi demitido, mas as insubordinações continuaram e Trotsky exigiu a transferência de Voroshilov para Ucrânia, o que foi aceito por Lênin e Sverdlov sem contestação. Pediram, no entanto, a realização de um novo acordo entre ele e Stalin, ao que Trotsky respondeu: “Um acordo é, naturalmente, necessário, porém não um acordo podre. (…) Considero o patrocínio de Stalin da corrente de Tsaritsyn a úlcera mais perigosa, pior do que todas as traições e quebras de confiança dos especialistas militares…”
Tão logo Lênin adoeceu, Stalin conseguiu mudar o nome de Tsaritsyn para Stalingrado. Depois de sua morte, Voroshilov passou a ser membro do bureau político do partido bolchevique e, em 1925, após a morte de Frunze, o chefe do exército vermelho.

Os expurgos de Stalin privaram o exército vermelho de alguns de seus mais competentes comandantes, justamente às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Mais de 30 mil oficiais foram destituídos, presos, enviados para gulags e fuzilados. Isso custou mais de 13 milhões de mortos aos soviéticos na Segunda Guerra. Entre eles estava Tuckashevisky.

Budyonny e Vorochilov que escaparam das “purgas”, viraram Marechais e se uniram a Stalin. Fracassaram de maneira grandiosa na Segunda Guerra. O primeiro foi massacrado na Ucrânia pelos alemães, entregou Kiev e teve mais de 65 mil soldados presos. O segundo foi derrotado no Cáucaso.

Trotsky, chefe do Exército Vermelho
Clausewitz afirmava que a guerra é um instrumento político e como a direção dela é igualmente política, esta somente substituiu a pena pela espada. Deutscher afirmava que na construção do exército vermelho Trotsky usou a espada e a pena.
León Davidovitch Trotsky foi nomeado, em março de 1918, comissário de guerra e presidente do Supremo Conselho de Guerra. Percorreu pessoalmente todo o país em um comboio blindado que ia às frentes de batalha durante dois anos e meio.

Além dos debates téoricos e políticos sobre a questão militar, Trotsky atuou no campo de batalha. Quando o exército vermelho fugiu apavorado de Kazan, dois dias depois ele foi para lá. Decretou o recrutamento compulsório, puniu os comunistas arrivistas e os funcionários burocráticos e ineficientes. Montou um Tribunal Militar Revolucionário e estabeleceu estado de sítio em toda a região.

Dirigiu-se aos soldados em pânico despejando sobre eles torrentes de otimismo e disposição revolucionária. Os comissários locais pediram que ele se retirasse para um lugar mais seguro, mas temendo um efeito negativo sobre os soldados ele ficou. Ali conheceu e lutou junto de Frunze, Vatzetis, Tukachevski, Raskolnikov Mezhlauk e Ivan Smirnov. Esses homens tornaram-se depois o comando do exército.

Depois da batalha, submeteu à corte marcial um comandante e um comissário que retiraram seus homens da linha de frente. Foram fuzilados. “Covardes, canalhas e traidores não escaparão à bala”, afirmou.

Trotsky defendia também ser magnânimo com o inimigo que reconhecesse seus crimes e estivesse disposto a depor armas e servir honestamente ao Estado Operário. “Morte aos traidores! Mas misericórdia com o inimigo que se converteu e pede clemência!”
Depois das vitórias no Volga, Trotsky passa a inspecionar todas as frentes e desloca-se para a Ucrânia, tentando montar o exército, que estava em péssimas condições, para combater Denikin.

Em outubro de 1919, Petrogrado é seriamente ameaçada pelas forças de Yudenich. Lênin chega a propor a retirada para Moscou, resguardando ainda a possibilidade de uma retirada até os Urais. Trotsky protestou vigorosamente. Propôs que o mandassem a Petrogrado, apresentando todo um plano de emergência. Assim foi feito.
A resistência foi feita por tropas regulares, guardas vermelhos e destacamentos de mulheres que combateram com “loucura heróica” nas palavras do próprio Yudenich. Trotsky conseguiu derrotar os Brancos em quinze dias.

A seguir, o exército vermelho avançou em direção a Kiev e Kolchak foi totalmente derrotado na Sibéria. Trotsky foi aclamado como o “Pai da Vitória” e recebeu a “Ordem da Bandeira Vermelha”.
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