EUA: Cada vez mais atolado

Os últimos acontecimentos demonstram não apenas que há uma profunda deterioração da política norte-americana para controlar o Iraque, mas como diminuem as chances de o imperialismo obter uma vitória na guerra travada contra a resistência do país

Segundo uma pesquisa realizada pela agência de notícias Reuters, nada menos do que 57% dos norte-americanos rejeitam o sacrifício de vidas dos soldados do seu país no Iraque. A reprovação à guerra tornou-se mais uma peça na coleção de más notícias recebida pelo presidente George W. Bush neste mês.

Do dia 1º de outubro até o dia 27, foram registradas mortes de 100 soldados dos EUA no Iraque. É o maior índice desde o início da ocupação. No total, quase 2.800 soldados já morreram. Possivelmente a marca dos três mil soldados mortos por ações da resistência iraquiana seja atingida nos primeiros dias de 2007.

Outro indício da crise do imperialismo foi a comparação que Bush fez – pela primeira vez – da guerra no Iraque com a do Vietnã. Perguntado pela imprensa sobre a comparação, o presidente declarou: “Pode ser que tenha razão. A violência aumentou sensivelmente e estamos nas vésperas das eleições”, disse.

Pouco antes, um alto funcionário da diplomacia dos EUA declarou à TV Al-Jazeera que seu país agiu “com arrogância e estupidez no Iraque”. Hoje, para 60% dos norte-americanos, a guerra no Iraque tornou mais provável um novo ataque terrorista contra seu território.

Após anos de conflito e bilhões de dólares gastos, a guerra que Washington diz levar a cabo “contra o terrorismo” conduz o imperialismo a uma situação cada vez mais difícil.

Eleições
Toda essa crise desenvolve-se no marco das eleições para o Senado e a Câmara dos Deputados, marcadas para o dia 7 de novembro. Possivelmente os republicanos vão perder a maioria pelo menos da Câmara dos Deputados. Mas não está descartada a possibilidade de os republicanos perderem também a maioria no Senado, embora isso seja mais difícil, uma vez que as eleições vão renovar apenas um terço da casa.
Na prática, as eleições estão assumindo um caráter plebiscitário sobre a ocupação no Iraque. Uma derrota republicana seria um duro golpe aos planos do partido sobre a sucessão presidencial em 2009. Sem uma maioria parlamentar no Congresso, o governo Bush veria definhar o seu poder real – mesmo com a força institucional da posição que ocupa. Seria um governo que cumpriria seu mandato até 20 de janeiro de 2009, sem força política e com uma base parlamentar minoritária. Como dizem analistas da própria imprensa dos EUA, o governo Bush poderia se tornar um ‘pato manco’ (‘lame duck’, na expressão consagrada em inglês para descrever o governante que perdeu o poder efetivo de governar).

Por outro lado, a oposição burguesa dos democratas já demonstrou que não tem nenhuma política de retirada das tropas do Iraque. Pelo contrário. Além de muitos de seus parlamentares terem votado a favor da guerra, criticam agora Bush por ele “não saber conduzir os EUA à vitória”.

Resistência
Uma pesquisa da Universidade John Hopkins, divulgada recentemente, dá uma pequena mostra do aumento da resistência iraquiana contra a ocupação colonial. A pesquisa mostra que 655 mil iraquianos foram mortos desde o início da guerra.

O crescimento da resistência também provocou uma série de trapalhadas dos dirigentes dos EUA no Iraque. O embaixador norte-americano no país, Zalman Khalilzad, por exemplo, declarou ao lado do general George Casey, principal chefe das tropas de ocupação, que haveria um cronograma de retirada que poderia levar de 12 a 18 meses. Logo em seguida, foi desmentido pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e pelo vice-presidente do Iraque em visita a Londres.

Outro velho problema voltou a assombrar Washington. A milícia do clérigo xiita Al Sadr, o exército Mehdi, voltou recentemente a atacar marines norte-americanos e o exército iraquiano em Bagdá. Apesar de sustentar o governo fantoche, Al Sadr é um velho problema dos EUA, pois além de desafiar as ordens de entregar as armas, recentemente comemorou em público a vitória do Hizbollah contra Israel. Suas milícias agora são mais poderosas do que em 2004, quando entraram em conflito armado com tropas norte-americanas na cidade de Nayaf. Naquele ano, o exército Mehdi contava com cerca de 10 mil milicianos. Os norte-americanos estão evitando declarar algum cálculo sobre as atuais forças do exército Mahdi. Mas, segundo um informe publicado pela Chatham House (instituto fundado no século 18 que analisa a política externa britânica), o exército Mahdi pode contar agora “com forças de várias centenas de milhares”.

A instável relação entre o imperialismo e Al Sadr mostra que, não fosse a política negociadora entre o imperialismo, o clérico xiita iraquiano e o Irã, a situação de Bush poderia ser bem pior. Ou seja, embora existam conflitos entre os EUA e o Irã, o país dos aiatolás é peça chave para a ocupação imperialista.

Um velho plano em ação
Com a possibilidade de enfrentar uma derrota militar no Iraque, os EUA lançam mão de uma velha política aplicada no passado pelo imperialismo britânico – fomentar a guerra civil, jogando grupos étnicos e religiosos uns contra os outros.

Tal como na América Latina nos anos 80, a CIA utiliza-se de esquadrões da morte para implementar essa política no Iraque. Esses grupos promovem assassinatos e chacinas em nome de distintas correntes religiosas para jogá-las umas contra as outras. Um dos principais esquadrões da morte é a Brigada Badr, dirigida pelo partido xiita CSRII (Conselho Supremo da Revolução Islâmica Iraquiana), que age a partir do Ministério do Interior.

O estímulo à guerra civil por parte de Bush é uma saída que o imperialismo segue construindo na medida em que vê a sua ocupação colonial entrar em erosão. O plano é estimular os enfrentamentos para dividir o país em “regiões”, controladas por governos fantoches e subservientes a Washington.

Pântano
O mês de outubro de 2006 vai ficar na memória do imperialismo. As baixas provocadas pela resistência e o fantasma da derrota eleitoral mostram a que ponto chegou o pântano em que os EUA se meteram. No Afeganistão, as tropas do imperialismo também se encontram diante de uma imensa crise militar e social. Lá cerca de 270 soldados ianques já morreram desde 2001.

A combinação entre o agravamento da situação no Oriente Médio e a crise do governo Bush coloca a possibilidade de o imperialismo ser derrotado no Iraque e no Afeganistão, tal como foi no Vietnã na década de 70.
Uma derrota da maior potência militar do planeta seria de extraordinária importância, pois enfraqueceria o imperialismo e estimularia as lutas dos trabalhadores do mundo inteiro.

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