Espanha à beira da recessão

País vive uma imensa crise que só não tem mais destaque por conta da ruína nos EUAO maior desemprego da Europa, chegando a 11,33% no terceiro trimestre. Menos 164.300 empregos este ano. Cerca de 260% a mais de empresas pedindo falência. E queda de 3,8% na produção industrial nos primeiros meses do ano.

Na semana passada, o governo da Espanha anunciou que a economia recuou 0,2% no terceiro trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior. Foi a primeira redução em 15 anos. O governo ainda insiste em prever um crescimento de 1,6% este ano e 1% em 2009, números em que ninguém acredita. Mas a própria Comissão Econômica Européia afirma que o país deve fechar 2008 em plena recessão.

A inadimplência havia crescido 40% em um ano até outubro e segue em alta, principalmente entre os imigrantes. Até julho, a inflação estava em 5,4%, mas agora vem baixando e chegou a 3,6% em outubro. Não por acaso, o presidente José Luis Zapatero tem no momento a pior avaliação desde que foi eleito pela primeira vez.

“Dá pra sofrer no fim do mês”
No dia 13, numa manifestação em La Coruña, principal cidade da Galícia, contra a ajuda do governo espanhol aos bancos, centenas de pessoas protestaram com o lema “Que o capital pague pela crise”. A região por enquanto é a menos afetada pela crise na Espanha, mas a preocupação é geral.

Mariluz Seijo, 50 anos, trabalha numa creche há dois anos e meio, em troca de um salário de 850 euros. Os sindicatos estimam que o mínimo necessário para viver dignamente na Espanha são mil euros. “Se não fosse o salário do meu marido, morreríamos de fome”, disse. Ela afirmou ainda não ter notado os efeitos da crise, mas já percebeu que os governantes estão mentindo quando dizem que os galegos não perderão empregos.

A indignação com a crise também levou ao centro de La Coruña o caldeireiro Aberte Muiño, 34 anos. Metalúrgico de uma fábrica de componentes para energia eólica, ele lembra que, mesmo com a crise, os patrões seguem milionários. Muiño é delegado da Central Intersindical Galega (CIG), que convocou o protesto, e secretário do comitê de fábrica. Ele segue empregado, mas disse que seus colegas passam sufoco para pagar as hipotecas e têm medo de serem demitidos. “Os salários ficaram parados e o custo de vida subiu”, afirmou. Recebendo 1.150 euros por mês e sem vínculo empregatício, ele disse que “o salário dá para sofrer no fim do mês”.

A bolha
Como nos EUA, na Espanha também houve uma bolha imobiliária. Durante anos, o setor cresceu assustadoramente, supervalorizando os preços dos imóveis. Havia financiamento com juros baixíssimos para quem quisesse, sem grandes exigências.

Porém a bolha estourou ao mesmo tempo em que os trabalhadores perdiam seus empregos. O índice que corrige as hipotecas, o Euribor, subiu muito e hoje os bancos impõem dificuldades para financiar um imóvel. Resultado: cerca de 2 milhões de imóveis à venda. Diariamente, a imprensa traz casos de pessoas que usam todo o salário para pagar a parcela do financiamento.

Em outubro, as vendas de imóveis já haviam caído 37,6% em relação a 2007. Agora, os empresários querem que o governo se responsabilize pelos compradores, para que os imóveis encalhados possam ser vendidos, já que as pessoas não podem dar garantias aos bancos.

Multinacionais
Apesar do temor de muitos espanhóis, as grandes empresas do país estão lucrando, recebendo as remessas de suas ações na América Latina. O presidente do banco Santander, Emílio Botín, considera a crise como “o período mais difícil já visto por toda uma geração de banqueiros”. No entanto, seu banco conquistou no Brasil seu melhor resultado trimestral: lucro de 262 milhões de euros.

A Telefonica encontrou na América Latina um refúgio. Se na Espanha o faturamento do último trimestre foi de 1,4%, nas filiais sul-americanas subiu 9,4%. As altas tarifas aplicadas por aqui e as cobranças indevidas explicam o lucro da multinacional.

Montadoras já demitem

São inúmeras as fábricas que todos os dias anunciam demissões ou férias coletivas. Mas o caso mais dramático até agora é o da Nissan, em Barcelona.

A montadora japonesa quer demitir 1.680 trabalhadores da planta por meio de um ERE (Expediente de Regulação de Emprego). O ERE é uma fórmula da justiça espanhola, que permite que uma empresa demita em massa, desde que haja acordo entre a empresa e os trabalhadores, através de seu sindicato.

O plano da Nissan trará um corte de 40% dos funcionários. Em outubro, a empresa já havia informado que demitiria 3.500 na Espanha, Japão e EUA.

Os metalúrgicos têm feito seguidas manifestações, todas radicalizadas. No dia 23 de outubro, cerca de 10 mil foram às ruas. Os manifestantes exigiram a intervenção do presidente Zapatero, para impedir os cortes.

No dia 11 de novembro, Barcelona presenciou uma manifestação de mais de mil trabalhadores. Eles bloquearam uma das principais avenidas da cidade, a Gran Vía, por uma hora. O protesto terminou com um ato em frente à sede da companhia, com direito a arremesso de ovos, pedras e até as grades de segurança contra o prédio.

Acordos com sindicatos permitem demissões
A montadora de furgões Iveco seguiu o exemplo e terá um ERE dando férias coletivas de 50 dias para 2.500 trabalhadores da unidade de Madri. Todos vão receber menos e temem que o acordo seja revisto no futuro, para permitir demissões.

A empresa alemã Mahle, fabricante de pistões, anunciou na que vai demitir 250 funcionários na Catalunha, metade da planta. Até uma metalúrgica com participação do governo catalão, a Comforsa, planeja demitir 40% dos trabalhadores de uma fábrica.

Os cortes e a crise nas grandes montadoras provocam um verdadeiro efeito-dominó. Delphi, Esteban Ikeda, Visteon, Ficosa e Estampaciones Sabadell são empresas da região, auxiliares do setor automotivo, e também já anunciaram cortes.

A GM, assim como no Brasil, recorreu ao expediente das férias coletivas e também iniciou um ERE que suspenderá temporariamente 600 postos de trabalho em Zaragoza. A multinacional norte-americana anunciou que diminuirá a produção em 20% na Europa.
A fábrica da Citroën em Vigo, na Galícia, também anunciou que a partir de janeiro o turno que fabrica o Picasso deixará de funcionar. Serão afetados cerca de 900 trabalhadores, a maioria eventuais, ou seja, com contratos flexíveis.

Já a unidade da Ford em Valencia determinou folga de três dias por semana. A empresa já tinha utilizado um ERE temporal (espécie de férias coletivas) que afeta quase mil trabalhadores e termina em dezembro.

Os patrões da Espanha não têm limites. Como se não bastasse o uso dos EREs para demitir, agora querem poder usá-los mesmo que não haja acordo com os sindicatos!
As maiores centrais sindicais da Espanha – União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Comissões Operárias (CCOO) – pouco fazem para impedir essa manobra. No caso das demissões na Catalunha, os dirigentes sindicais chegam ao cúmulo de pedir que o governo faça um plano para salvar os patrões, para que estes, por sua vez, “colaborem” e não demitam.

Post author Rocío Martinez, da Espanha
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