Entrevista: Ruggero Mantovani, dirigente do PdAC, analisa o movimento operário italiano

Após a breve entrevista do dirigente nacional da nova seção italiana da LIT-QI, Valerio Torre (Opinião Socialista nº 291), Ruggero Mantovani, responsável pela Secretaria de Formação de Quadros do PdAC, concordou em responder mais algumas perguntas da redação por e-mail, para ir familiarizando os leitores brasileiros do Portal do PSTU à realidade social e política da Itália. O camarada Mantovani discorreu pacientemente sobre temas que vão desde as peculiaridades históricas do movimento operário italiano até as mais recentes lutas sociais desenvolvidas no país. Boa leitura!

Portal do PSTU – A recente mobilização de Vicenza, em 17 de fevereiro, traz à memória a própria gênese do movimento antiguerra. Afinal de contas, a convocatória da primeira grande manifestação contra a Guerra do Iraque partiu centralmente do movimento operário italiano (através do sindicalismo anti-governista e anti-burocrático), reunindo mais de 1 milhão de pessoas no encerramento do Fórum Social Europeu em Florença, em 10 de novembro de 2002. Qual é a natureza social da nova situação na relação de forças da Europa? Que relação há entre as recentes greves operárias, o movimento antiglobalização e a própria luta antiguerra no Velho Continente?
MANTOVANI
: A recente mobilização de Vicenza contra a base militar da Otan obviamente não surgiu do nada: sua gênese seguramente pode ser localizada nas grandes manifestações européias contra a guerra, enquanto sua atualidade consiste em se constituir a partir das dobras mesmas das próprias contradições geradas pelas políticas capitalistas, amadurecidas na Itália nos anos 90. Em definitivo, o longo processo de integração da burguesia italiana no bloco imperialista europeu, inevitavelmente produziu uma profunda crise da hegemonia política e social dos grupos dominantes que, em alguns momentos do devir italiano, assistiu a uma reação de massas, convertida então no detonador do conflito de classe: da mobilização do movimento antiglobalização, na Gênova de 2001, às multitudinárias manifestações antiguerra, com a participação de milhões de pessoas, das lutas radicalizadas dos ferroviários de Milão à batalha dos operários da FIAT de Melfi, das mobilizações da população de Acerra contra o termoincinerador às extraordinárias manifestações contra o TAV, em Val di Susa. Um processo de lutas e mobilizações que chega finalmente à manifestação de Vicenza e que, ainda mais hoje, quando o governo Prodi (depois de ter lançado um Plano Orçamentário de “lágrimas e sangue” para o proletariado e as classes populares, depois de ter financiado a guerra imperialista e ter reativado as privatizações, nos gânglios centrais dos serviços públicos) está prestes a realizar o roubo do TFR e a reforma da Previdência, já se fazem visíveis as profundas contradições das políticas burguesas e, conseqüentemente, a provável explosão de formas radicalizadas de luta e mobilização no conflito social e operário.

Há uma imagem muito difundida, fora da Europa, de que os trabalhadores e a juventude teriam condições sociais de vida muito superiores do que seus pares no resto do mundo, por causa dos direitos trabalhistas e conquistas sociais do “Estado de Bem-Estar Social”. Da mesma forma, muitos intelectuais liberais-burgueses retratam a União Européia como uma antítese do imperialismo norte-americano. Esta imagem, contudo, vêm sendo abalada tanto pelas recentes revoltas de trabalhadores e estudantes europeus, assim como pela adesão ativa da União Européia à ocupação militar do Oriente Médio. Comente um pouco sobre este senso comum em relação à Itália, por exemplo.
MANTOVANI
: A Europa imperialista, depois da queda da URSS, empenhou-se em uma imponente reestruturação capitalista no Leste Europeu: a amplificação de novos mercados, nos últimos quinze anos da história do Velho Continente, contribuiu à definição de um bloco que hoje concorre com o imperialismo norte-americano. A Europa, à diferença das equivocadas teorizações da intelectualidade pequeno-burguesa, não representa simplesmente uma servil pertinência em relação ao capitalismo norte-americano, mas sim um dos principais atores das políticas imperialistas. O novo quadro da economia mundial, construído sobretudo com políticas de ataque ao movimento operário e às classes populares em uma longa transição européia, entretanto, fez emergir uma crescente crise de hegemonia social e política das burguesias européias e seus governos, cujo efeito produziu a construção de movimentos de massas contra a guerra, a precarização do trabalho e a superexploração dos trabalhadores imigrantes.

A história italiana, neste quadro, é certamente exemplar. Durante mais de 15 anos os grupos burgueses (com governos de centro-direita e, tanto mais, com esses de centro-esquerda) realizaram seu programa fundamental, combinando um ataque sem precedentes ao salário dos trabalhadores (entendido como salário-renda, valor diferencial, expresso em serviços públicos), ampliando setores novos do mercado especulativo através do roubo do TRF e da privatização da previdência pública, aprofundando as privatizações nas áreas sociais e, por último, dando início a uma desestruturação das relações de trabalho, realizando assim novas formas de precarização e flexibilidade (particularmente, veja-se o Pacote Treu e a Lei Biagi). Um quadro social e político que conseqüentemente nega, em alto e bom som, a teorização de uma suposta antítese entre o Velho Continente e o imperialismo norte-americano, bem como a tão arraigada cantilena de Bertinotti sobre uma “Nova Europa, social e democrática”.

A Itália do recessivo período do entre-guerras constituiu uma ampla plataforma de exportação de força de trabalho operária para países como EUA, Argentina e Brasil. Hoje apresenta-se, sociologicamente, enquanto uma “inversão de tendência” do fluxo migratório, sendo a Itália o destino de trabalhadores imigrantes de regiões como o Oriente Médio, o Leste Europeu, a África sub-Saariana e a própria América Latina. Como e por quê se dá tal inversão? Qual é a importância da força de trabalho imigrante na estrutura de classes da Itália? Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes na Itália? Como se dá a organização deste importante setor operário? Comente as iniciativas da LIT-QI e do PdAC nesta frente de luta.
MANTOVANI
: Eu acredito que esta “inversão de tendência” não pode ser apresentada em termos sociológicos, ou pior ainda, abstratos. Trata-se, na verdade, da confirmação histórica definitiva da natureza social do processo de integração da burguesia italiana ao bloco imperialista europeu, capaz não só de competir nos mercados mundiais, mas também em relação à divisão internacional da força de trabalho. Neste sentido, acredito que a iniciativa da LIT-QI (na qual, enquanto PdAC, estamos empenhados, a exemplo de Roma), de começar uma mobilização internacional dos trabalhadores imigrantes, não só é absolutamente necessária para organizar a força e a combatividade destes trabalhadores, mas acredito também que seja a única resposta dos proletários de cada nacionalidade contra a política cotidiana de violência e exploração.

Fale-nos um pouco sobre as recentes contra-reformas neoliberais de privatização e precarização, levadas à cabo na educação pública (Convenção de Bolonha) e, também, sobre os estudantes italianos em meio a este processo.
MANTOVANI
: Também neste caso as reformas de privatização e liberalização da educação pública (vide as reformas feitas pelo ministro Berlinguer, de centro-esquerda, e aquelas do ministro Moratti, de centro-direita) não são estranhas ao processo de aquisição, pela burguesia italiana, de novos nichos no mercado capitalista. A reforma neoliberal da escola pública assumiu inclusive um outro e mais exigente significado: influenciar os processos de formação cultural e orientação geral das jovens gerações que, por um lado, dão origem à nova formação de força de trabalho especializada e integrada ao processo produtivo e, por outro, ao fortalecimento da ideologia burguesa favorável à construção de um consenso social ao programa fundamental expresso pelos grupos dominantes.

A formação social italiana e o desenvolvimento capitalista no país assumiu uma forma historiográfica bastante complexa e peculiar. Segundo historiadores e sociólogos, a formação tardia de um Estado-nação burguês determinou a via italiana ao capitalismo a partir de um processo histórico de contra-reformas, “de cima para baixo”, o que, através de diversas determinações, veio a dar origem ao fenômeno da “questão meridional”: ou seja, o agudo contraste entre o Norte, fortemente industrial, e o Sul, predominantemente agrário. Isto se assemelha muito à história do capital no Brasil e, em especial, em relação ao desenvolvimento “desigual e combinado” entre o Sudeste urbanizado e o Nordeste camponês. Comente-nos um pouco deste aspecto histórico e o que há de continuidade e descontinuidade em relação à atual configuração das relações sociais e estrutura de classes da população na Itália. Fale-nos também sobre a formação da máfia italiana ao Sul do país.
MANTOVANI
: Acredito que a análise do desenvolvimento capitalista italiano não pode ser conduzida por aproximações historicistas e, tanto menos, sociologizantes, mas sim de forma concreta, buscando-se as forças materiais que determinaram o desenvolvimento da economia liberal-burguesa no país. Neste sentido, acredito que a formação e o desenvolvimento do sistema econômico e político do capitalismo italiano seja passível de referenciamento junto a uma história articulada e profundamente influenciada pelas formações sociais amadurecidas no processo histórico anterior à própria construção do Estado nacional italiano. Em última análise, a própria “questão meridional” não representa a especificidade de uma condição histórica, mas sim a trama de forças materiais que concorreram para a sua determinação concreta: em definitivo, o processo de formação do desenvolvimento capitalista na Itália foi constantemente influenciado por um bloco burguês constituído, em seu interior, tanto pelos grandes latifundiários do Sul, onde uma economia paralela e especulativa é desenvolvida pelo fenômeno das organizações mafiosas, quanto pela burguesia industrial do Norte, determinando um processo de formação histórica do capitalismo italiano em cujo interior são visíveis as contradições de um desenvolvimento desigual e combinado, o qual fez constantemente emergir elementos de semelhança à história capitalista de outros países como o Brasil.

Pouco se sabe, fora da Itália, sobre a imensa diversidade político-cultural, étnica e até mesmo lingüística que compõe este país. Um panorama geográfico bastante heterogêneo, formado por montanhas altas e ásperas, reentrâncias e vales isolados, costa extensa e acidentada, além de uma coroa de diferentes ilhas, acrescido de uma longa história de ocupações por diferentes povos, formou uma miríade de aglomerados humanos diversificados, que se refletem até hoje na forma de falar, compondo uma plêiade de dialetos e línguas por toda a península: o Toscano, o Napolitano, o Siciliano etc. Enfim, o Estado italiano constitui uma formação verdadeiramente pluri-étnica e multi-lingüística, realidade que o fascismo se empenhou em falsificar, através do mito fundante da unidade nacional, cultural e política, além da “pura” língua italiana, referenciada centralmente no idioma Toscano e nas línguas do Norte. Comente um pouco sobre a questão nacional e a autodeterminação dos povos, como a Sardenha, na Itália e sua relação com o movimento operário.
MANTOVANI
: A formação sócio-histórica do Estado italiano entreteceu a questão da independência nacional na inumerável sucessão de ocupações que tiveram lugar na longa história da Península Itálica ao desenvolvimento da economia capitalista e à estabilização do poder expresso pela burguesia. Um fenômeno histórico que, em seu desenvolvimento, mudou progressivamente as estruturas étnicas e sociais originárias, enquanto construiu, embora de forma em tudo contraditória, novas composições sociais nascidas da industrialização, da reurbanização dos territórios e da migração de camponeses do Sul ao Norte industrial. Um processo de construção nacional que, apesar de sua natureza contraditória, fez emergir – e é, por exemplo, o caso da longa história da Sardenha – uma reação popular às políticas coloniais e de ocupação do Estado italiano, onde a questão da autodeterminação (note-se, fenômeno que não tem nada a ver com a política da organização reacionária Lega em relação à população do Nordeste do país) conjugou o desenvolvimento da economia nacional com o nascimento de um movimento operário e socialista: em definitivo, a questão nacional e a especificidade das reivindicações independentistas, não só entreteceu o nascimento de um movimento operário e socialista autônomo da burguesia nacional, como também marcou a peculiaridade do socialismo italiano no interior do qual o movimento proletário comunista nasceu.

Há uma forte e longa tradição à esquerda na Itália. A experiência revolucionária dos conselhos de fábrica do jovem Gramsci de Turim, durante o chamado “biênio vermelho” de 1919 e 1920; a resistência antifascista do movimento partigianno durante os anos 30; a criação de partidos e sindicatos operários com forte influência de massas; o movimento social do Outono Quente de 1969 etc. etc. etc. Há um amplo espectro de fenômenos à esquerda – mais ou menos identificados com o marxismo – que recorrem desde o ultra-esquerdismo de grupos clandestinos, como as Brigadas Vermelhas, até o surgimento do Eurocomunismo nas fileiras do ex-PCI. Do anarco-sindicalismo até o liberal-socialismo, passando pelo stalinismo de Togliatti até o socialismo-cristão, parece que não há matiz ou tendência político-ideológica desconhecida da esquerda italiana. Ainda hoje, é possível ouvir canções de esquerda em manifestações de massas – como Bella Ciao ou Bandiera Rossa – ou mesmo ser saudado pela população italiana com o tradicional gesto, classista e combativo, do punho esquerdo alçado em riste.
Como se dá a batalha pela construção de uma direção revolucionária em um movimento operário com esta tradição histórica? Qual é o sentido da reorganização sindical e política em curso na Itália?
MANTOVANI
: Sim, é verdade, a longa história da esquerda italiana expressou, particularmente no século XX, uma forte tradição do movimento operário, profundamente arraigada no tecido social de nosso país. Porém, trata-se de uma história muito contraditória, desde os primeiros movimentos proletários e socialistas – à exceção daqueles teoricamente mais simplórios e primitivos (particularmente me refiro às experiências das sociedades de mútuo-socorro e às cooperativas de trabalho) – até o nascimento do movimento revolucionário e comunista que, apesar do inicial sectarismo bordighista, formou-se imbricado à Revolução de Outubro e à III Internacional.

A história posterior, particularmente depois do Congresso de Lione (1926), será hegemonizada pelo stalinismo, cujo mais autorizado representante era Palmiro Togliatti. Aqui está a principal contradição do movimento comunista na Itália: um profundo enraizamento de classe, que em muitas fases históricas expressou-se em formas radicalizadas de luta contra a burguesia (Biênio Vermelho, Movimento Partiggiano, aliança operário-estudantil – amadurecida entre 68 e 69 –, a revolta estudantil de 1977, a luta operária contra a FIAT, em 1980, o nascimento de um novo movimento operário nos anos 90 – contra a política colaboracionista da CGIL –, até chegar às grandes mobilizações de Gênova, em 2001, ou de Vicenza, em 2007) e uma direção, primeiro staliniana e, subseqüentemente, social-democrática, que constantemente frustrou aquela profunda tradição de classe nascida no coração mesmo da esquerda italiana. Eu acredito que a história e a tradição do movimento operário – e a deformação desenvolvida em sua burocracia –, tanto mais hoje, ampliam o espaço para a real construção de um partido revolucionário que fixe as bases para a formação de uma oposição classista e comunista às políticas burguesas, expressas pelo bipolarismo italiano.

Nos documentos teóricos e políticos do Pd’AC notamos a menção à obra do revolucionário Antonio Gramsci. No Brasil, os grandes difusores e tradutores das teorias de Gramsci foram “os jovens intelectuais do PCB” – principal organização stalinista do país –, como Carlos Nelson Coutinho, que acabaram por construir um operativo ideológico que continuava o trabalho editorial anti-trotsquista de Togliatti. A imagem culturalista e historicista – de um teórico das “superestruturas” – acabou por se impor a partir dos anos 70 no país. A falsa ideologia do “valor universal da democracia” acabou por ocultar, por fim, o verdadeiro teórico da revolução social. Comente mais sobre a contribuição de Gramsci à tradição marxista e sua reivindicação, por uma organização trotsquista, desde o Manifesto de Fundação do PdAC até os seus materiais de formação e propaganda. Como se relaciona a teoria da revolução de Gramsci àquela de Marx e Engels, Rosa, Lenin e Trotsky? Qual é a contribuição fundamental de Gramsci para o programa revolucionário e a formação marxista de uma nova geração de trabalhadores revolucionários?
MANTOVANI
: Sobre o pensamento de Gramsci se forjaram uma série de mistificações e deformações – para dizer o mínimo – bastante aberrantes: na Itália, os tristes epígonos do stalinismo sustentaram a tese de uma ‘continuidade sistemática’, supostamente existente entre Gramsci, Togliatti e Bellinguer. Um fenômeno, porém, que é bastante comum à história de outros revolucionários: alguns trabalhos de Marx, Engels e Lenin foram objeto de vulgarizações simplificadoras do stalinismo; lembro, entre outros casos, que em meados dos anos 80 o Partido Socialista Italiano (PSI, de Craxi) reivindicou um reformismo imaginário de Rosa Luxemburgo. O pensamento gramsciano – ainda que não seja imune a esquematismos, erros e limites (se pensarmos particularmente no conformismo expresso em relação à stalinização e na ambigüidade expressa em relação à campanha anti-trotsquista, além de uma sociologização excessiva da história italiana, expressa no Congresso de 1926) – representa um patrimônio importante: particularmente a apreensão da experiência conselhista (soviética) do Biênio Vermelho, os escritos do jornal L’Ordine Nuovo, a concepção leninista de partido enriquecida pela teoria do intelectual orgânico e da hegemonia e o programa transitório expresso por Gramsci nas Teses de Lione.

Há toda uma nova geração de ativistas que nasce depois do colapso do stalinismo e viveu, profundamente, a ofensiva ideológica do chamado “fim das ideologias”. Particularmente, muitos jovens universitários da Europa Ocidental que se identificam com o “movimento anti-capitalista” nutrem difusa simpatia por teorias social-liberais e/ou pós-modernistas – que rechaçam a centralidade histórica da classe operária e do partido revolucionário – para a transformação social. Fale um pouco sobre esta tendência no interior do movimento e da juventude italiana.
MANTOVANI
: É verdade, os stalinistas e uma intelectualidade pequeno-burguesa afirmaram que depois da queda de URSS teria chegado o “fim da história”. Uma tendência que foi tão-só o reflexo intelectual de uma transição capitalista que atravessou toda a década de 90, mas isso, como especifiquei previamente, se por um lado deu-se coetaneamente à construção do bloco imperialista europeu, por outro, produziu uma profunda crise de hegemonia social e política dentro da qual uma nova geração emergiu e que, durante estes anos, vem dando vida ao movimento antiglobalização e antiguerra que, tanto mais hoje, mantém o vigor, a exemplo da manifestação de Vicenza.

Comente um pouco sobre a questão religiosa, o Estado do Vaticano e o papado em relação ao programa revolucionário na Itália.
MANTOVANI
: Eu acredito que a função material do Vaticano na ordem capitalista emerge do entrelaçamento entre as hierarquias eclesiásticas e a propriedade capitalista no setor financeiro, imobiliário e fundiário; o que constitui a base material do poder temporal no Vaticano. Para os marxistas, a essência da religião consiste no enfrentamento da relação de dependência entre homem e deus, na luta contra a alienação das liberdades humanas traduzidas – na ordem capitalista – pela subtração da riqueza à força de trabalho e no conflito entre trabalho e capital. Para o marxismo a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica, já que “a religião é a teoria geral deste mundo, sua lógica em forma popular (…) A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração … o ópio do povo” [Marx]. Uma oposição comunista, tem a tarefa de recuperar uma proposta programática coerente sobre o próprio terreno das lutas democráticas, com a abertura, por exemplo, de uma campanha de massas pela abolição do pacto histórico entre Estado e Igreja, desmascarando o poder do papado e das hierarquias eclesiásticas. Uma oposição comunista tem que assumir como finalidade a conquista de setores de massa do mundo católico e fazer emergir as enormes contradições entre as suas reivindicações progressivas e a natureza reacionária da Igreja. Uma autêntica refundação comunista teria o dever de construir uma frente unitária com os setores avançados e radicais do mundo católico – mas sobre o terreno das reivindicações democráticas –, para construir as formas e o poder de um bloco social alternativo que se coloque o objetivo transitório de privar o fenômeno religioso de seus laços com a Igreja e o poder temporal, fazendo regressar o culto coletivo a uma opção pessoal.

Há muito tempo a boa e velha palavra francesa Communisme confundiu-se, perante os olhos das massas, com os regimes e partidos políticos de extração stalinista. No Brasil, muitos companheiros e companheiras se surpreenderam com a recentíssima fundação de organizações internacionalistas de trabalhadores revolucionários, com nomes como Ligue Communiste des Travailleurs-Communistische WerkersBond (LCT) na Bélgica, e Partito di Alternativa Comunista-Progetto Comunista (PdAC) na Itália – retomando o fio vermelho iniciado com a tradição política do Manifesto de 1848 no interior da própria LIT-QI. O que significa a re-assunção histórica da palavra Comunismo na história do movimento revolucionário? O surgimento da seção italiana da Internacional coloca a construção européia em um novo patamar. Que forma de iniciativa e atividade as organizações européias da Internacional podem promover – coordenada e sistematicamente – de forma a estimular a autodeterminação dos trabalhadores e jovens no Velho Continente? Existe algo do espírito do “Maio de 1968” na nova situação dos trabalhadores europeus?
MANTOVANI
: A crise de direção do proletariado internacional e as deformações stalinistas amiúde privaram o movimento operário de uma verdadeira perspectiva revolucionária e propriamente comunista [em seu sentido verdadeiro]. Partindo desta própria consideração, acredito que a organização européia da Internacional deva trabalhar profundamente para promover a construção da auto-organização dos trabalhadores, concentrando a própria atividade militante nas organizações de massas. Neste sentido é necessária a formação de quadros e setores de vanguarda caracterizados por uma função “Maêutica”(*) – ou seja, para dizer com Lenin – “não simples sindicalistas, mas tribunos do povo”. Esta perspectiva é, ainda mais hoje, absolutamente ineliminável: seja porque se inscreva no processo histórico e na base contraditória da sociedade capitalista, ou seja por que as mobilizações dos últimos anos, às quais fizemos referência anteriormente, demonstraram uma permanência do conflito social com potencialidade talvez até mais explosiva do que aquela que se pôs em movimento nos anos 60 e 70. Uma nova geração realizou o ensaio geral de seu batismo de fogo. Uma geração que – não tendo sofrido as deformações introduzidas principalmente pelo stalinismo, em suas várias articulações – pode se constituir hoje como um fertilíssimo solo para uma perspectiva revolucionária.

*Maièutica: referente ao método inerente ao processo educativo em Sócrates, o qual consiste em auxiliar o discípulo, interrogando-o habilmente, de forma a iluminar a verdade latente em seu espírito.