Entrevista: Roberta Maiane, da UFRJ, fala sobre a ocupação e o Reuni

“Nossa ocupação poderá servir como apoio político para as outras lutas contra o Reuni”Desde 18 de outubro, os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantêm a reitoria ocupada em protesto contra o Reuni. Em todo o país, os estudantes estão lutando contra a implementação do projeto, organizando atos, passeatas e ocupações. Além da UFRJ, as reitorias da UFBA (Bahia) e da UFPR (Paraná) também foram ocupadas. O Portal do PSTU entrevistou Roberta Maiane, estudante de História da UFRJ e membro da Conlute, que é uma das dirigentes da ocupação da reitoria.

Portal PSTU: Como foi a ocupação da reitoria da UFRJ ?
Roberta Maiane
– Ocupamos a reitoria depois do maior ato que fizemos contra o Reuni, no dia em que a reitoria iria votar a adesão ao decreto. Nos últimos meses, construímos um processo de mobilização contra a o projeto, fizemos, inclusive, uma ocupação anterior para impedir que o Reuni fosse aprovado nas férias e conseguimos adiar o processo. Também colhemos quatro mil assinaturas para exigir um plebiscito oficial sobre o tema, mas a reitoria se negou a fazer.

No último dia 18, a reitoria marcou uma reunião do conselho [universitário] para votar o Reuni. Do dia pra noite mudou o local do conselho, mudou o horário, fez todo tipo de manobra para tentar aprovar o Reuni, mas conseguimos realizar um grande ato, com cerca de 500 estudantes protestando contra o projeto.

Durante a reunião do conselho, a reitoria queria cortar a palavra dos estudantes, mas continuamos o protesto. No meio dessa manifestação, a reitoria convocou a votação mesmo sem que todos os inscritos pudessem terminar suas falas. Nossa reação foi de subir no palco para impedir que a votação acontecesse. Nisso alguns conselheiros agrediram os estudantes. No meio da confusão o reitor mandou que os conselheiros levantassem os braços para aprovar o projeto. Meia dúzia de conselheiros levantou os braços e a reitoria, então, considerou que o Reuni tinha sido aprovado. O papelão ficou também por conta do DCE, que é ligado à UNE. Eles estavam lá para apoiar o reitor e a aprovação do Reuni.

Depois vocês seguiram para Reitoria?
Roberta
– Depois desse golpe fizemos uma rápida plenária e todos decidiram fazer uma passeata pela universidade e ir até a reitoria para ocupá-la.

Como está a ocupação?
Roberta
– Ela está organizada por comissões. Nós é que fazemos a comida e organizamos o espaço. As pessoas se dividem entre ficar na ocupação e passar em sala de aula, para discutir o Reuni e explicar a razão da ocupação.

Também estamos concorrendo com uma chapa de luta para as eleições do DCE. O nome da chapa é “De que lado você samba?”. As eleições são nos dias 29, 30 e 31. Junto com a ocupação, estamos fazendo a campanha para recuperarmos o DCE para a luta.

O que vai significar concretamente a implementação do Reuni da UFRJ?
Roberta
– Ao contrário do que o governo diz, não vai significar uma ampliação de vagas para democratizar as universidades para que ela se torne mais próxima aos trabalhadores. O Reuni vai fazer com que a universidade se organize a partir dos ciclos básicos, dos bacharelados interdisciplinares, e só depois disso é que os estudantes vão fazer algum curso, como de história, biologia, etc.

Isso vai provocar o seguinte resultado: só uma minoria poderá aprofundar os estudos. Além disso, o projeto prevê a ampliação da universidade, mas sem nenhuma garantia de que os recursos financeiros vão aumentar. Também vai acarretar numa precarização do trabalho dos professores. A maioria vai passar a ser substituto, ou seja, sem vínculo com a universidade e que recebe muito menos. Na UFRJ, o reitor prevê também a transferência de todos os cursos para a ilha do fundão. Os demais campi da universidade serão locados.

Como os estudantes da universidade estão vendo a ocupação?
Roberta
– Estão apoiando. As pessoas nos param nos corredores para perguntar como está a ocupação, sobre o Reuni, etc. Os estudantes não consideram legítimo o que a reitoria fez. Por outro lado, a reitoria e o DCE governista dizem que nós somos vândalos, que é legítima a aprovação. Então, existe uma guerra na universidade, mas tem muito apoio à ocupação.

Há uma série de lutas contra o Reuni em várias universidades. Qual é a sua opinião?
Roberta
– Nossa ocupação é parte de todo um processo nacional de lutas contra o Reuni. Esperamos que a partir dela possamos atrasar e impedir a implementação desse projeto, mas também achamos que nossa ocupação poderá servir como apoio político para as outras ocupações e lutas que estão acontecendo. O processo de luta contra o Reuni é nacional. Por isso é necessária a luta em cada uma das universidades. Mas essa luta é dirigida contra o governo e contra a UNE. Por isso, devemos organizar uma alternativa de luta para os estudantes.