Entrevista: “Nosso objetivo é manter a soberania do Líbano”

Trad Hamade, ministro do Trabalho do Líbano, demissionário do governo Fuad Siniora e membro do Hizbollah, visitou o Brasil no mês de junho. O Opinião aproveitou a sua visita para entrevistá-lo. Ainda que o PSTU e LIT-QI tenham muitos desacordos com algumas de suas opiniões, pelo seu valor jornalístico, publicamos a entrevista a seguir para dar a oportunidade aos nossos leitores conhecerem as posições do Hizbollah sobre a situação no Oriente Médio. A íntegra da entrevista está disponível no Portal do PSTU.

Opinião – Os EUA e Israel querem o desarmamento do Hizbollah para cumprir uma resolução da ONU. Como o Hizbollah vê o papel da ONU no Líbano e no Oriente Médio?

Trad Hamade – A guerra de julho de 2006 foi a guerra mais sangrenta que já houve no Oriente Médio onde foi clara a derrota do exército agressor, do Estado de Israel apoiada pelo exército americano. Saíram derrotados do Líbano, não atingindo o seu objetivo de querer desarmar um povo que decidiu lutar pela sua terra e manter a soberania de seu país. A resolução da ONU diz respeito ao desarmamento das milícias. E o Hizbollah não é uma milícia. É uma resistência popular, legal, que defende a independência de seu país. Não exerceu nenhum papel de terrorismo, de agressão em nenhuma parte do mundo, muito menos do Líbano. Sua existência se dá pelo direito de resistência e defesa de um povo. Ninguém pode interferir na autodeterminação de um povo. O direito de defesa é um direito que consta, inclusive, nas resoluções da ONU para todo o mundo. As forças do exército de Israel ocuparam nosso país durante 28 anos e só promoveram guerras desde sua origem até hoje. Nada mais certo que nosso povo tenha o direito de se organizar e pensar nas estratégias corretas de defesa, conforme achar necessário. E é isso que está sendo feito pelo povo do Líbano e pela resistência libanesa. Não podemos ser considerados milícia. Somos uma resistência popular cujo único objetivo é manter sua independência e manter a soberania do país. São os EUA que ignoram os direitos humanos em todo o mundo. E o Estado de Israel, que surgiu expulsando o povo palestino de seu território, de tempo em tempo promove guerras contra nossos países em geral. Por isso que pedimos o apoio mundial de todos no mundo contra os nossos inimigos, o governo americano e o Estado de Israel.

Certamente sabemos que seria necessário um órgão internacional para garantir e proporcionar a paz em todos os povos do mundo. Mas, infelizmente, a ONU nas mãos do governo americano, é utilizada como instrumento para que ele atinja todos os seus objetivos em nossa região e no mundo todo (…). Depois do fim da guerra fria, os EUA se tornaram a única força mundial dominante no mundo todo. Para eles não interessa a existência da ONU a não ser para executar suas ordens e seus objetivos. E como somos parte daqueles que lutam pela paz e pela justiça, estamos lutando para a independência da ONU frente à soberania norte-americana, para salvar a organização e ajudar outros povos a se salvarem das garras dos EUA.

Nós do Líbano, um país com uma pequena população, atuamos com a ONU e apoiamos suas resoluções que beneficiam os países do mundo árabe. No entanto, o único país que, em nenhuma situação aceitou ou colocou em prática as resoluções da ONU foi o Estado de Israel. (…) Por um lado, nós defendemos a existência da ONU, por outro, temos esse caso do Estado de Israel que, tendo apoio americano, desrespeita todas as resoluções da ONU ou só cumpre aquilo que lhe convém.

O Hizbollah defende o reconhecimento do Estado de Israel e a formação do Estado Palestino nos territórios ocupados em Gaza e Cisjordânia?

Hamade – O Hizbollah não reconhece o Estado de Israel por ser um estado agressor, que entrou à força, invadiu a terra e matou o povo e expulsou quem podia expulsar.

E como invadiu à força, nós defendemos o direito do povo palestino de tomar de volta a sua terra e retornar ao seu país. Nós apoiamos o governo palestino e todos os partidos e facções que atuam no seu interior e pedimos que eles entrem num acordo para chegar ao seu objetivo final que é o retorno dos palestinos espalhados no mundo para aquela região. É uma situação desagradável para nós vermos os conflitos entre os partidos palestinos. Achamos que é uma necessidade extrema a união do povo palestino. Quem acaba perdendo com essa divisão é o povo palestino que vive em desgraça há várias décadas. Os únicos que, de fato, se beneficiam com esses conflitos é o Estado agressor de Israel.

Sobre a formação do Estado palestino, vocês defendem em todo território histórico ou nos territórios ocupados?

Hamade – Em minha opinião pessoal, creio que haveria de ser formado um estado palestino onde tanto judeus quanto palestinos poderiam viver democraticamente em seu interior. Mas os EUA e o Estado de Israel sequer reconheceram àquelas partes do país para formarem o estado palestino. Há décadas está havendo encontros, negociações entre as duas partes, patrocinadas pelos países da Europa e pelos EUA para formar dois estados, o Estado de Israel e o Estado palestino. Esses acordos sempre foram respeitados pelo povo árabe e pelo povo palestino e jamais foram respeitados ou cumpridos pelos Estados Unidos e por Israel, que sempre fizeram o contrário das resoluções da ONU e atacaram os palestinos.

Qual a proposta do Hizbollah para a crise política do Líbano hoje?

Hamade – O Hizbollah faz parte de uma força de oposição na qual estão presentes vários partidos políticos no Líbano. Essa força política apresentou um projeto de lei para o governo com três pontos essenciais para sair da crise: o primeiro é a formação de um governo que defenda a soberania do país; o segundo é a formação de um governo onde sejam representadas todas as forças políticas; e o terceiro é que, é necessário garantir as reformas de tudo que foi destruído em 2006. Esses são os pontos de partida para uma reforma política no interior do país, que garanta uma política nova. Também foi pedida uma nova eleição do poder legislativo. Esse ano termina o mandato do presidente da república. Está sendo procurado um candidato que consiga expressar todas as forças políticas presentes no país, através de um acordo entre todas as forças políticas.

Post author Carol Rodrigues e Fabio Bosco, de São Paulo
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