ENTREVISTA: “A juventude quer ter direito à cidade”

    O Opinião Socialista entrevistou Arielli Tavares Moreira, militante do PSTU, dirigente do DCE da USP e da Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL). A estudante vem participando das jornadas de lutas desde o início, no mês de junho. Abaixo, ela fala sobre a evolução das mobilizações

    Opinião Socialista: Como você vê a onda de ocupações de várias câmaras municipais no país?
    Arielli Moreira – As Jornadas de Junho mudaram a situação política do país, colocando o movimento na ofensiva e os governantes numa encruzilhada. Eu vejo essa onda de ocupações com muita expectativa e esperança. As Câmaras de Vereadores, casas de corruptos e representantes das elites, estão sendo ocupadas pelo povo e pela juventude, uma demonstração de que essa falsa democracia, que só atende aos ricos e poderosos, não nos representa. Já tivemos ocupações vitoriosas em Belo Horizonte e Porto Alegre, além de várias outras, como em São Luís. A maioria delas foi motivada pela pauta dos transportes, principalmente pela reivindicação de passe livre estudantil.
    A Juventude do PSTU vai lutar nos fóruns populares e no movimento estudantil com o objetivo de construir uma grande campanha nacional, “Passe Livre Já, Brasil!”. Essa campanha é uma resolução do último Congresso Nacional da ANEL, que nós apoiamos. Nosso interesse é generalizar as ocupações em todo o país. Essa pauta está na ordem do dia. A luta contra o aumento das passagens foi o estopim de todo o processo que vivenciamos desde junho.
     
    Como você explica a importância dessa pauta para o conjunto das mobilizações?
    Arielli – A maioria da população dos grandes centros urbanos perde horas no transporte coletivo, no caminho do trabalho e do estudo. O povo usa um serviço precário, superlotado, sucateado e paga caro por ele. As tarifas são reajustadas acima da inflação. Por isso, o poder de mobilização da pauta é tão forte. A multidão não foi às ruas apenas por alguns centavos, foi porque não aguenta mais a corrupção e a precariedade dos serviços públicos. Ocupamos as ruas contra o descaso com a educação e, especialmente, contra a lógica privada do transporte coletivo.
     
    Em sua opinião, o grande problema do transporte coletivo é a lógica privada?
    Arielli – Sim. Na maior parte do Brasil, as antigas empresas municipais de transporte foram fechadas e se abriram concessões à iniciativa privada. O resultado não poderia ser diferente: serviço caro e de péssima qualidade. É revoltante ver a submissão das prefeituras às empresas do transporte. Os trabalhadores ganham pouco e convivem com retrocessos nas condições de trabalho, como a dupla função de cobrador e motorista. Não importa qual é o partido à frente das prefeituras, todos representam o empresariado, as famosas máfias do transporte. Os partidos precisam reembolsar as empresas que pagaram suas campanhas eleitorais milionárias. Em São Paulo, havia uma expectativa da população com o novo prefeito Haddad, do PT, que foi frustrada logo no início do mandato.
    Mas, ao contrário do que defendem outros setores, como o MPL de São Paulo, não acreditamos que a lógica privada do transporte está concentrada só na obrigação do usuário de pagar pelo serviço. O problema é mais profundo. Está relacionado ao papel do transporte urbano no sistema capitalista. As linhas de ônibus, horários e frotas, por exemplo, são elaborados de acordo com a necessidade de levar a classe trabalhadora ao serviço e ao comércio. O transporte deveria nos dar as condições para acessar cultura, educação, lazer e arte, não apenas trabalho e consumo. Além disso, a tarifa não é a única maneira de garantir o lucro, ela pode ser substituída pelo aumento dos subsídios que as prefeituras dão às concessionárias.
     
    O que o PSTU defende para resolver esses problemas?
    Arielli – Partimos das reivindicações por passe livre para estudantes, abertura das contas das empresas de ônibus e tarifa-zero. Mas a estatização do transporte coletivo é a principal medida para garantir o direito de ir e vir da população. É preciso cancelar as concessões privadas, aumentar os orçamentos municipais da área e criar novas empresas públicas de transporte nas cidades.
    Não acreditamos, também, que tudo estará resolvido se o transporte estiver nas mãos do Estado, porque todos nós sabemos que não podemos confiar nos políticos. As denúncias de corrupção no governo estadual paulista, com desvio de verbas do Metrô e da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos] demonstram a necessidade de a população controlar o transporte público. Defendemos a formação de Conselhos Municipais para administrar o serviço, compostos por movimentos sociais, sem a presença de empresários.
     
    O que tem de ser feito daqui para frente?
    Arielli – Para organizar os próximos passos do movimento, a juventude do PSTU vai buscar construir fóruns que unifiquem todos os setores dispostos a lutar. O Bloco de Lutas pelo Transporte 100% Público de Porto Alegre, que existe desde janeiro, foi imprescindível para as vitórias e a continuidade das ações do movimento. Esse exemplo precisa ser expandido para todo o país. Aqui em São Paulo, o fórum de entidades, (composto pela ANEL, sindicatos de metroviários e ferroviários, MPL, Luta Popular e MTST) deve se desenvolver e chamar a participação de todo o ativismo. Na construção desses espaços de unidade, estamos, infelizmente, atrás de todo o país.
    Em São Paulo, temos uma grande oportunidade para apresentar nosso programa, pois a concessão de ônibus, a maior da América Latina, foi adiada para o ano que vem. Além disso, foi instaurada uma CPI do Transporte da capital. Totalmente acuado pela força do movimento, o prefeito Haddad quer ganhar tempo e esperar a poeira baixar. Não podemos confiar nesta CPI. É fundamental continuarmos mobilizados, nas ruas, exigindo não só a abertura da caixa-preta do transporte urbano de São Paulo e a tarifa-zero, mas também o fim das concessões e a estatização das empresas de ônibus.

    Post author Da Redação
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