Gisele Sifroni, de Manaus (AM)

A cidade de Manaus registra até agora 1.275 casos confirmados do novo coronavírus e 71 mortos. Entretanto, como a doença tem sido subnotificada pela ausência de teste no Brasil (258 testes para cada um milhão de habitantes), calcula-se que esses dados não correspondem com a realidade, a cidade deve estar próxima de 11.550 casos e 583 mortos, segundo o cálculo realizado pelo Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido.

Nessa tenebrosa circunstância, os operários e operárias da Zona Franca de Manaus vivem o risco  do desemprego e o drama de se contaminarem. Na última semana, os trabalhadores do Polo Industrial de Manaus (PIM), denunciaram que muitas fábricas estão se aproveitando da pandemia para demitirem. Desde o início da crise do novo coronavírus mais de 350 operários perderam o emprego e outros 40 mil foram colocados em férias coletiva.

Entretanto, a tragédia não para por aí.  A maioria das empresas não aderiu à quarentena, mesmo não produzindo nenhum material essencial para o combate ao novo coronavírus. Para piorar, há relatos que empresas como a Foxconn, Cal- COMP, Flextronics, TSE Brasil e Inventus Power estão expondo pais e mães de famílias à contaminação da Covid-19.  Tais empresas se negam a distribuir material de higienização, álcool em gel e EPIs, além do distanciamento mínimo de um metro e meio.

Mas se esse fato em si já é criminoso, a sanha das empresas por lucro mostra-se completamente homicida. No aterrorizante relato dos trabalhadores consta que, no quadro de funcionários de algumas dessas empresas, há contaminados por Covid-19, e que mesmo nessas circunstâncias os operários seguem trabalhando em locais contaminados, sem equipamento de proteção ou apenas se protegem com máscaras que não podem ser trocadas por uma semana.

Frente a essa situação, na qual não há nenhuma exigência do governo Wilson Lima (PSC), menos ainda do governo Bolsonaro para que as fábricas façam o isolamento social coletivo, é urgente  que o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas deflagre uma greve geral na categoria para garantir a quarentena com estabilidade no emprego, seguindo o exemplo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP). Somente assim as vidas operárias não serão ceifadas pela ganância capitalista diante do coronavírus.

Por quem e para que se arriscam os operários

Em 2019, as empresas da Zona Franca de Manaus faturaram juntas mais de R$ 100 bilhões, em contrapartida a média salarial de um operário não ultrapassou R$ 1.500. Isso expõe que toda a riqueza que sai da cidade de Manaus para o mundo é produto da brutal superexploração da força de trabalho de homens e mulheres amazonenses que ganham abaixo do necessário para se manter como seres humanos.

A maioria das empresas que atuam na região são multinacionais chinesas, japonesas, estadunidenses, francesas, sul-coreanas, etc., que além dos seus lucros bilionários, são agraciadas pelos políticos brasileiros que mantém a isenção de impostos para essas empresas.

Nos bolsos e contas bancárias dos grandes capitalistas nacionais e estrangeiros, esse grandioso faturamento que poderia e deveria compor um fundo público destinado à saúde, educação, moradia e todas as demais necessidades sociais contrasta com a miséria dos bairros operários da cidade, verdadeiras favelas urbanas dominadas pelo narcotráfico, contrasta com os precários hospitais públicos nos quais trabalhadores da saúde não tem o básico para realizar atendimentos e, sobretudo contrasta com a dor e desespero das famílias que sepultam seus entes queridos sem nenhum tipo amparo do Estado brasileiro ou do governo do Amazonas.

E se as mãos que produzem a riqueza não são as mesmas que dela se apropriam, também não é por suas vidas que os trabalhadores da Zona Franca de Manaus se arriscam nesse momento, mas sim pelo lucro do patrão, o mesmo que não hesitará em substituir cada operário ou operária que adoecer ou falecer pelo novo coronavírus. Afinal, para os capitalistas o seu lucro está acima das nossas vidas e da vida dos nossos familiares.

Medidas propostas pelo PSTU diante da crise da COVID-19

  • Paralisação de toda a produção não essencial da Zona Franca de Manaus. E que somente as fábricas que tenham capacidade tecnológica para produzir equipamentos de combate à Covid-19 funcionem a partir da redução de carga horária, sem redução salarial, afastamento dos trabalhadores do grupo de risco e com a distribuição de máscaras, luvas, álcool em gel e EPIs àqueles que seguirem na linha de produção;
  • Proibição de demissões sem redução de salário;
  • Isenção de pagamento de luz, água e aluguel para pessoas de baixa renda;
  • Diminuição e congelamento dos preços de gás de cozinha;
  • Realização de testes gratuitos em massa;
  • Expansão do SUS a partir da expropriação de todos os hospitais privados;
  • Construção de um hospital emergencial no espaço da Arena Amazonas para ampliação imediata de leitos