Em uma polêmica é melhor usar argumentos

Existe uma discussão apaixonante sobre a retirada da concessão da emissora RCTV na Venezuela, que pode enriquecer a vanguarda de toda a América Latina.

No entanto, qualquer polêmica deve ser feita com argumentos. Infelizmente ainda sobrevivem os métodos do stalinismo, que envenenam conscientemente qualquer discussão. Gilberto Maringoni, militante do PSOL, usou essa postura em uma carta polêmica conosco. O texto de Maringoni foi assumido alegremente pelo PCdoB (o modelo stalinista no Brasil) em uma matéria assinada por Altamiro Borges (na íntegra em nosso site).

O stalinismo introduziu uma metodologia do “vale tudo” para desmoralizar as posições adversárias, desde a calúnia até o amálgama de posições. Para calar os críticos ao “grande irmão Stalin”, se erguia uma campanha de calúnias ligando os que se opunham à burguesia e ao imperialismo. Trotsky e todos os dirigentes da Revolução Russa foram apresentados como aliados do imperialismo nos famosos Processos de Moscou. Criava-se uma cortina de fumaça que tornava desnecessário rebater os argumentos e entrar na discussão política. A história comprovou a falsidade das acusações stalinistas.

Agora Maringoni e o PCdoB usam a mesma metodologia: se estamos contra o grande irmão Chávez, é porque estamos do lado da revista Veja e dos “setores mais reacionários da burguesia e do imperialismo”. É interessante lembrar que o PCdoB usou exatamente o mesmo argumento para atacar os que denunciavam a corrupção no governo Lula como “aliados da direita e do imperialismo”. No escândalo atual, esse partido chega ao ridículo de defender Renan Calheiros, dizendo que tudo não passa de deturpação da imprensa de direita para desestabilizar Lula.

O alinhamento incondicional a Chávez
Por trás da discussão sobre a RCTV está a atitude do PCdoB e de Maringoni perante o governo Chávez, que estaria, segundo eles, “na linha de frente da luta antiimperialista”.

É verdade que Chávez faz ataques verbais a Bush. Mas qualquer marxista sério toma em conta os atos e não só as palavras dos governantes.

Chávez é um aliado estreito dos governos europeus, que também são imperialistas. O governo venezuelano segue pagando religiosamente a dívida externa e manteve a exportação de petróleo para os EUA, mesmo durante a invasão do Iraque. A nacionalização do petróleo mantém a associação do Estado venezuelano com as multinacionais petroleiras, que ficam com 40% da produção e têm lucros gigantescos na Venezuela. Esta é a “vanguarda” da luta antiimperialista em todo o mundo?
 
Velhas teorias do stalinismo
Maringoni e Altamiro usam não só a metodologia stalinista, mas também suas teorias, como a dos “campos progressivos”, citada logo na abertura da carta de Maringoni. Segundo a tese, seria correto apoiar um governo burguês e ser parte de seu “campo progressivo”, contra o “campo reacionário”.

O problema é que a sociedade se divide em classes e não em “campos”. E os governos burgueses (incluindo todos os apoiados pelo stalinismo) foram e são contrários às revoluções operárias. Quando as mobilizações ameaçaram a burguesia, os governos burgueses “progressivos” reprimiram as lutas. Na revolução espanhola de 1936, o PC apoiou a repressão contra a insurreição operária de Barcelona, derrotando-a, o que acabou levando à vitória do fascismo de Franco.

Não é por acaso que nem Maringoni nem Altamiro fazem qualquer menção à recente greve geral de Arágua, um estado venezuelano que parou em protesto contra a repressão do governo Chávez à marcha da fábrica ocupada Sanitários Maracay. São “reacionárias” também essas mobilizações operárias, porque se chocam com Chávez? Esta paralisação não foi noticiada na imprensa chavista, tão elogiada por eles.

O outro argumento muito utilizado pelos stalinistas é a “ameaça de golpe”. Assim, tentam evitar qualquer ação independente das massas, levando às inevitáveis derrotas articuladas por esses governos burgueses.

O imperialismo já tentou um golpe militar na Venezuela, que foi derrotado pela ação heróica do povo em 2002. Naquele momento, o fechamento das emissoras de TV golpistas seria absolutamente correto, como medida de defesa militar. Isso foi reivindicado pelo movimento de massas e apoiado por nós naquela ocasião, mas Chávez não aceitou.

Não é verdade que a ameaça de golpe siga existindo. Houve uma mudança na política do governo norte-americano depois da derrota do golpe de 2002. Bush passou a conviver com Chávez, buscando desgastá-lo e substituí-lo por outro governo de direita eleitoralmente. Não existe nenhuma conjuntura de preparação de golpe e Altamiro e Maringoni sabem disso.

Além disso, um setor amplo da burguesia venezuelana passou de armas e bagagens para o lado de Chávez, incluindo Cisneros, dono da maior rede de TV privada e um dos principais líderes do golpe frustrado. Não foi uma “tática genial” do presidente a “neutralização” de Cisneros, como defendem Maringoni e Altamiro. Foi exatamente o mesmo tipo de acordo feito pelo governo Lula com a Rede Globo, que rende altíssimos lucros para a família Marinho.

Outros grandes burgueses que hoje apóiam Chávez são Alberto Vollmer, presidente da empresa de rum Santa Teresa, e Luis Van Dam, das Indústrias Metalúrgicas Van Dam. Além disso, o chavismo está gerando a chamada “boliburguesia”, a burguesia “bolivariana” a partir do dinheiro desviado do Estado, cuja maior expressão é Diosdado Cabello.
 
O episódio da RCTV
Chávez fechou a RCTV como parte de uma escalada repressiva contra o movimento operário e um setor da burguesia que não aceitou o acordo com ele.

Não foi por acaso que junto com o fechamento da RCTV tenha vindo a decretação do PSUV como “partido único”, rotulando todas as outras correntes do movimento que não aceitassem entrar neste partido como “contra-revolucionárias”. Chávez também se declarou categoricamente contra qualquer autonomia sindical. Que dizem sobre isso Maringoni e Altamiro?

Nós defendemos as liberdades democráticas em um Estado burguês porque o movimento de massas necessita delas para se organizar.

Trotsky, no texto reivindicado por nós, se coloca contra o fechamento de jornais da direita mexicana por Cárdenas. E olhem que o então presidente do México tinha uma postura antiimperialista muito mais conseqüente que Chávez, expropriando, por exemplo, todas as empresas petroleiras (sem o acordo feito por Chávez). Trotsky argumentava que as medidas antidemocráticas terminam se virando contra o movimento operário, como agora Chávez já anuncia, com sua postura contrária à autonomia sindical.

Chavez é um governo nacionalista burguês, como foram Perón (Argentina) ou Cárdenas (México). No caso de uma luta concreta contra o imperialismo (como no caso do golpe de 2002 na Venezuela), nós estamos dispostos à unidade com todos, inclusive com Chávez. Mas defendemos a mais absoluta independência dos trabalhadores perante todos esses governos burgueses, como única forma de podermos algum dia caminhar realmente para o socialismo.

A esquerda latino-americana que hoje se associa a Chávez está cometendo um erro grave, assim como os que apoiaram ou ainda apóiam o governo Lula.
De qualquer maneira, convidamos Maringoni e Altamiro a escrever nas páginas de nosso jornal para defender suas posições. Entre outras coisas, porque não somos stalinistas e gostamos do debate.
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