Em greve longa, bancários enfrentam a política econômica de Lula

`cartazNa mais longa greve desde 1991, os bancários entram nesta quarta, 6, no 22º dia de paralisação nacional. Ontem, petroleiros da Reduc, no Rio de Janeiro, votavam pela continuidade da greve por tempo indeterminado, iniciada no dia anterior.

A greve bancária teve início no dia 15 de setembro, quando as bases dos principais centros bancários do país, em assembléias massivas, se insurgiram contra a proposta rebaixada costurada entre Confederação Nacional dos Bancários (CNB/CUT), sindicatos, governo e banqueiros. Desde então, bancários de todo o país enfrentam uma brutal intransigência do governo federal e dos banqueiros.

Tal postura foi orientada pelo governo Lula, que colocou os bancos públicos federais na vanguarda da repressão, ameaçando os bancários, declarando que iria cortar o ponto dos grevistas e afrontando o direito de greve com a utilização de “interditos proibitórios”.

O governo do PT quer derrotar os bancários, principalmente para tentar evitar que as greves por aumento de salários se alastrem. A situação de arrocho da classe trabalhadora é tremenda e há uma enorme simpatia pela greve dos bancários em todos os setores.

O governo, que antes das eleições municipais tentou não ficar com uma má imagem, ensaiando declarações favoráveis aos bancários enquanto operava por debaixo dos panos para derrotá-los, logo em seguida mudou também o discurso, afinando-se integralmente com o FMI e banqueiros.

DIREÇÃO GOVERNISTA ATUA CONTRA A GREVE

Uma verdadeira rebelião de base impôs a greve nacional bancária contra a CNB/CUT e os sindicatos dirigidos pela Articulação Sindical, rejeitando a proposta rebaixada de 8,5% de reajuste que eles haviam costurado com os banqueiros.
Desde então, a direção governista assumiu formalmente a greve. Na prática, enfrentou-se com a base em assembléia em mais de um estado, quando esta exigia representação de base para acompanhar as negociações.

Em São Paulo, o sindicato fez corpo mole nos primeiros dias de greve, não colocando a estrutura como devia a serviço da greve. Depois de inúmeros enfrentamentos nas assembléias, melhorou a estrutura, mas seguiu sem nenhuma iniciativa para exigir abertura de negociação.

Depois de quase 20 dias de greve e demonstrada a total intransigência do governo e banqueiros, quando a base exigia negociação já e a Oposição defendia em várias assembléias do país a apresentação de uma contra-proposta para colocar governo e banqueiros contra a parede, a CNB/CUT e os sindicatos governistas foram contra. Os mesmos que tinham acertado com os banqueiros 8,5% de reajuste sem luta e sem consultar os bancários, passaram a defender “25% ou morte”. Mais uma vez, estavam do lado de lá. Governo e banqueiros não queriam negociação e a CNB/CUT e seus sindicatos governistas também não.

Foram de novo derrotados nas assembléias e, apenas quatro dias depois, a CNB acatou a contra-proposta aprovada em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e em outros locais.

Na verdade, a direção governista parece querer punir os bancários e buscar a derrota da greve.

A GREVE PRECISA CERCAR O GOVERNO LULA

A greve bancária precisa virar-se frontalmente contra o governo Lula, que busca esconder-se atrás da Fenaban (Federação Nacional dos Banqueiros), mas, na verdade, é quem realmente está no comando de toda essa intransigência contra os bancários.
A base já compreendeu isso. Por isso, as assembléias de São Paulo, Rio de Janeiro e outras aprovaram o envio de caravanas a Brasília e a exigência de pedido de audiência a Lula.

No dia 4, São Paulo enviou dois ônibus com ativistas para Brasília. Foram para lá também bancários do Rio de Janeiro, entre eles representantes da Oposição, como Dirceu Travesso e Cyro Garcia.

Em Brasília, foi pedida audiência com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, bem como a intermediação do presidente da Câmara – João Paulo – para abrir negociação.

Porém, mais uma vez, a direção governista barrou a principal ação que deveria ocorrer lá: uma mega manifestação contra Lula. De novo, os sindicatos ficaram mais preocupados em defender o governo do PT do que em defender os bancários.

A direção do sindicato de Brasília, junto com a CNB, manobrou, não permitindo que representantes da Oposição falassem na assembléia. Tampouco informou a base de que os bancários de São Paulo, por exemplo, estavam ali para fazer um ato com eles no Palácio do Planalto contra o governo Lula.

Mas nem bem consumava-se essa manobra, em Belo Horizonte a assembléia massiva passava por cima da direção do sindicato e votava o envio de caravanas à Brasília para dirigir-se ao Planalto.

MANTER E RADICALIZAR A GREVE
A greve em todo país é bastante forte, mas é mais ainda no BB e na Caixa. Há, entretanto desigualdades. São Paulo é onde há mais fragilidade, seja porque os bancos privados têm um peso muito maior que no restante do país e, embora os trabalhadores destes bancos tenham disposição para parar, não têm organização para tal e o sindicato não joga sua estrutura para isso.

São Paulo é onde os governistas atuam desde o início mais abertamente contra a greve e também onde hoje eles são mais odiados e rechaçados. A postura da direção gera insegurança na base que não vê nenhuma firmeza no sindicato.

O governo busca derrotar os bancários de conjunto e, de modo especial, os dos bancos federais. É hora não apenas de manter, como de radicalizar a greve, além de politizá-la, chocando-se com o governo do PT.