Em Campinas, prefeito muda sistema de transporte mas mantém exploração

Nas últimas eleições municipais, em 2004, a implantação do bilhete único para o transporte coletivo de Campinas foi defendida por vários candidatos. Os usuários poderiam viajar por duas horas com uma única passagem de ônibus, diziam. À primeira vista uma proposta avançada para um serviço público sempre acostumado a sugar ao máximo dos trabalhadores. Os aumentos da tarifa acima da inflação são constantes, como no primeiro ano da gestão petista de 2000/2004, quando as passagens subiram 30%, mesmo com o protesto de milhares de moradores em abaixo-assinado colhido por sindicatos, associações de moradores e o PSTU.

Mas o que mais chamou a atenção foi a unidade PT/PSDB/PDT na defesa do bilhete único. Zica, Carlos Sampaio e Dr. Hélio, os candidatos destes partidos, revezaram-se no horário eleitoral mostrando as vantagens deste sistema. Dr. Hélio foi eleito, mas os grandes vencedores foram os empresários dos transportes coletivos. Afinal, ganhariam com qualquer um deles, comprovando a denúncia do PSTU, de que “são todos farinha do mesmo saco”.

Mudanças prejudiciais
A implementação do bilhete único e do novo sistema de transporte foi anunciada com muita propaganda e estardalhaço, como sendo a salvação para um sistema saturado, que teria o usuário como grande beneficiado.

Passados 30 dias, só problemas e muita confusão. A numeração das linhas e os itinerários foram alterados sem qualquer consulta à população. Em alguns bairros o atendimento passou a ser feito somente pelos perueiros, com o argumento de não haver muita procura, e em outros somente por ônibus, com o mesmo argumento. Assim, foi tirado do usuário o direito de escolha, além da redução da quantidade de linhas causar um aumento do tempo de espera nos pontos.

Além disso, a maioria das linhas provenientes dos bairros passou a deixar os passageiros no meio do caminho, em terminais de baldeação. Na região do Campo Grande os passageiros são deixados na Pirelli. O terminal intermediário da região sul fica no estacionamento de um hipermercado. Um ótimo negócio para seus proprietários, que garantem consumidores extras durante a espera do ônibus.

Assim, o novo sistema prioriza viagens curtas em detrimento das linhas que cruzavam o centro ligando uma região a outra. O desvio dos ônibus aos terminais aumenta o percurso e o tempo de espera nos pontos, e o bilhete único torna-se suficiente apenas para o usuário completar sua viagem.

Como se isso não bastasse, para utilizá-lo é necessário fazer um cadastro e pagar antecipadamente um número mínimo de passagens, capitalizando as empresas. E cada passagem só pode ser usada para um número máximo de três viagens, mesmo que esteja dentro do tempo de validade. Isto é, com o novo sistema, a população só perde.

Mas ganham, e muito, os empresários, que reduziram o número de ônibus em circulação, além de andarem mais lotados com a baldeação de muitas linhas dos bairros para poucos ônibus que se dirigem ao centro. Sem contar que, aos poucos, as catracas eletrônicas são implantadas, uma ameaça permanente aos empregos dos cobradores. Mas os presentes da administração do Dr. Hélio (PDT) não param por aí. A prefeitura fez um empréstimo junto ao BNDES de R$ 290 milhões para a renovação da frota de ônibus, toda ela nas mãos de empresários privados, e anistiou uma dívida de R$ 90 milhões, referente à sonegação do ISS (Imposto Sobre Serviços), conforme denúncia da vereadora Marcela Moreira (PSOL).

A população reage
Por conta desta situação, moradores de alguns bairros têm se enfrentado com a Prefeitura. No Satélite Íris III, a população realizou três grandes atos, com mais de 200 pessoas em cada, exigindo que a linha do bairro faça o ponto final no Centro e não na Pirelli. A prefeitura foi obrigada a recuar.

No Parque São Bento, a população foi à luta por mais ônibus, conseguindo uma grande vitória. Da mesma forma, no Jardim Nova Europa, a nova empresa de transportes coletivos, que passou a utilizar ônibus bem mais velhos, causou indignação. Os moradores reagiram e aí também a prefeitura foi obrigada a trocar os ônibus. Nos três bairros a luta foi organizada através das associações de moradores dos bairros, o que valeu o comentário de um assessor do Secretário de Transportes de Campinas, de que só houve reação nas associações onde o PSTU está presente.

A luta da juventude
Este novo sistema não resolve os problemas que a juventude enfrenta para chegar às escolas, universidades e ter acesso ao lazer. Muitos jovens deixam de estudar em função do preço da tarifa dos transportes, ou andam a pé longos percursos. É por isso que, há algumas semanas, mais de 1.200 estudantes protagonizaram uma grande manifestação no centro de Campinas para exigir o passe-livre para a juventude, estudantes e desempregados. Neste mesmo ato, organizado pelo Movimento pelo Passe-Livre (MPL), a polícia – a mando do Dr. Hélio – não poupou cassetetes e sprays de pimenta. A repressão não intimidou os estudantes e o ato terminou em frente à Prefeitura com muito barulho.

Bilhete único é uma farsa
Como sempre acontece com qualquer prefeitura que administra os negócios da burguesia, a idéia do bilhete único foi aproveitada para esconder mais um grande ataque à população. Mas o prefeito não está sozinho. Apesar de adversários eleitorais, todos os partidos da direita aprovaram o novo sistema. E junto a eles estão o PT, que indicou o Secretário de Transportes, Gerson Luis Bitencourt, e o PCdoB, cujo vereador, Sérgio Benassi, é o líder da bancada governista na Câmara. Como se vê, a aliança de Lula em Brasília repete-se em Campinas: todos contra o povo.

As lutas contra o novo sistema mostram que é possível vencer esta batalha, mas, para isso, é preciso uma ampla unidade de ação entre as organizações estudantis, movimentos, associações de bairros e partidos de esquerda, centrada na ação direta. No entanto, a vereadora Marcela (PSOL) tem centrado suas ações nas instâncias institucionais da Câmara. É preciso mudar este rumo, pois somente a luta pode impor uma derrota ao governo e aos empresários do transporte, para exigir a estatização sem indenização dos transportes coletivos, a adoção da tarifa social e o passe-livre para a juventude, idosos e desempregados.

* Raildo Neves é diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região e Presidente da SAB do Jardim Nova Europa

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