O que há em comum entre Elis Regina, Zezé Mota, Gal Costa, Maysa e Maria Bethânia, além de serem o que são? Todas elas são reconhecidas vindas de uma mesma divina-mãe: Elizeth Cardoso, cujo centenário de nascimento (16 de julho de 1920) está sendo comemorado.

Elizeth nasceu nos arredores do Morro da Mangueira, numa família mergulhada na musicalidade e na cultura negra de sua época. Seu pai, violeiro e seresteiro, era amigo de Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), a quase mítica cozinheira e mãe-pequena (iakekerê, ou segunda pessoa mais importante num terreiro de candomblé), cuja casa na Praça Onze se tornou nada menos do que o berço do samba e circulava com os bambas como Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim.

Sua mãe, tida pela própria Elizeth como sua primeira influência, era uma dona de casa que, como muitas de nosso povo, embalava os seis filhos e fazia os serviços domésticos cantando. Também como muitas crianças negras, Elizeth teve de abandonar os estudos ainda criança e, aos dez anos, em 1930, começou a trabalhar; primeiro, como vendedora de cigarros e balconista, depois numa fábrica de sabão e como cabeleira.

Sua primeira apresentação pública foi no rádio, aos 16 anos, quando, depois de ter sido vista cantando por Jacob do Bandolim em sua própria festa de aniversário, foi levada para o “Programa Suburbano”, no qual ganhou imediatamente um contrato semanal e entrou em contato com Vicente Celestino, Araci de Almeida, Moreira da Silva, Noel Rosa e Marília Batista.

Mulher negra, divina e poderosa

O apelido “Divina” foi cunhado pelo jornalista Haroldo Costa em 1928, num artigo que elogiava o timbre de voz (ao mesmo tempo potente e suave) e o estilo da intérprete, que faziam com que ela transitasse divinamente pelo erudito e o popular e o fizesse em interpretações banhadas de sincera e profunda emoção.

Elizeth é daquelas artistas que merecem o codinome de “diva” também pelo seu temperamento e comportamento fora dos padrões. Assim que começou a carreira, iniciou um romance com ninguém menos que o “Diamante Negro” Leônidas da Silva (1913-2004).

Como recordou em uma entrevista em 1981, o pai, completamente avesso ao relacionamento, forçou uma ruptura “com uma vara de marmelo na mão”. Elizeth, porém, não só manteve o namoro, como ousou ainda mais, passando a viver com Leônidas sem oficializar a relação, o que em plenos anos 1930 era muito mais que um escândalo.

O relacionamento tumultuado acabou quando Elizeth tomou outra atitude pra lá de inusitada para uma mulher de sua época, decidindo adotar, como “mãe solteira”, uma criança que encontrou abandonada nas ruas. Um segundo relacionamento, também sem a benção do Estado ou da Igreja, foi com o músico Ari Valdéz, cujo término foi novamente ditado por Elizeth que, mesmo grávida, abandonou-o, cansada da combinação que persegue as mulheres: ciúme possessivo, recheado por traições constantes.

E mais uma vez Elizeth tomou as rédeas de sua vida. Rompendo com tudo que se esperava de uma mulher da época, não só aprendeu a dirigir como se tornou motorista de táxi. Isso tudo ao mesmo tempo em que cantava na noite e dançava com os clientes no Dancing Avenida.

A voz que ecoa a vida e atinge os céus

Sua carreira só deslanchou mesmo no início dos anos 1950, ao se envolver com o samba-canção, a vertente mais melódica do ritmo mais tradicional brasileiro, cujas influências – o bolero cubano, o tango latino e o jazz orquestral estadunidense – caíam como luvas em letras mergulhadas na fossa e ideais para curtir dor de cotovelo e dramas afins.

O sucesso foi finalmente conquistado depois de 1958, quando Elizeth emprestou sua divina voz para um disco que mudou a história da música brasileira, Canção do amor demais. O disco se tornou marco inaugural da bossa nova, com composições de Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, no qual Elizeth é acompanhada (em duas faixas) por João Gilberto ao violão, com destaque para “Chega de saudade”.

O sucesso, que veio aos poucos, levou Elizeth para o mundo, mas nunca tirou seus pés de perto do morro ou a fez olhar com desdém para o que estava ao seu redor. Em sua longa carreira, gravada em 44 discos, ela deu voz tanto para as “Bachianas”, do maestro Villa-Lobos, quanto para Candeia, Paulinho da Viola, Cartola, Zé Keti e Élton Medeiros. Portelense “doente”, amante do choro, interprete magistral de samba, também se envolveu com espetáculos musicais inovadores, como “Rosa de Ouro”, com Clementina de Jesus e Aracy Cortes, e o politizado “Opinião”, com Nara Leão.

Sua morte, em 7 de maio de 1990, lamentavelmente foi marcada pela dor depois da descoberta de um câncer, numa turnê no Japão. Mas as divas, verdadeiramente divinas, são eternas e sempre são lembradas pelos seus momentos de glória. E esses, felizmente, estão registrados e disponíveis até hoje.