Editorial: Lições que vem de fora

Manifestação do sindicalismo alternativo em Madri

A situação internacional se polariza com grande intensidade. A crise econômica mundial, que vai se alastrando, mostra que já existe uma recessão oficialmente na Zona do Euro, após dois trimestres consecutivos (segundo e terceiro desse ano) de queda na produção. Nos EUA, houve queda na produção industrial em um trimestre (terceiro) pela primeira vez desde 2009, expressando uma forte desaceleração no centro principal do imperialismo. Os chamados BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China) já vinham se desacelerando.

Mas o elemento determinante da situação mundial é a polarização da luta de classes. A greve geral na Espanha e Portugal, seguida também na Itália (4 horas), Grécia (3 horas) e acompanhada de manifestações em 23 países, realizada no dia 14 de novembro (chamadas na Europa por 14N), mostram a capacidade de resposta dos trabalhadores aos ataques brutais dos governos capitalistas. Por outro lado, a agressão de Israel à Gaza é a resposta militar do imperialismo aos avanços da revolução no Oriente Médio, mas pode acabar reacendendo ainda mais os conflitos. A resistência heróica do povo palestino é um símbolo mundial de luta contra a agressão nazi-fascista israelense.

A greve geral em vários países europeus é uma referência para a luta dos trabalhadores em todo o mundo. As multinacionais jogam trabalhadores de um país contra outro, sempre ameaçando transferir suas plantas industriais para outros países caso não se concorde com seus ataques. Responder de forma unificada internacionalmente é um marco para a resistência dos trabalhadores, pois ainda não tinha ocorrido nada semelhante desde o início da crise. Deu-se um passo adiante na luta contra os planos de austeridade impulsionados pelos governos europeus e a “Troika” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o FMI).

Não se pode ter ilusões em relação às burocracias sindicais que estão à frente das centrais europeias. Uma parte da motivação para essas lutas é a existência de governos de direita à frente dos principais países europeus, que jogaram essas burocracias ligadas à social-democracia na oposição, sem espaço de diálogo. É por isso que mesmo uma mobilização da dimensão que vimos no 14N não tem a continuidade necessária com um plano de lutas em direção a uma greve geral por tempo indeterminado nos principais países europeus. Mas essas lutas vão se combinando com o fortalecimento de direções combativas, como se expressa na manifestação alternativa de mais de 60 mil pessoas em Madrid.

Mas…e o Brasil?
A maioria dos ativistas que está à frente dos sindicatos, entidades do movimento estudantil e popular apoia esse governo. Mas está na hora de refletir sobre os rumos da situação internacional e do governo do PT.

O Brasil é uma parte de toda essa realidade mundial com características muito particulares: tem uma economia com fortes investimentos imperialistas e um razoável mercado interno e, por outro lado, tem um governo do PT, encarado pelos trabalhadores como um aliado. Essas duas características ajudam a manter a estabilidade capitalista em um mundo cada vez mais instável. Até quando vai isso?

A economia brasileira tem uma parcela importante voltada para a exportação de minério e produtos agropecuários, que sente fortemente os efeitos da crise europeia e a desaceleração chinesa. Mas ainda se apoia em um mercado interno de importância para as multinacionais, o que mantém a economia, ainda que se desacelerando. A indústria apresenta uma queda na produção do conjunto de 2012, mas vive certa recuperação nesses últimos meses, puxada pelas montadoras de automóveis. Mais dia menos dia, é provável que a crise internacional termine afetando mais duramente o país.

Para prevenir isso, o governo Dilma tem feito de tudo a seu alcance para defender os lucros das grandes empresas: redução de IPI, ampliação dos empréstimos, redução das taxas de juros. Tudo para manter o crescimento econômico a serviço das multinacionais e dos bancos. E agora, pode lançar o maior ataque aos trabalhadores já feito por um governo em muitos anos com o estabelecimento do Acordo Coletivo Especial (ACE). Nem FHC conseguiu isso.

Esses acordos significariam uma reforma trabalhista que poderiam atacar direitos básicos dos trabalhadores como férias, décimo terceiro salário etc. Essa é uma resposta do governo, prevendo que a crise econômica deve afetar o país e já repassando seus custos para os trabalhadores. A CSP-Conlutas e outras entidades marcaram um ato no dia 28 de novembro, em Brasília, contra o ACE. No dia 26, está marcado um debate inédito entre a direção da CUT e da CSP-Conlutas no Sindicato dos Metroviários de São Paulo.

Muitos ativistas têm expectativas no governo petista, mas têm críticas a muitas de suas medidas. É hora de repensar sua postura. Como o governo Dilma responde a essa situação internacional? Mantendo relações diplomáticas com Israel, que está promovendo um genocídio em Gaza. Não se viu nenhuma atitude de Dilma ou de Lula em apoio às grandes lutas dos operários europeus, a começar pela greve geral de 14N. Mas quer trazer para o Brasil os ataques que os governos europeus estão realizando.

Lula, na crise passada de 2009, conseguiu escapar com sua popularidade intacta, porque ocorreu uma recuperação rápida da economia. Mas isso pode não ocorrer agora. Pode ser que fique cada vez mais claro de que o PT, na verdade, governa para as grandes empresas.

É preciso aprender com os trabalhadores europeus e preparar também uma grande mobilização contra o ACE. Apoiemos as greves do proletariado europeu e a resistência heróica do povo palestino. E vamos exigir de Dilma que não implemente o ACE e rompa com Israel.